World Piano nº2 – Escrito com lápis de olho.

 

 

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Estive na Eslovênia em julho de 2012 e fiquei encantada com esse país que fica escondido entre Itália, Áustria, Hungria e Croácia. Um destino pouco comum para brasileiros em visita à Europa, mas que vale a pena por seu charme, suas belezas naturais e hospitalidade.

mapa da Eslovênia

 

 

A história musical do país já vem de longa data, lá foi achado o instrumento musical mais antigo conhecido no mundo, uma flauta, descoberta na caverna Divje Babe que data da era glacial quando os Neandertais moravam na região. Da flauta primitiva até nosso piano, muitos anos de evolução em fabricação de instrumentos. É interessante observar como as civilizações primitivas construíam suas flautas, seus tambores, instrumentos rústicos que faziam parte do dia a dia e expressavam os sentimentos e conflitos do homem daquela época, e o quanto isso foi mudando ao longo do tempo. Mesmo com séculos de distancia, sua função não mudou e continuamos a inventar instrumentos, com a mesma função, a de traduzir nossos anseios no mundo atual, com seus recursos e limitações. Será que daqui a mil anos, olharemos para os pianos, sintetizadores, computadores e acharemos todos precários e limitados? Provavelmente sim. O tempo e sua seleção natural, sua capacidade de reciclar o velho.

Houve uma época em que o piano não era o leão soberano dos instrumentos, antes havia o cravo; e antes do cravo os instrumentos de teclado praticamente não existiam e a menina dos olhos era o violino. Antes disso, a lira e a flauta, e no começo de tudo, a voz. Cantamos a saudade de casa, o amor, o medo, a guerra.

O território da Slovenia é marcado por constantes mudanças territoriais e vivenciou todas as transformações da Europa Oriental. Já pertenceu aos impérios Romano, Bizantino, República de Veneza, Ducado da Carantania, Sacro império Romano-Germânico, Monarquia de Habsburgo, Império Austríaco, Austro-Hungaro, Reino dos Sérvios, Croatas e Esloveno, depois Reino da Yugoslávia, República Socialista Federativa da Yugoslavia até sua independência em 1991!! Hoje, faz parte da zona do euro e o país todo tem quase 2 milhões de habitantes! Não vou nem mencionar quantas pessoas existem só em São Paulo.

A capital da Slovênia é a cidade de Ljubljana (pronúnciamos: Lubliana), a cidade não é muito grande, mas é imensa em carisma. Anda-se a pé por todos os cantos, o prédio da Opera Nacional é muito bonito e vale a pena a caminhada ao longo do rio que corta a cidade, as pontes do Dragão e a  Butcher’s Bridge, que nos leva ao mercado central, na qual casais apaixonados fecham cadeados no arame da ponte, fazem juras de amor e jogam a chave fora… A cidade tem muito verde – alias o país é inscrivelmente bonito com paisagens arrebatadoras, como o lago de Bled e o pico Smarna Gora.

vista do lago Bled
vista do lago Bled

Nosso piano fica em um café/restaurante descolado chamado Gostilnica XXI na rua Rimska, 21. O lugar possui mesas na calçada e uma parte interna para os dias de frio. O restaurante não é muito grande e o piano fica logo na entrada, próximo ao balcão. Artistas locais de folk e outros gêneros tocam frequentemente, e a banda se espreme na sala junto aos convidados. O piano é da marcar Werner preto de ¼ de cauda e estava afinado, seu teclado é leve e a tampa fica fechada pois o restaurante o usa como mesa para guardar alguns copos, talheres e coisas gerais de restaurante. Nas minhas pesquisas sobre a marca, me deparei com 4 fabricantes de piano com o mesmo nome, parece que Werner é um nome popular nos paises de origem germânica. A fábrica mais antiga é de 1810 e fica em Dresden, na Alemanha, e era comandada por Paul Werner. Outra possibilidade é que o piano seja de Berlim, fabricado pelo renomado construtor de piano Ed Werner, que fundou sua fábrica em 1881. Há também a fábrica Werner F.W., de 1845, na cidade de Döbeln também na Alemanha. Por último, existe uma Werner Piano Co 1902, em Chicago, nos Estados Unidos. O dono do restaurante não estava no momento em que o post foi gravado, tentei contacta-lo, mas até agora não obtive resposta. Se um dia conseguir desvendar o mistério, conto para vocês. Mas por dedução, acredito que de Berlim ou Chicago o piano não veio, pois os logos das marcas não condizem com o logo impresso no corpo do piano, o que nos deixa com Werner F.W. e Paul Werner. Façam suas apostas!

festa no Gostilnica XXI
festa no Gostilnica XXI

Toquei um arranjo da canção Por Causa de Você, de 1957, de Tom Jobim com letra da Dolores Duran. É um samba-canção precursor da bossa nova e tem uma história ótima. Tom estava trabalhando na música com Vinícius de Moraes quando foi fazer uma visita à Rádio Nacional, a emissora mais importante do país na época. Lá encontrou Dolores em um quarto de ensaio, ao mostrar a canção, Dolores não teve dúvida, pegou o lápis de olho e escreveu a letra de Por Causa de Você. Sabendo que a outra letra já estava sendo elaborada pelo poeta, a cantora mandou um recadinho: “Vinícius, outra letra é covardia”.  E Vinícius gentilmente cedeu sua vez como letrista para Dolores. Este relato está registrado, pelo próprio Tom, no disco Antônio Carlos Jobim em Minas, ao Vivo, álbum obrigatório para qualquer amante de piano e voz.

Outras versões famosas da canção são de Elizeth Cardoso, em 1958, e Maysa, em 1964. Foi regravada em francês por Silvia Telles, chamada “Gardez moi pour Toujour” (tradução: “Guarde-me para sempre”) e ninguém mais do que Frank Sinatra gravou uma versão em inglês, de Ray Gilbert, chamada “Don`t Ever go Again” (tradução:  “Nunca se vá”), em 1971, no disco Sinatra & Company.

Pianos, canções, lápis de olho, vários Werners, dragões e um país tão simpático que quase se apropria de uma palavra: saudades.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

Video: Adriana Camarinha

Ps: Um agradecimento especial a Nina Ogrinc e Luka Mladenovic por serem tão amáveis e agenciarem este post para mim. Para todos do Gostilnica XXI pela gentileza.

Dragon Bridge
Dragon Bridge

World Piano nº 1 – Mozart Bossa Nova

O Young Chang do Café Landtmann

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Buscar pianos por ai é tarefa difícil. Achar violão, reco reco, pandeiro é mais fácil. Tão bonito quanto, mas dá pra carregar e levar embora. Brasil tem música de levar no colo, que nem criança. O piano é grande e pesado, fica lá te esperando e você tem que ir até ele. É um senhor, daqueles com relógio de bolso que precisamos dar corda.

Vienna é, ao contrario daqui, o país do piano. Mozart, Schubert, Haydn, Schoenberg, Mahler, Webern só pra começar a lista, que é imensa. Ela é comprida porque existe uma tradição, a cultura do lugar cultiva a sua praxis. Aqui no Brasil, por mais que existam pianistas excelentes (sim temos muitos!), somos conhecidos por outra lista: Baden Powell, Dilermano Reis, Dino 7 Cordas, Garoto, João Gilberto, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro, Raphael Rabello, Yamandú Costa. Outra lista imensa, mas do instrumento que se leva no colo.

Estou longe de sustentar um ciúme, ou querer criar uma rixa boba entre piano e violão, mas quero provar o ponto de que se colhe o que se planta. A semente violonística brasileira parece vingar mais rápido. Portanto, acho válido começar esta sessão de pianos e suas cidades com uma em que a semente mais forte é nosso instrumento de estudo. Vienna é mais do que apropriada.

Esta sessão infelizmente não seguirá um cronograma, preciso estar de ferias para faze-los, mas quando possível postarei pianos internacionais.

Vienna é linda como toda cidade que já foi centro de impérios muito antigos e que acumularam muito dinheiro e, portanto, fizeram questão de que a cidade representasse tudo o que havia de melhor daquele povo, daquela cultura. Com muitos monumentos, parques e teatros, ela tem tons de branco da arquitetura e verde dos parques. Estive lá no verão e é interessante observar como a cidade pertence aos moradores, eles a ocupam nos gramados, nos passeios de barco pelo canal do rio Danúbio ou o rio Vienna, nas piscinas públicas, nas bicicletas, nos cafés. Um ponto turístico necessário a todos que estão na cidade é o Ringstrasse. Trata-se de uma avenida circular que foi construida em volta do centro de Vienna, a avenida substituiu uma antiga muralha que protegia a cidade contra invasões. A expansão dos bairros e a dificuldade com o transito até eles, fez com que em 1857, o imperador Franz Joseph I demolisse a muralha e começasse a construção deste anel viário.  Ao longo dos anos outras construções importantes foram acompanhando o curso da avenida, como o Museu de História Natural, o de Arte, a Ópera, o Parlament, o castelo imperial Hofburg. Sigmund Freud tinha o hábito de andar pela avenida todos os dias, olhava os monumentos e parava para um café no Café Landtmann, onde está nosso piano.

Não estamos falando de um lugar comum, o lugar é histórico, uma instituição vienense, foi e é frequentado por notáveis além do próprio Freud, Gustav Mahler, Marlene Dietrich, Hillary Clinton e Sir Paul McCartney. Platéia de peso.

Foi fundado em 1873 por Franz Landtmann, um empresario que veio de uma família simples de trabalhadores industriais. O café foi inaugurado com a pretenção de ser o café mais elegante da cidade. Na época, um teatro estava sendo construido bem na frente do local e o senhor Landtmann sofria com terríveis dores de cabeça até que decidiu vendê-lo. Em 1881, Wilhelm Kerl comprou o café e o dirigiu pelos 45 anos seguintes.

Kerl era muito bem relacionado na cidade, muito sociável e famoso pelo seu carisma, depois  que cumpria suas incumbências profissionais, ele jogava tarot para seus clientes.

Mas a carta que a história da Aústria tirou do baralho foi a carta sombria da morte e a Primeira Guerra Mundial atingiu a Europa inteira. O país entrou em crise e a comida era escassa, faltava leite e o café teve que cortar itens do cardápio, como o Einspänner, o café com leite, era servido um café diluido com água. Foram excluídos a famosa Sachertorte, uma torta doce típica, e o Melange, que é o cappuccino deles. Para fazer o Kipferl, uma espécie de croissant, as pessoas tinham que levar sua própria porção de farinha fornecida pelo estado e o Landtmann se encarregava de assá-la.  A mulher de Kerl ficou muito doente e o café foi vendido mais uma vez.

Karl Kraus, que assumiu o café em 1916, vinha de família rica, mas não conseguia manter o padrão alto do café. As depredações e saques eram constantes e ele foi convocado para lutar. Foi capturado e virou prisioneiro de Guerra na Sibéria durante 6 anos e meio. Sua mulher, sem saber seu paradeiro, acabou vendendo o café. Quando ele voltou, tudo tinha mudado e o café não era mais dele.

As manifestações em Vienna sempre ocorreram no Ringstrasse, próximo ao Landtmann, onde está o Parlamento Vienense. O pós Guerra foi devastador para toda a Europa, a Aústria entrou em uma grande crise e as pessoas estavam desesperadas. Entre outras coisas, esta falta de perspectiva foi um elemento chave para a Segunda Guerra que ainda viria. A inflação era imensa e Konrad Zauner, o novo dono do Landtman, tentava ao máximo manter as portas do café abertas em 1926, quando o adquiriu.

Zeppelin sobrevoa Rinstrasse, 1931

Como estratégia de negócios, ele atraiu várias celebridades de Vienna: atores, músicos, professores universitários de prestígio, artístas e politicos. O lugar tornou-se badalado e em voga. Foi inaugurado o Golden Book, um livro no qual as notáveis personalidades deixavam seus recados para o Landtmann. Era uma época de muito engajamento politico, mas o café, assim como seu dono, fizeram questão de manter o lugar neutro, onde ambos os lados poderiam ser clientes.

No entanto, o nazismo e a Segunda Guerra fizeram com que esta neutralidade não pudesse ser mais sustentada. Ou você acenava para Hitler, ou a morte era teu destino. Sabendo da influência do café na sociedade da cidade, o Landtmann foi ocupado, e os nazistas assinaram com tinta preta o Golden Book do café.

Vienna foi bombardeada 52 vezes durante neste período, o Schwarzenberg Palace, entre outros prédios, foi completamente destruído. Durante os bombardeios, todos se recolhiam no porão do prédio, e eles improvisaram uma cozinha lá embaixo para tentar continuar a trabalhar. Muitos se abrigavam em seus porões, mas os escombros eram tantos que não se conseguia sair, e eles morriam sufocados. No Landtmann, toda vez que se descia, eles levavam uma arma, caso isso ficassem presos. Assim, eles poderiam acabar com seus sofrimentos rapidamente e se livrar de morrerem lentamente sufocados. Os russos tomaram o café e colocaram uma metralhadora no terraço do prédio, em uma época em que os saques eram constantes.

Em 1955, foi assinado o Austrian State Treaty, negociado pelo chanceler da época Julius Raab e a Aústria se tornou um estado republicano livre finalmente. A festa de celebração deste acordo aconteceu nos salões do Landtmann, que testemunhou de perto a retirada dos nazistas de sua cidade.

Julius Raab tomando seu café.

Outros tempos vieram e em 1975, Herbert Querfeld comprou o café da viúva Zauner, depois que Erwin morreu em um acidente de carro. A família Querfeld vinha do ramo de eletroeletrônicos e gerencia o lugar até hoje. Eles modernizaram o estabelecimento, ampliaram o terraço, fizeram uma sala de conferência e padronizaram a sua gestão de negócios em cafés. A Família é proprietária de mais seis estabelecimentos, os tradicionais Café Mozart, Café Residenz, Café Museum, Hofburg, Park Café e o Landtmann`s Patisserie.

Para restaurar o clima elegante desejado pelo fundador, Querfeld fez questão que no salão principal tivesse….um piano. Inusitado é que, no país do piano, no café mais marcante de Vienna, o piano é Coreano. É um piano de armário preto da marca Young Chang, que fica na cidade Incheon, na Coréia do Sul. A empresa que tem se destacado na area por aglutinar várias outras marcas de instrumentos musicais como a Samick  e a Squier (guitarras) e a Kurzweil (teclados), também produz a linha de pianos Essex para a Steinways & Sons. Ela foi comprada pela gigante Hyundai em 2006 e é a maior fabricante de pianos da Coréia do Sul. O piano está impecável, afinado, é da série platinum da marca e mesmo sendo um piano de armário, no qual o som é mais seco, ele possui um bom sustain. Pode ser também pela posição do piano no grande salão.

Fiz questão de tocar uma música brasileira, mostrar para os “gringos” nossa música de colo, de leveza e sofisticação, de convencimento sedutor que é a Bossa Nova. Toquei Dindi, do Tom.

São tantas referências simbólicas nesta história que fica até difícil terminá-la. A quantidade de informação em um só lugar, que no ano que vem completa 140 anos, consegue narrar a história da cidade de uma maneira muito particular. Fazendo pão, servindo café, recebendo gente, a singeleza das coisas que compõem a cultura de um lugar. Querfeld diz que não se pode gerenciar o Landtmann como um museu, ele precisa estar vivo para os dias de hoje. Uma constante renovação, reconstruída literalmente de muito escombro. Deixar o passado ir, torná-lo tão leve que dá pra levar no colo, como a música de violão no Brasil.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Adriana Camarinha

Ps 1: Um enorme agradecimento para Adriana Camarinha, Amanda Camarinha, Roman Fussthaler, Barbara Fussthaler e Christian Karli, dos quais sem a gentileza e a ajuda este post não seria possível. Um brinde a vocês!

Ps 2: Visitei a loja dos incríveis pianos da Böesendorfer Pianos, vi e toquei em modelos desesperadores de tão lindos. Inclusive no modelo exclusivo de aniversário ao artista Gustav Klimt.