World Piano nº 1 – Mozart Bossa Nova

O Young Chang do Café Landtmann

(for english switch to the english flag!)

Buscar pianos por ai é tarefa difícil. Achar violão, reco reco, pandeiro é mais fácil. Tão bonito quanto, mas dá pra carregar e levar embora. Brasil tem música de levar no colo, que nem criança. O piano é grande e pesado, fica lá te esperando e você tem que ir até ele. É um senhor, daqueles com relógio de bolso que precisamos dar corda.

Vienna é, ao contrario daqui, o país do piano. Mozart, Schubert, Haydn, Schoenberg, Mahler, Webern só pra começar a lista, que é imensa. Ela é comprida porque existe uma tradição, a cultura do lugar cultiva a sua praxis. Aqui no Brasil, por mais que existam pianistas excelentes (sim temos muitos!), somos conhecidos por outra lista: Baden Powell, Dilermano Reis, Dino 7 Cordas, Garoto, João Gilberto, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro, Raphael Rabello, Yamandú Costa. Outra lista imensa, mas do instrumento que se leva no colo.

Estou longe de sustentar um ciúme, ou querer criar uma rixa boba entre piano e violão, mas quero provar o ponto de que se colhe o que se planta. A semente violonística brasileira parece vingar mais rápido. Portanto, acho válido começar esta sessão de pianos e suas cidades com uma em que a semente mais forte é nosso instrumento de estudo. Vienna é mais do que apropriada.

Esta sessão infelizmente não seguirá um cronograma, preciso estar de ferias para faze-los, mas quando possível postarei pianos internacionais.

Vienna é linda como toda cidade que já foi centro de impérios muito antigos e que acumularam muito dinheiro e, portanto, fizeram questão de que a cidade representasse tudo o que havia de melhor daquele povo, daquela cultura. Com muitos monumentos, parques e teatros, ela tem tons de branco da arquitetura e verde dos parques. Estive lá no verão e é interessante observar como a cidade pertence aos moradores, eles a ocupam nos gramados, nos passeios de barco pelo canal do rio Danúbio ou o rio Vienna, nas piscinas públicas, nas bicicletas, nos cafés. Um ponto turístico necessário a todos que estão na cidade é o Ringstrasse. Trata-se de uma avenida circular que foi construida em volta do centro de Vienna, a avenida substituiu uma antiga muralha que protegia a cidade contra invasões. A expansão dos bairros e a dificuldade com o transito até eles, fez com que em 1857, o imperador Franz Joseph I demolisse a muralha e começasse a construção deste anel viário.  Ao longo dos anos outras construções importantes foram acompanhando o curso da avenida, como o Museu de História Natural, o de Arte, a Ópera, o Parlament, o castelo imperial Hofburg. Sigmund Freud tinha o hábito de andar pela avenida todos os dias, olhava os monumentos e parava para um café no Café Landtmann, onde está nosso piano.

Não estamos falando de um lugar comum, o lugar é histórico, uma instituição vienense, foi e é frequentado por notáveis além do próprio Freud, Gustav Mahler, Marlene Dietrich, Hillary Clinton e Sir Paul McCartney. Platéia de peso.

Foi fundado em 1873 por Franz Landtmann, um empresario que veio de uma família simples de trabalhadores industriais. O café foi inaugurado com a pretenção de ser o café mais elegante da cidade. Na época, um teatro estava sendo construido bem na frente do local e o senhor Landtmann sofria com terríveis dores de cabeça até que decidiu vendê-lo. Em 1881, Wilhelm Kerl comprou o café e o dirigiu pelos 45 anos seguintes.

Kerl era muito bem relacionado na cidade, muito sociável e famoso pelo seu carisma, depois  que cumpria suas incumbências profissionais, ele jogava tarot para seus clientes.

Mas a carta que a história da Aústria tirou do baralho foi a carta sombria da morte e a Primeira Guerra Mundial atingiu a Europa inteira. O país entrou em crise e a comida era escassa, faltava leite e o café teve que cortar itens do cardápio, como o Einspänner, o café com leite, era servido um café diluido com água. Foram excluídos a famosa Sachertorte, uma torta doce típica, e o Melange, que é o cappuccino deles. Para fazer o Kipferl, uma espécie de croissant, as pessoas tinham que levar sua própria porção de farinha fornecida pelo estado e o Landtmann se encarregava de assá-la.  A mulher de Kerl ficou muito doente e o café foi vendido mais uma vez.

Karl Kraus, que assumiu o café em 1916, vinha de família rica, mas não conseguia manter o padrão alto do café. As depredações e saques eram constantes e ele foi convocado para lutar. Foi capturado e virou prisioneiro de Guerra na Sibéria durante 6 anos e meio. Sua mulher, sem saber seu paradeiro, acabou vendendo o café. Quando ele voltou, tudo tinha mudado e o café não era mais dele.

As manifestações em Vienna sempre ocorreram no Ringstrasse, próximo ao Landtmann, onde está o Parlamento Vienense. O pós Guerra foi devastador para toda a Europa, a Aústria entrou em uma grande crise e as pessoas estavam desesperadas. Entre outras coisas, esta falta de perspectiva foi um elemento chave para a Segunda Guerra que ainda viria. A inflação era imensa e Konrad Zauner, o novo dono do Landtman, tentava ao máximo manter as portas do café abertas em 1926, quando o adquiriu.

Zeppelin sobrevoa Rinstrasse, 1931

Como estratégia de negócios, ele atraiu várias celebridades de Vienna: atores, músicos, professores universitários de prestígio, artístas e politicos. O lugar tornou-se badalado e em voga. Foi inaugurado o Golden Book, um livro no qual as notáveis personalidades deixavam seus recados para o Landtmann. Era uma época de muito engajamento politico, mas o café, assim como seu dono, fizeram questão de manter o lugar neutro, onde ambos os lados poderiam ser clientes.

No entanto, o nazismo e a Segunda Guerra fizeram com que esta neutralidade não pudesse ser mais sustentada. Ou você acenava para Hitler, ou a morte era teu destino. Sabendo da influência do café na sociedade da cidade, o Landtmann foi ocupado, e os nazistas assinaram com tinta preta o Golden Book do café.

Vienna foi bombardeada 52 vezes durante neste período, o Schwarzenberg Palace, entre outros prédios, foi completamente destruído. Durante os bombardeios, todos se recolhiam no porão do prédio, e eles improvisaram uma cozinha lá embaixo para tentar continuar a trabalhar. Muitos se abrigavam em seus porões, mas os escombros eram tantos que não se conseguia sair, e eles morriam sufocados. No Landtmann, toda vez que se descia, eles levavam uma arma, caso isso ficassem presos. Assim, eles poderiam acabar com seus sofrimentos rapidamente e se livrar de morrerem lentamente sufocados. Os russos tomaram o café e colocaram uma metralhadora no terraço do prédio, em uma época em que os saques eram constantes.

Em 1955, foi assinado o Austrian State Treaty, negociado pelo chanceler da época Julius Raab e a Aústria se tornou um estado republicano livre finalmente. A festa de celebração deste acordo aconteceu nos salões do Landtmann, que testemunhou de perto a retirada dos nazistas de sua cidade.

Julius Raab tomando seu café.

Outros tempos vieram e em 1975, Herbert Querfeld comprou o café da viúva Zauner, depois que Erwin morreu em um acidente de carro. A família Querfeld vinha do ramo de eletroeletrônicos e gerencia o lugar até hoje. Eles modernizaram o estabelecimento, ampliaram o terraço, fizeram uma sala de conferência e padronizaram a sua gestão de negócios em cafés. A Família é proprietária de mais seis estabelecimentos, os tradicionais Café Mozart, Café Residenz, Café Museum, Hofburg, Park Café e o Landtmann`s Patisserie.

Para restaurar o clima elegante desejado pelo fundador, Querfeld fez questão que no salão principal tivesse….um piano. Inusitado é que, no país do piano, no café mais marcante de Vienna, o piano é Coreano. É um piano de armário preto da marca Young Chang, que fica na cidade Incheon, na Coréia do Sul. A empresa que tem se destacado na area por aglutinar várias outras marcas de instrumentos musicais como a Samick  e a Squier (guitarras) e a Kurzweil (teclados), também produz a linha de pianos Essex para a Steinways & Sons. Ela foi comprada pela gigante Hyundai em 2006 e é a maior fabricante de pianos da Coréia do Sul. O piano está impecável, afinado, é da série platinum da marca e mesmo sendo um piano de armário, no qual o som é mais seco, ele possui um bom sustain. Pode ser também pela posição do piano no grande salão.

Fiz questão de tocar uma música brasileira, mostrar para os “gringos” nossa música de colo, de leveza e sofisticação, de convencimento sedutor que é a Bossa Nova. Toquei Dindi, do Tom.

São tantas referências simbólicas nesta história que fica até difícil terminá-la. A quantidade de informação em um só lugar, que no ano que vem completa 140 anos, consegue narrar a história da cidade de uma maneira muito particular. Fazendo pão, servindo café, recebendo gente, a singeleza das coisas que compõem a cultura de um lugar. Querfeld diz que não se pode gerenciar o Landtmann como um museu, ele precisa estar vivo para os dias de hoje. Uma constante renovação, reconstruída literalmente de muito escombro. Deixar o passado ir, torná-lo tão leve que dá pra levar no colo, como a música de violão no Brasil.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Adriana Camarinha

Ps 1: Um enorme agradecimento para Adriana Camarinha, Amanda Camarinha, Roman Fussthaler, Barbara Fussthaler e Christian Karli, dos quais sem a gentileza e a ajuda este post não seria possível. Um brinde a vocês!

Ps 2: Visitei a loja dos incríveis pianos da Böesendorfer Pianos, vi e toquei em modelos desesperadores de tão lindos. Inclusive no modelo exclusivo de aniversário ao artista Gustav Klimt.

Piano nº 12 – 피아노 significa piano

 

 

 

Temos 512 anos de Brasil, 458 anos de São Paulo. Eu tenho 29 de vida e 9 aqui nesta cidade. Por mais que o tempo passe, confesso que, saber o que é ser brasileiro é uma dificuldade enorme. Sentir-se paulistano então, é uma conta ainda mais complicada.

Parece que todos nós viemos de outro lugar, mesmos os que nasceram na maternidade Santa Catarina que fica na avenida Paulista. Quanto mais pesquiso, concluo que é da natureza do paulistano incorporar outras culturas. São Paulo não existe, é um Frankestein construido de partes alheias. Um braço do interior, uma orelha do sul, a cabeça do nordeste, o pé da Itália…assim vai. Habitamos todos, este grande monstro pesado, cheio de retalhos e emendas, que se movimenta lentamente. Somos células importadas.

Importamos pianos, importamos gente. Tocamos música, contamos histórias. Parece não haver diferença.

Meus 9 anos de vida paulistana é o mesmo número da idade que tinha Regina Hwang, dona do piano deste post, quando chegou no Brasil. Ela e a família sairam de Seul, na Coréia do Sul, e vieram lançar aquela tal moeda da sorte aqui na capital paulista. Ano que vem, São Paulo comemora 50 anos de imigração Coreana, a comunidade já está preparando as festividades e isso será tema da escola de samba Unidos da Vila Maria. Não tem como misturar mais que isso!

A imigração coreana no Brasil está relacionada ao período de instabilidade que a Coréia vivia nas década de 50 e 60. A Guerra da Coréia foi travada entre 26 de junho de 1950 a 27 de julho de 1953 e dividiu a Coréia em Sul e Norte. A primeira capitalista, apoiada pelos estadunidenses, passou a chamar República da Coréia. A segunda, comunista, apoiada pela União Soviética, passou a chamar República Popular Democrática da Coréia. Hoje conhecemos as duas por Coréia do Sul e Coréia do Norte. Já nesta época pequenos grupos de imigrantes vieram para o Brasil

Uma década depois, a instabilidade política ainda existia e, em 1961, levou a um golpe de estado liderado pelo general Park Chung-hee. As grandes imigrações começaram nesta época. A data oficial é celebrada em 23 de fevereiro de 1963, mas o acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo tem fotos incríveis de viagens de um ano antes, quando navios partiam do porto de Busan na costa da Coréia do Sul para atracar no porto de Santos.

Coreanos saindo do porto de Busan para o Brasil. (imagem: acervo digital Museu da Imigração)

Hoje os coreanos são por volta de 40 mil só em São Paulo, fazendo do Brasil o sexto país em volume de imigrações, com mais ou menos 50 mil. Dominam o setor têxtil de confecção e se concentram nos bairros do Brás e Bom Retiro. Quando vieram, se instalaram na Baixada do Glicério ,que é a região localizada às margens do rio Tamanduateí, nos distritos da Liberdade e da Sé.

Nosso piano fica no restaurante Portal da Coréia, localizado na Rua da Glória, 729 – Liberdade. É um piano alemão de armário, castanho, da marca Gustav Breyer, e tem uma história curiosíssima. Ele pertencia a uma pianista coreana que veio para o Brasil com a família em busca de uma professora de piano, que era ninguém mais ninguém menos do que a grande concertista Magda Tagliaferro, que morava no Rio de Janeiro na época. Segundo o relato de Regina, o piano foi adquirido através dela. Fiquei desesperada para saber o nome da pianista coreana, mas Regina só lembra o sobrenome, An.  O piano precisaria de uma reforma, a afinação está mediana, o som está um pouco carregado nas frequências agudas. Mas o peso da tecla está bom e o teclado está nivelado.

Cantei propositalmente a música Oriente, do Gilberto Gil, que está no antológico disco Expresso 2222, de 1972, disco que ele lançou depois que voltou do exílio em Londres. A canção fala sobre uma busca por uma outra ordem de organização, questiona o jeito de pensar do ocidente/egocentrico e propõe uma virada para os valores orientais, para uma filosofia mais integral com a natureza, para uma retomada da concentração. Como podemos ver nos versos: “pela simples razão de que tudo merece / consideração” e também em “pela simples razão de que tudo depende / de determinação”.

Regina tem o restaurante há três anos. Seu pai chegou em São Paulo em 1970 para trabalhar com confecção e dois anos depois a mãe, que também trabalhou com restaurantes, veio com ela e os dois irmãos. Eram apenas os 5 e a cidade. Idioma, comida, moda, música, clima: tudo diferente.

Os pratos mais conhecidos do restaurante são: o Bulgogi – que são fatias finas de carne com um tempero suave assadas na hora numa chapa quente; e o Dolsot Bibimbap, que é um risoto a moda coreana, cozido no prato de pedra com legumes, shimeji, champignon, carne e ovo. Agustin e eu provamos a comida depois da gravação e eles são fantásticos! É uma ótima pedida para quem gosta de comida oriental, mas está cansado daquela mesmice…Tudo é gostoso.

Além do restaurante, ela é professora de Hankook Muyong, dança tradicional da Coréia, sua verdadeira paixão. Ela e seus alunos já se apresentaram em várias cidades brasileiras. Quando perguntei se ela se considera mais coreana ou brasileira, ela respondeu coreana. Para ela, a vida dentro da comunidade foi muito necessária para conseguir se estruturar em São Paulo.  Porém, esta mesma certeza cultural não é compartilhada pelos 4 filhos dela. De outra geração, as três meninas e um rapaz, que hoje faz faculdade na Coréia do Sul, as outras duas estudaram em faculdades brasileiras, e a caçula de 10 ano ainda está no colégio, oscilam entre uma cultura e outra. Ora se sentem brasileiros, ora coreanos. Estudaram em colégios brasileiros, têm amigos brasileiros e dependeram menos dos laços comunitários coreanos.

Todos eles se sentaram ao Gustav Breyer e estudaram piano.  Escutam K-pop, música pop coreana e a nossa MPB. Estão inseridos na cultura antenada e tecnológica da metropole, filhos do mundo cosmopolita, onde fronteiras não importam muito. São Paulo e Seul não estão separadas por oceanos, mas a um clique de distância.

Acredita-se que os primeiros habitantes da Coréia chegaram lá há aproximadamente 500 mil anos, fundando a dinastia Choson.  O que é o peso desta tradição milenar em comparação com nossos minúsculos 500 anos de descobrimento? Como somos mesmo uma terra jovem! No entanto, os tempos de hoje são regidos pelo signo da transformação. Moderno high-tech e tradição milenar são consonâncias de um mesmo acorde, seja lá na Coréia ou aqui em São Paulo.

Nossa crise de identidade não terá hora para acabar. Mesmo um país com tanta história, como a Coréia do Sul, com milênios no sobrenome tem que se reinventar. Acredito que aqui não será diferente. Talvez com alguns mil anos entederemos mais quem somos e o que estamos fazendo.

Quantos pianos ainda até isso!?!?

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

19/08/2012

Ps: Muito obrigada a querida Natália Lago, por mais uma indicação.

Piano nº11 – Piano Plié

o piano Brasil do Estúdio de Ballet Cisne Negro.

 

 

Algumas pessoas falam que existem certas habiliades que, ou você começa desde pequeno, ou esquece, nunca mais vai conseguir tê-las. Tocar piano é uma delas. Ou você começa desde os 3 ou já era. Que horror! Fico pensando quanto tempo eu perdi ouvindo esse tipo de gente amarga. Eu tinha 21 anos quando resolvi estudar piano para valer. Não sou, nem pretendo ser nenhuma concertista, mas estou chegando devagar no meu caminho, leio partitura e cifras até complicadas, improviso ainda é uma montanha a se escalar, mas um dia eu chego lá. Se quando menina tivesse escutado mais o meu coração e menos essas pessoas chatas, talvez teria convidado o piano para sair mais cedo, mas fiquei de paquera por muito tempo. Devia ter pedido em casamento muito antes, mas… não se pode chorar pelo leite derramado.

É óbvio que estudar alguma coisa desde pequeno é muito melhor, o corpo assimila de outra forma e aquilo fica incorporado naturalmente na pessoa. Mas não existe tempo nem calendário para nossas vontades e nossos desejos, muito menos os de ordem artística. Outra habilidade sobre a qual falam essa mesma bobagem é o ballet.

O post de hoje tem um caráter muito especial para mim, é um post dançarino. Não que eu saibar dançar, muito pelo contrário, mas quando entrei na nossa locação tive uma sensação familiar. Cheguei no Estúdio de Dança Cisne Negro e me reconheci em muita coisa da escola de dança que existe há mais de 50 anos e é, talvez, a mais famosa escola de ballet do Brasil. As salas, espelhos e barras, as meninas de meia calça rosa que andam com os pés abertos, que nem pato. As professoras gritando “5…6…7…8…” e a música por todos os lados.

Na minha casa, onde cresci em Rio Claro, só se falava em ballet. Minhas duas irmãs dançavam e aquilo era a vida delas. Por consequência, acabou sendo a vida da minha mãe, que sempre nos apoiou, e de meu pai, que foi arrastado de lambuja para todos os recitais, dos meus 5 anos até hoje, e, assim, acabou gostando. Até eu entrei nessa, fiz uns aninhos, mas vi que não era para mim. Montei uma banda de rock e fui tocar Deep Purple, Jimi Hendrix e Eric Clapton. Era revoltada, rebelde sem causa, e gostava de preto, nada de rosa.

Mas de tanto respirar dança em casa, conheci muitos repertórios e histórias de bastidores das bailarinas e, sem que eu soubesse, acabei entendendo bastante do assunto, tudo por osmose. Uma irmã parou de dançar, a outra dança até hoje e fez disso sua vida, foi para Londres estudar ballet clássico e jogar a moeda da sorte dela na terra da rainha. Este post então vai para ela e para as infinitas possibilidades do que ela pode ser.

Luana e Gustavo (foto: Débora Peroni)
Luana Ferreira e Gustavo Lopes (foto: Débora Peroni)

O Estúdio Cisne Negro fica na rua das Tabocas, na Vila Beatriz; foi fundado graças a uma eterna apaixonada pela dança chamada Hulda Bittencourt e seu marido Edmundo. Nascida em Santa Cruz do Rio Pardo, desde criança ela sonhava em ser bailarina. Até que, na década de 50, teve aulas com a bailarina russa Maria Olenewa.

A professora russa foi peça fundamental para introdução do ballet clássico no Brasil. Se mudou de Moscou para o Rio de Janeiro em 1926, onde criou a Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois de formada uma base de dançarinos lá, em 1947, ela se mudou para São Paulo e começou a criar esta cultura aqui. Em uma destas classes pioneiras, estava dona Hulda.

Dona Hulda costumava dançar em programas da TV Tupi, mas o marido não era muito fã da idéia, então montaram a escola de ballet que funcionava nos andares inferiores do prédinho que haviam construido – eles moravam nos superiores. Foi o primeiro espaço voltado exclusivamente para a dança em São Paulo, na época a região era só mato.

Em 1977, ela montou o Cisne Negro Cia de Dança que funciona independente do estúdio onde fica a escola. Para o primeiro espetáculo da companhia, em 1977, ela recrutou estudantes de educação física para o elenco masculino, pois não haviam bailarinos homens disponíveis.  A companhia tem 35 anos e é reconhecida mundialmente como um dos grandes nomes do ballet brasileiro no mundo. Na época do governo Collor, a escola passou por muitas dificuldade e quase fechou as portas, mas, escondida do marido, dona Hulda conseguiu um empréstimo no banco e o Cisne Negro pode retomar suas atividades. Dona Hulda até hoje se dedica ao ensino e divulgação desta arte em todo o Brasil e no mundo.

Dentro de uma das salas principais do Estúdio está nosso convidado, um piano de armário da marca Brasil, de madeira castanha escura. Sua afinação está um pouco prejudicada, os pedais também, necessitaria de uma boa reforma e o banquinho está perdido. Eles usam o piano para as aulas de ballet e exames da Royal Academy de Londres, que exige a presença de um pianista durante a prova. Nosso piano acústico não é mais o primo bailarino e foi substituido por um piano digital, que também fica na sala. Mas ele permanece encostado no canto, proibido de ser vendido, para que os alunos não fiquem sem música caso acabe a energia.

Dois destes alunos foram gentis de compartilhar seus respectivos talentos conosco, em nossa visita ao piano Brasil. Luana Ferreira e o Gustavo Lopes começaram a dançar muito novos, estudam no Estúdio e planejam seguir carreira no ballet. O dedicamento deles é visível em seus físicos alongados. Os dois dançando criam linhas lindas que riscam todo o espaço amplo da sala. Eu, Agustin e Débora ficamos de queixos caídos quando os dois começaram a esboçar passos em cima da música que eu tinha apresentado, e que não tinha nada a ver com o repertório que estavam acostumados a dançar. Habituados a dançar com música clássica, eu cheguei com o pop/jazz da cantora e pianista israelense Yael Naim. Fui ver o show dela recentemente e me apaixonei pela leveza de suas composições, então escolhi a musica I Try Hard, de seu terceiro álbum. No começo, os dois estavam apreensivos com o que fazer, mas logo foram se soltando e criaram uma coreografia na hora para nós. O resultado ficou lindo, nosso primeiro vídeo com participações especiais.

Agustin, eu, o piano e Luana (foto: Débora Peroni)

Os pianos Brasil são um clássico no país, foram fabricados em São Paulo, mas possuiam a marteleira e mecânica importada. As peças do interior do instrumento vinham de fora ou dos Estados Unidos, da fábrica Elephant, ou da Alemanha, da fábrica Renner.  As partes de madeira eram colocada aqui no país. A marca ficou muito conhecida nas décadas de 50 e 60, porém encerrou suas atividades na década de 70. Atualmente, os pianos Brasil são raros e disputados a tapa pelos restauradores, pois possuem um ótimo som por um preço acessível. O meu piano é um piano Brasil, eu sou fã da marca e é o primeiro post em que eu encontro um piano deste!

Ele pertenceu a pianista Maria Inês de Vasconcellos que ganhou o instrumento novinho de seu pai, aos 8 anos de idade. Ele foi comprado na antiga e antológica loja de música Casas Manon, que atua em São Paulo há 95 anos.  Foi neste piano que Maria Inês concluiu sua formação no Instituto Musical de São Paulo. Ela se tornou pianista especializada em acompanhamento para dança por acaso. Na época, ela trabalhava tocando piano nas aulas de ginástica, muito antes das músicas eletrônicas invadirem as academias fitness. Em um belo dia, a pessoa encarregada pela música no Cisne Negro faltou e ela foi substituí-la. Nunca mais saiu, tem 33 anos de casa. Hoje, ela viaja o Brasil todo acompanhando salas de bailarinos, além de países no exterior como o Canadá.

Maria Inês Vasconcellos acompanhando exames.

Com 65 anos, ela conta que tocar piano para o ballet é completamente diferente dos recitais de pianos normais. Exige um outro tipo de sensiblidade e que o que a preparou para a tarefa foi sua perseverança. Acompanha os bailarinos tocando composições improvisadas na hora. O professor dá um andamento, ou cantarola alguma coisa e cabe a ela traduzir o que se passa na cabeça do coreógrafo em uma música. Dai então os bailarinos vão atrás da música que serve de parâmetro para organizar os passos da dança. O tempo é o martelo corretor.

Há vinte anos, gravou o seu primeiro cd de músicas para aula de ballet. A criatividade e o improviso são seus maiores materiais de trabalho, ela acredita que, sem isso, tocar para dança seria impossível. Quando perguntei o que a dança a tinha ensinado, ela falou que tocava com a alma e isso só era possível porque existia a troca. Quando existe retorno e diálogo entre as artes, seja a dela com o piano, os bailarinos e seus movimentos, o professor e seu ensinamento, é nesta ocasião em que fica fácil tocar com a alma.

E como se fosse obra do destino, Maria Inês tocou para minha irmã dançar em várias aulas e exames há muitos anos. Ela lembrava até da minha mãe sentada no banco da sala, costurando fita na sapatilha, esperando a aula acabar. Nós nunca nos vimos antes, mas o piano tocou que tocou e acabou unindo nossa conversa.

Não tem jeito, estamos todos amarrados com cordas de piano, quanto mais toco e escrevo, mais comprovo esta teoria.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

23/07/2012

Video: Agustin N. Oroz

Fotos: Débora Peroni

Bailarinos: Luana Ferreira e Gustavo Lopes.

ps1: Um agradecimento especial a Luciana Vigneron do Estúdio Cisne Negro.

ps2: dica quente de nosso leitor Caio Ramos: mudaram de lugar os pianos das estações de metro o da Sé foi para o Brás e o da Tamandatueí foi para o Paraiso! Alguém tem notícias do piano da Luz?? continua aquela coisa horrível!?

(foto: Débora Peroni)

Piano nº 8 – O uruguaio, os gêmeos alemães e a empresa inglesa.

O Zimmermann e o Ritter & Halle do Centro Cultural Aúthos Pagano.
O Zimmermann e o Ritter & Halle do Centro Cultural Aúthos Pagano.

Eu vivo falando sobre o tempo neste blog. Acredito que, como Caetano diria, ele é um dos deuses mais lindos. Para mim, parece que buscar os pianos de São Paulo tem cada vez mais sido como um retorno ao passado.

Seriam os pianos, máquinas do tempo? Toda a história de um lugar em um objeto.

A edição de hoje foi feita no Centro Cultural Aúthos Pagano, que fica no Alto da Lapa. Aúthos Pagano foi um intelectual que nasceu no Uruguai, mas veio para o Brasil ainda menino. Aos 23 anos escreveu a primeira tese de doutorado em economia do Brasil, “Coeficiente Instantâneo de Mortalidade, defendida em 1939, ela lhe rendeu o título de Doutor Honoris Causa em Cuba.

Estudou também, Filosofia, Direito, Estatística e Matemática, no final da vida se interessou por Astronomia, gostava das leituras de Júlio Verne. Lecionou na faculdade Mackenzie no começo dos anos 50 até a data de seu falecimento em 1976.

Sua casa é abarrotada de livros, são mais de 10 mil títulos em sua biblioteca. Só de “A Riqueza das Nações” de Adam Smith são 13 edições. Leitor voraz, colecionar assíduo,  sua esposa, Dra Carmela Antonia Danna Pagano, relata no livro que escreveu sobre o marido, acreditava que o amor pelos livros era uma expressão da confiaça em seu poder mental,  da busca em se devencilhar das gaiolas em que vivemos, seja pelo espaço horizontal ou vertical.  O homem deseja sair deste mundo afora, baseando-se na própria inteligência.

Talvez, as pilha de livro sob sua mesa, nada mais eram do que escadas para o alto de sua imaginação e inteligência. Escadas que o levavam para aquele lugar de vista tão surpreendente quão indecifrável que só o estudo nos faz ver, nos trás a luz. O mantra e a paz da concentração. Um lugar que só existe para gente, em que reconhecemos o nosso mais íntimo individual e ao mesmo tempo nos revela na coletividade.

Todo nerd de carteirinha sabe exatamente do que eu estou falando. Aquela hora que nos perdemos do mundo de cá, que já não ouvimos mais nada a não ser as frequências agudas das sinapses cerebrais e o pulso grave constante do batimento cardíaco e ficamos em sintonia com o que há do outro lado. Conhecer é, sem dúvida, uma tradução do ato de se abrir.

Em 1982, Dra Carmela doou a residência, com todo seu mobiliário e alguns objetos, além dos 10 mil títulos entre livros, periódicos e discos para o Governo do Estado para a criação do Centro Cultural. Hoje no Centro Cultural Aúthos Pagano são realizadas palestras e oficinas de teatro e música, abertas e gratuitas.

A casa em si é linda, projetada pelo arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik em 1929, no estilo modernista, foi adquirida pelo casal em 1963. Fica no bairro do Alto da Lapa  que foi planejado no começo do século XX pela “City of San Paulo Improvements & Freehold Land Co.Ltda., S.A”, mais comumente chamada Companhia City. Empresa fundada em 1912, ela foi responsável pela urbanização dos bairros Jardim América, Anhangabaú, City Butantã, Alto da Lapa, Bela Aliança, Alto de Pinheiros e Pacaembu em São Paulo e vários outros no interior e até em outros estados.

Os lotes da City
Os lotes da City

Os bairros, todos planejados no conceito que a city chama de “cidade-jardim”, com muitas árvores e lotes com tamanho mínimo. O Alto da Lapa hoje ainda preserva um pouco desta tradição. Em meio a tanto assédio e especulação imobiliária, ele ainda consegue se manter como um bairro de casas.

Anúncio de terrenos, promessa imobiliária.
Anúncio de terrenos, promessa imobiliária.

Na falta de um piano, acabei encontrando dois, ambos alemães. Um deles é da marca Zimmermann que foi doado pela secretaria de cultura. A Zimmerman era no começo do século XX uma das fábricas que mais produzia pianos no mundo. Ele está afinado, possui um timbre bem metálico e agudo. O outro é da marca Ritter & Halle, que tem um timbre mais macio, equilibrado, está bem afinado. A fábrica Ritter & Halle foi fundada em 1828, era uma fábrica pequena. Em 1912 eles produziam anualmente apenas 1.200 pianos, contra os 10.000 pianos da gigante Zimmermann. A empresa era familiar e teve que fechar as portas em 1945, pois não haviam herdeiros para continuar o negócio. Em 2010, a fábrica foi reaberta com ajuda de investidores que resgataram a marca e migraram seus negócios para o oriente, hoje os pianos Ritters são produzidos e exportados para toda a Ásia.

Cantei o standard de jazz chamado Can`t Get Started de Ira Gershwin e Vernon Duke, a letra conta a história de um homem muito avançado para sua época, que teve muitos pontos altos na vida, mas considera sua mais difícil e mais valiosa conquista, o amor da mulher amada. De uma certa maneira acho muito parecido com a vida de Aúthos Pagano.

Ao escrever este post me lembrei de outro personagem deste blog. Elizeu Storion do Terraço Itália, que viu a cidade crescer do topo do edifícil mais alto durante 26 anos, o homem que cronometrava o pôr do sol. Dois homens e seus respectivos jeitos de observar o mundo, suas impressões sobre a cidade, a poética de suas rotinas cotidianas, suas maneiras de viver e ver o tempo.

E os pianos, fixos nestes lugares, observam a eterna fluidez dos fenômenos.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

01/06/12

Video: Agustin N.Oroz

Ps: Um beijo para a Marília de Moraes Benini, Alcione e Dra. Carmela, outro para todos do Centro Cultural Aúthos Pagano pela gentileza e entusiasmo.

 

Piano nº 6 – Você é o seu piano.

foto: Bruno Teixeira Martins
foto: Bruno Teixeira Martins

 

Dedicado aos carregadores de piano.

Quando iniciei este projeto, o primeiro lugar que queria tocar era na estação da Luz. Lá por volta do terceiro, quarto post, flertei com a Luz novamente. Todos meus namoros foram impedidos devido a condição que se encontrava nosso piano. Quebrei o encanto hoje, 1 de maio, dia dos trabalhadores.

O piano fica no meio do saguão principal e está rodeado por colunas e um pé direito incrível. Os arcos em torno são todos trabalhados e a estação é uma das locações mais bonitas de São Paulo. Parece até um portal do tempo que nos leva a uma época em que pegar trem era sinal de riqueza. A estação tem vizinhos tão imponentes quanto, o Museu da Lingua Portuguesa, a Pinacoteca e a Sala São Paulo.

Nosso “entrevistado” é um Fritz Dobbert de armário da cor castanha, que foi parar lá de maneira muito curiosa. Em 2008, o artista plástico inglês Luke Jerram iniciou o projeto “Play me, I`m Yours”. Ele viaja o mundo todo colocando pianos em vários pontos das metrópoles. Uma invasão de pianos, incentivando a interação e a recriação de relações dentro da cidade. Em outubro do ano em que se iniciou o projeto, “Play me, I`m Yours” virou “Toque-me, sou teu”, e em parceria com o SESC, 8 pianos foram esparramados por São Paulo durante 10 dias. Dois deles foram adotados pela CPTM, um é itinerante e o outro fica na estação da Luz.

Até agora este é o piano mais público que eu encontrei. Não tem catraca, nem precisa comprar passagem, nem falar na recepção para tocá-lo.  É só sentar e tocar. Ele tem a impressão digital de todos. Interessante perceber que este piano, o mais público dos pianos, está um lixo. Suas condições são deprimentes e o sentimento mais latente é de dó,

Este blog vai muito além de mapear os pianos da cidade como se fosse um catálogo, comecei a entender isso recentemente. Talvez sua relevância seja muito mais a de contar a história de São Paulo com teclas musicais. Acho que é por isso que as pessoas acabam se apaixonando pelo blog.

A história contada pelo piano da CPTM é de abandono. O centro imponente que se quer contruir, a limpeza de que falam, descarrilha ao se escutar o som do piano público. Você é o seu piano. Esse é o mote deste blog, em todos os posts isso foi coerente. O centro que se quer esconder se revela nas teclas quebradas e desafinadas. O estranho é que toda o resto da estação está conservado. Guardas cuidam do patrimônio da estação mais branca de São Paulo, mas do piano…

Alguns podem endereçar a culpa pelo estado do instrumento ao mau uso das pessoas que passam, que são muitas. Mas isso não explica porque as paredes estão conservadas e o piano não. Afinal este piano é de responsabilidade da CPTM.

Toquei a música Canção do Sal de Milton Nascimento, a execução foi bem difícil e ficou comprometida. Tinham regiões do teclado completamente inoperantes. A acústica da estação deixa o som preso dentro no saguão, acabei incorporando os ruídos, as pessoas falando, na gravação. Atentem para os sons externos quando forem ouvir o video. Dá pra escutar coisas incríveis no som vindo das pessoas, como se toda cidade estivesse alí. Escolhi esta música propositalmente para este 1 de maio. Vou colocar um trecho da letra que para mim fala tudo.

Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir

E ao chegar em casa encontrar a família, sorrir

Filho vir da escola, problema maior é o de estudar

Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar 

Água vira sal lá na salina

Quem diminuiu água do mar?

Para mim, o piano se assemelha ao mar, pesado, misterioso, mutável, líquido, velho, mas sempre em reconstrução, pra onde tudo corre.

Trabalhar com cultura não é fácil, é preciso banca-lá incessantemente até que esta possa mudar relações, re-educar. A palavra cultura também significa hábito. Se um desafortunado vai e estraga o piano, é preciso consertar, e se estragarem de novo, é preciso consertar novamente, de novo e de novo, até isso virar hábito. Para que o piano seja de todos e não mais de ninguém. Isso é acreditar em cultura. Não é só quando o gringo vem pro Brasil com exposição mundial.

Conversei com alguns que se aglomeraram em volta para me ver tocar e nenhum deles acredita que o piano está bom. Não é porque se é pobre que se é surdo, ou não se reconhece realmente o som de um piano minimamente afinado. Eles não estão sendo enganados.

A cultura tem um poder mágico de tirar o melhor das pessoas, ela entra no ser humano sem nenhuma barreira, sem nenhuma distinção de classe ou cor. Elas são arrebatadas por aquele sentimento de encantamento. As pessoas respeitam a cultura porque existe uma troca. Ela entra dentro de você e te muda e você acaba refazendo a história dela.  CPTM, faça por merecer.

Um beijo, até o próximo piano

Alessa

01/05/2012

Video: Agustin N.Oroz e Bruno Teixeira Martins

Ps: Quando gravei este post, o programa Paratodos da TV Brasil fez uma matéria com o blog. Quando for ao ar eu aviso. Eles contactaram a CPTM para falar da situação do piano e esta prometeu que o piano estaria em ordem. O mesmo fez a revista da Folha de São Paulo quando o blog saiu em outra matéria em abril, para a Folha eles falaram que o piano iria ser restaurado e que dia 9/04 ele estaria em ordem. Eu fui lá no dia seguinte e o piano continuava péssimo. CPTM, agora é pessoal.

Piano nº 2 – Biblioteca da PUC-SP – "Simbora Batiria!"

Saguão da biblioteca da PUC-SO

 

Olá amigos,

Continuemos a caça aos pianos…A edição desta semana foi feita no saguão da biblioteca da PUC-SP. Sim, eles têm um piano no meio da biblioteca! Mas não faz barulho? Faz. Mas não atrapalha? Não. A biblioteca tem um saguão de entrada e o piano fica nesse espaço que também é dedicado para exposições. É um piano de armário, sua afinação não está nos melhores dias, mas é tocável. O peso das teclas está desbalanceado também, mas estão todas lá funcionando. O instrumento tem muita projeção de som e é bem brilhante. O piano tem uma função de entretenimento para os eventos do saguão e é um jeito tímido que a PUC encontrou de incentivar o talento artístico de seus alunos. É só chegar, dar o RG em troca da chave do piano e tocar.

Quando cheguei, uma exposição estava sendo montada e a inspiração deles foi a obra do pintor holandês Bruegel, da idade média. São 118 provérbios e cada artista da exposição escolheu um e fez sua obra com base nele. Segundo nossa querida Wikipédia, este trabalho do pintor tem como tema o absurdo, a fraqueza e a loucura do ser humano.

Eles escolheram Bruegel e eu escolhi para este post o Carnaval. Coincidentemente, absurdo, fraqueza e loucura também fazem parte desta festa. Mas acho que aqui o tom é mais festivo.

Aprendi a gostar de carnaval faz pouco tempo. Tenho até receio de revelar isso, parece que estou jogando pedra na cruz do meu gene brasileiro, mas é a verdade. Acho que os culpados foram os amigos que fiz quando vim pra São Paulo. A pessoinha que vos fala é uma mera garota do interior. Cheguei na capital, com o sonho do migrante, para fazer faculdade. Onde? Na PUC-SP (!!!). Antes de entender que a música seria para sempre na minha vida, fiz um pit-stop pelo curso de jornalismo. Me formei, hoje meu diploma está em algum lugar do meu armário de partituras.

Mas ter feito esta parada foi essencial para eu entender a escola de samba que vive em mim. Foi neste período que eu comecei a de fato escutar samba, comecei a gostar de praia, entendi que boemia não é necessariamente coisa de vagabundo, fui ficando morena e deixando o loiro platinado para trás. Não, eu não comprei uma saia indiana, nem colares de semente, nem entrei pro maracatu. Nada contra, mas não era o meu estilo…

Como estamos na ressaca do carnaval e o baile acabou, escolhi tocar algo de passo mais lento e que me lembre meus tempos de aspirante em jornalismo. Lá, escutei muito Cartola, portanto resolvi homenageá-lo com uma versão de Divina Dama. Tom de fim de festa, eu sei, mas a gente adora uma boa balada lenta. Aquela decadência fina e elegante.

O prédio que eu estudei na PUC foi derrubado no final do ano passado. Vão construir um novinho e a Comfil (Faculdade de Comunicação e Filosofia) de antes não existe mais. Estranho como a paisagem muda ao longo do tempo e te expulsa daquele lugar, daquela história. Achei que iria me reconhecer para sempre por aqueles corredores, hoje eles nem existe mais, só existem na minha lembrança. Acho que isso deve ser um mecanismo de auto-proteção do enredo da vida, com a finalidade de empurrar a ala pra frente.
“Simbora bateria” !!!!

Um beijo e até o próximo piano!

Alessa
23/02/2012

ps: Um agradecimento especial ao Maurício Thadeu Rodrigues Alves da biblioteca por ser tão atencioso, um beijo para minhas amigas de PUC-SP e para Natália Lago que canta esta música lindamente.

Piano nº 1 – Estação Sé do metro – "as variáveis do cotidiano"

Fritz Dobbert da Sé

Escolhi o piano da estação Sé pelo motivo óbvio: a Sé é um marco na cidade. Estréia triunfal! Inclusive fui fazer a sessão no dia do aniversário de São Paulo. Me enchi de esperança, expectativa e coragem, escravizei uma amiga pra me ajudar e fomos para o metro. Os deuses estavam comigo!

O piano está no mezanino superior, logo após as catracas, entrando pelo Largo do Anhangabaú. Fica em frente ao lugar que os funcionários do metro chamam de “maracanã”, que é aquele espaço redondo vazado pelos 3 andares da estação. A luz entra pelo teto completando a mística do lugar.

É um modelo de piano vertical da marca Fritz Dobbert nº112, que é uma marca brasileira, o mais simples da linha. Ele faz parte do projeto “Piano no Metrô” da empresa de transporte, existem outros pianos localizados nas estações Santana, Tamanduatei e Largo Treze. É aberto para o público, qualquer um pode chegar e tocar. Quando eu cheguei tinham dois caras tocando músicas evangélicas. Esperei eles terminarem e então dei início ao meu projeto.

Para esta edição preparei algo bem popular condizente com o local. Pra não ter erro, escolhi cantar Roberto Carlos.

Ao tocar descobri que este projeto teria uma natureza muito atípica – mais ainda do que eu tinha previsto. Eu tenho que contar com variáveis que não tenho como controlar. Para uma taurina ferrenha como eu, signo de terra e estabilidade, isso é um exercício muito intenso. Todo o castelinho que eu havia construido na minha imaginação foi devastado pelas variáveis do local. É um grande “se vira nos 30” versão pianística.

O piano estava no limite entre afinação/desafinação, mas executável. De qualquer forma, isso alterou minhas reharmonizações da música, que tão intelectualmente trabalhei em meu quarto.  A acústica também não favorecia. Óbvio, é uma estação de metrô!!! De três em três minutos eu tinha que competir com o som de um trem passando!! Nada é amplificado, o microfone que eu levo é apenas para captação de som. Tive que martelar o piano como se não houvesse amanhã, adeus expressão de toque! As pessoas passando e conversando, parando na frente da camera! Um cara do metro querendo cantar comigo… Um sufoco…

No entanto, ver depois que as pessoas pararam suas pressas para me assistir foi muito, muito gratificante – ou, como eu costumo dizer, de extremo grau de fofurice. Por que o piano está lá? Para criar a sensação de uma arte espontânea, despretenciosa e surpreender as pessoas que passam despercebidas e escutam o som.  Não é nenhuma sala de concerto, obviamente. Tem uma função lúdica e didática importante para um cotidiano cada vez mais ocupado.

Sai de lá com mais perguntas do que respostas sobre como fazer o projeto. Mas incrivelmente animada e feliz.

Acho que todos podemos nos relacionar com essa coisa da timidez, ou do excesso de auto-crítica que nos emperra na vida profissional ou pessoal. Dar a cara para bater é um exercício de desapego, mas o medo nos empaca. Nem sempre, ou melhor, quase nunca as coisas sairão perfeitamente do jeito planejado. Mas fazer o que? Se esconder? Não tenho mais idade para isso e nem mais tempo a perder com este tipo de preocupação.

Portanto que venham os pianos desafinados ou em perfeita afinação. Eu só estou começando.

Beijos, até o próximo piano.

Alessa

16/02/12

PS: Um beijo para o Wlad Mattos que me deu a idéia do Blog, para Silvia Góes que me atura toda semana nas minhas aulas de piano, para Fabiola que foi minha camera girl e para a Thais e a Roberta que super estão acreditando que eu vou dar conta disso tudo!