Piano Tão Seu – com Henrique Portugal (Skank)

 
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Eu sei, ando super sumida daqui! Mas não os esqueci, e muito menos nossos pianos queridos. É só a vida que anda meio maluca comigo. De qualquer forma, estamos planejando uma reformulação para nossos posts, então tem novidade vindo por ai!

Enquanto isso, postarei um episódio atípico, mas incrível que aconteceu há um tempinho atrás e revelo agora para inaugurar a nova fase em grande estilo.

Em caráter mais do que extraordinário teremos hoje a participação do querido Henrique Portugal, tecladista do Skank!!!  O encontro se deu por intermédio da agência Ampfy, antenada nas redes sociais. Henrique além de fã do blog, nos contou como achou o piano dele. Quem já comprou um piano, ou está em processo de compra, sabe o quanto ele pode ser demorado. São muitas visitas a casas de afinadores e restauradores para achar a tampa da sua panela musical. E quando você bate o olho no cara, como mágica, o piano parece ter esperado por você a vida toda.

Dentre os incontáveis hits do Skank, escolhemos uma das minhas preferidas “Tão Seu”, mas em um arranjo novo que o Henrique, que tocou teclado, sugeriu. O resultado ficou muito legal e a música ficou com outra cara. Conversamos sobre todos os temas que envolviam o mundo das teclas, e descobri que ele, como eu, também é fã absoluto do Stevie Wonder…já dei uma dica da outra música que tocamos, que eu vou postar mais pra frente hein…

A história do piano do Henrique comprova uma das teorias do blog que cada piano leva consigo todos os seus donos anteriores. Quem toca e tem carinho pelo seu instrumento sabe disso.

Pra mim, que estou começando nessa vida artística, é uma honra tocar com o Henrique, além de sua super carreira, teve a simpatia e a generosidade de compartilhar comigo histórias de pianos e música. Henrique, meu muito obrigada!

Um beijo, até o próximo piano !

Ps: Um beijo imenso para o Gabriel Borges e a galera da Ampfy que tornou esse encontro possível. E outro para a Oca Casa de Som, Conrado Goys e Rodrigo Funai, um abraço!

Ps2: Bloguinho é materia da revista da Livraria Cultura este mês! Corre lá pra ver!

Piano nº 14 – Piano Preto, você é feito de aço.

o Yamaha diskclavier preto de 3/4 de cauda da Lexus

São Paulo é dos carros, do trânsito, da mobilidade, do acesso contínuo. Estes parâmetros parecem distantes do mundo das teclas. O piano é lento, demora-se pra transportar, atrapalha o trânsito, não tem mobilidade nenhuma e é uma instrumento que requer tempo e dedicação para se aprender. Quem tem tempo hoje em dia!?

Mas o piano é elegância por definição e isso agrada o paulistano. Ele é estressado, mas não sai do salto. Há um tempo, São Paulo se transformou em roteiro para o mercado de luxo, o dinheiro aqui corre pela Berrini e estaciona na Av. Nações Unidas nº17.271, a primeira concessionária da Lexus no Brasil. Lá está nosso piano, um Yamaha preto, disklavier DGB1KE3.

Os disklaviers foram introduzidos pela marca em 1986, são pianos acústicos, mas com uma interface digital que possibilita gravar a música tocada e reproduzi-la sem que você precise toca-la novamente. Quando chegamos no salão amplo da concessionária, o piano estava tocando sozinho, um tanto inusitado. Muitos podem achar que a existência do próprio piano na loja de carros ainda mais estranho, mas pianos e carros podem ser um grande negócio.

A Lexus é a marca de luxo da multinacional japonesa Toyota, seu modelo em exposição, o LF-A, custa 2 milhões de reais. Mais do que exclusivo, só foram fabricados 500 unidades, que hoje estão espalhadas pelo mundo. O modelo estava em exibição neste último salão do automóvel no Anhembi para deleite dos apaixonados por carro. Para atrair os clientes de luxo, a concessionária construiu sua loja pensando em uma galeria de arte, pé direito alto, café gourmet, champagne e obviamente, um piano de cauda.

A estadia do piano na Lexus se deve a uma parceria com a empresa de instrumentos Yamaha, que fornece o instrumento na esperança de que um comprador de carro mais animado inclua o piano no negócio. Já entraram no pacote e mandaram embrulhar 3 pianos na concessionária.

O dinheiro se confunde entre engrenagens e teclas. A Yamaha, também originária do Japão, está no Brasil desde 1973. Ela foi fundada em 1887, quando fabricou seu primeiro órgão feito de bambu, e hoje  a marca completa 125 anos de história e é a maior produtora de pianos do mundo – desde 1900, ela vendeu 6,15 milhões de pianos. Após a Segunda Guerra Mundial, o presidente da fábrica, Tomiko Ganichi Kawakami, aproveitou sua experiência em metalurgia e começou a fabricar motocicletas. Os motoqueiros que circulam com suas motos pelas avenidas da cidade aposto que não repararam que o logo de suas Yamahas são três diapasões, aqueles garfinhos de afinação, entrelaçados.

Em 2007, a marca comprou uma parte minoritária da marca de pianos inglesa, Kemble (já comentada no post nº 7) e adquiriu ações da icônica marca austríaca Bösendorfer (vide post World Pianos nº 1), ganhando a disputa da americana Gibson que também estava de olho no negócio. Para que a transação fosse aceita, a Bösendorfer exigiu que sua fábrica se mantivesse na Áustria, piano lá é identidade nacional.

O negócio entre pianos e carros não é uma exclusividade japonesa. A Bösendorfer por sua vez, em 2009 anunciou uma parceria com alemã Audi para celebrar o centenário da marca de carros. Foram confeccionados, sob encomenda, pianos bösendorfer com design Audi. O desenho da tampa do piano é arrojado e se assemelha as portas de carro. Os pés do piano, assim como o pedal e o banco, feitos de metal cromado. A parte de madeira que acomoda o teclado, ficou mais fina para dar mais espaço às pernas do pianista. O presidente do grupo Audi em entrevista na época comentou que as dificuldades para a criação do desenho final estimularam a criatividade da equipe, eles tiveram que estudar o instrumento a fundo e que o projeto foi uma ferramenta muito importante que beneficiará os designers no futuro, na própria criação de carros. Carros-pianos?!?!?! Seria bom, com o trânsito de São Paulo, dá pra virar Mozart!

piano Bösendorfer com design da Audi.

 

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Na Rússia, a seguradora de carros In Touch criou a campanha Car vs. Piano. Com a idéia de que acidentes com carro podem acontecer em qualquer lugar, a empresa colocou um piano de 350 kg preso por 9 cabos de aço, em cima de um carro em um estacionamento. A campanha/instalação era filmada 24h horas e todos podiam acompanhar o destino do carro via twitter/facebook. Os cabos eram cortados por eventos aleatórios do tipo: se o time de futebol Barcelona ganhar, corta-se um cabo…tudo visto e comentádo na web. O hashtag #carvspiano em um ponto ficou como o segundo maior trending topic do país e o números de visitas ultrapassou em 200% o esperado pela agência. A campanha foi sucesso mundial.

Diante deste cenário tão inusitado de carro, piano e cidade, achei muito apropriado tocar algo que fizesse sentido. Escolhi o clássico sertanejo de Atílio Versutti e Jeca Mineiro, Fuscão Preto! A letra é tão absurda e dramática que adaptei a canção para um arranjo bolero/jazz. Não é sempre que encontramos os versos “Fuscão Preto/ você é feito de aço / fez meu amor em pedaço / também aprendeu matar”.

O piano não está com a afinação completamente correta, as grandes janelas de vidro e o sol que bate na concessionária com certeza foram responsáveis pela instabilidade das notas, mas o piano tem uma ressonância boa, o salão amplo cria um reverb natural interessante.

Fuscão Preto virou sucesso nacional na voz de Almir Rogério em 1982 e foi baseado numa história verídica de traição, segundo o próprio Almir em entrevista para o site da casa noturna Trash 80`s. Um amigo pintor de Jeca Mineiro e Atílio viu a esposa de um conhecido chegar em um fuscão preto altamente suspeito. A canção foi regravada em italiano ganhando o nome de “Fiat Negro” e em inglês, “Black Mustang”.

Um ano depois, aproveitando a popularidade da canção, Jeremias Moreira Filho dirigiu um filme com o mesmo nome, baseado na letra da música, com o cantor e a então no começo de carreira, eterna rainha dos baixinhos, Xuxa Meneghel. O filme é um clássico trash do cinema brasileiro e conta a história de Diana (Xuxa Meneghel), filha de um fazendeiro, que se envolve em um triângulo amoroso. Ela, de casamento marcado com Marcelo (Dênis Derkian), filho do prefeito da cidade, se apaixona por Lima (Almir Rogério), um cowboy forasteiro. O prefeito tenta persuadir o fazendeiro Lucena (Dionísio Azevedo), pai de Diana, a substituir sua criação de cavalos por uma plantação de cana de açucar. No meio disso tudo, aparece o Fuscão Preto, uma espécie de “Herbie, se meu Fusca Falasse” misturado com Darth Vader e atrapalha os planos de todos, roubando o coração de Diana. Mesmo com o enredo absurdo, o filme discute discretamente a substituição do Brasil rural pelo urbano, do cavalo pelo carro e o “progresso” brasileiro industrial da década de 80. Com cenas impagáveis, Fuscão Preto se tornou um ícone do brega nacional.

cartaz do filme

 

Carros importados, multinacionais japonesas, seguradoras de veículos, fuscas, Xuxa, música sertaneja, filmes bregas nacionais, substituição do rural pelo urbano, trânsito, mais carros e por fim um piano. Ufa! Será que é possível costurar tudo isso com corda de piano!? Parece que sim. A cidade continua aberta, à espera de suas interconexões, dentro do piano cabe tudo até um fusca.

Um beijo até o próximo piano,

Alessa

Vídeo: Agustin N.Oroz.

Ps: Obrigada a todos da Lexus, principalmente ao Mayco Chacon pela gentileza e um beijo grande para Tatiana Petit que achou este piano incrível e me mandou a dica!

Piano nº13 – Piano Bibi

 

o Yamaha de 3/4 de cauda do Teatro Décio Almeida Prado

Como artista independente na cidade de São Paulo, faz parte da minha rotina diária caçar não apenas pianos, mas lugares para me apresentar. Aliás, o blog surgiu como uma alternativa para esta carência. Não só tenho me apresentado mais desde que ele começou em fevereiro, mas como tenho (re)descoberto espaços possíveis para outros pianistas por ai. Descobri que não sou a única nesta busca, várias pessoas acessam o blog para me contar de suas peregrinações.

O teatro Décio Almeida Prado, onde está nosso piano de hoje, me foi indicado por um amigo, artista independente, o muito querido Márcio Lugó. Ele fez seu cd sozinho, compôs, tocou, gravou, e produz sua carreira, toca o rumo de seu barco como bem quer. Ser artista independente não é fácil, mas é uma forma possível, digna e cada vez mais apoiada nos novos meios de comunicação, como as redes sociais, e, inclusive… um blog.

Quando cheguei ao teatro, que é administrado pela prefeitura, fiquei bem surpresa. O espaço cai como uma luva para artistas independentes. Não é um teatro grande, é o tipo de espaço em que o artista ainda consegue olhar no olho de sua plateia. É muito bem equipado e foi reformado recentemente, endi sido reinaugurado em julho do ano passado. O piano do teatro é um Yamaha de ¾ de cauda, modelo C-5, 335 kg. Ele é lindo! Talvez tenha sido o piano mais preciso que toquei desde que começei minha caçada. Ele foi arrematado em um pregão, em 2007, e ainda tem som de novo. Estava muito bem afinado em minha visita e como é um piano adolescente está louco para mostrar serviço. A resposta do pedal é muito boa e o peso é ideal, nem muito leve, nem muito pesado. Com o tempo e gente tocando mais nele seu som irá abrir, vale a pena acompanhar o som deste piano ao longo dos anos.  A acústica do teatro também favorece: como não se trata de um salão amplo, o reverb fica na medida para sons intimistas, que muito me agradam.

Toquei um jazz que eu gosto muito, chama-se Bewitched, Bothered and Bewildered da dupla Rodgers and Hart. Com uma parceria a lá João Bosco/ Aldir Blanc, misturando melodia bem acabadas e humor, Richard Rodgers, compositor, e Lorenz Hart, letrista, fizeram musicais da broadway dos anos 30 aos 50. São os autores de músicas imortalizadas nas vozes de Ella, Sinatra e Holiday, como Blue Moon, My Funny Valentine, The Lady is a Tramp, Falling in Love with You. Bewitched foi feita para o musical Pal Joey, em 1940, e é tema da personagem Vera Simpson, uma socialite rica e entediada que se apaixona por Joey, um mulherengo que se aproveita do dinheiro da madame para realizar seu sonho, de ter um teatro. Mas o dele é mais um teatro cabaret, com mulheres semi-nuas. A produção de 1940 estreiou com Gene Kelly no papel de Joey e Vivianne Segal como Vera e em 1957 Hollywood fez sua versão com Sinatra e Rita Hayworth.

 

cartaz da produção de Pal Joey de 1940

Richard Rodgers no piano e Lorenz Hart, letrista, ao lado.

 

 

Já o nosso fica no bairro Itaim Bibi, que até 2001 pertencia à zona sul de São Paulo (e hoje em dia é considerado zona oeste). A região era toda alagada e servia para a pesca, a caça e outras atividades recreativas até que, em 1896, ela foi arrematada pelo general José Vieira de Couto Magalhães, que foi presidente do Estado de São Paulo. O general teve um filho com uma índia e a região começou a ser chamada Chácara de Itahy que em tupi significa “pedra pequena”. O filho acabou vendendo a propriedade em 1907 para o tio, o médico Leopoldo Couto Magalhães. Ele era conhecido como o “seu Bibi”, bibi (bebê) era como as escravas que cuidaram dele o chamavam. A rua Renato Paes de Barros antes se chamava Rua Bibi, em sua homenagem. João Cachoeira era um agregado da família que também virou nome de rua. A sede da chácara ficava no início da atual rua Iguatemi e, mesmo tombada pelo patrimônio, ela foi destruída pelos seus atuais proprietários.

Um dos filhos de Bibi, Arnaldo Couto de Magalhães loteou as terras e vendeu os terrenos na década de 20 para pequenos agricultores italianos que plantavam verduras e legumes e já não cabiam mais na Bela Vista ou no Bixiga. Os terrenos mais próximos do rio Pinheiros, foram sendo ocupados por atividades ligadas a olarias e forneciam tijolos e telhas para as construções. Esta área mais industrial acabou levando o nome de Itaim Paulista e as àreas menos alagadas e mais perto da casa grande da chácara foram chamadas Itaim Bibi. Hoje o bairro abriga muitas multinacionais como a Morgan Stanley, Internet Group e a Cyrela. Os restaurantes e bares proliferam a cada dia, mas teatros ainda não são muitos.

O espaço leva o nome do ensaísta, crítico de teatro e professor Décio Almeida Prado. Ele foi um dos mais influentes críticos teatrais em São Paulo nas décadas de 40 até 60. Foi professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Foi professor de história do teatro na Escola de Arte Dramática – EAD junto com Cacilda Becker, que hoje dá nome a outro teatro administrado pela prefeitura, nos mesmos moldes do espaço no Itaim Bibi. Com ela, Décio fundou o GUT – Grupo Universitário de Teatro que era ligado à USP. Escreveu sobre o tema na revista Clima de 1941 a 1944 e depois foi responsável pela elaboração de um suplemento literário no jornal O Estado de São Paulo a partir de 1956. Suas pesquisas e artigos tinham como objetivo situar o teatro na cultura do país.

Décio de Almeida Prado na juventude.

Foi responsável pelo amadurecimento da crítica cultural no Brasil – não só apenas o teatro brasileiro estava crescendo e se desenvolvendo, mas o pensamento sobre ele também. O crítico é um especialista em ser platéia, em acompanhar de perto as produções culturais e seus diálogos com outras produções ou com outros aspectos do cotidiano. Para poder criticar é preciso saber traduzir obra e mundo, onde estão estes pontos de intersecção.

Enquanto estive na minha visita ao Décio Almeida Prado, conheci o Daniel Ribeiro, que é responsável pela iluminação do local. A história dele com a prática teatral é antiga. Quando ele tinha 15 anos, ia todos os dias em uma biblioteca em Santo Amaro e via o grupo de teatro que fazia parte da Secretaria de Cultura ensaiar no auditório. Ficava lá “de butuca” até que o diretor o convidou para fazer um teste. Se apresentaram em várias atividades festivas organizadas pela prefeitura. Ele resolveu prestar concurso e passou a fazer parte do quadro de funcionários, e hoje é produtor cultural da Galeria Olido. Mas faz um pouco de tudo, como todo bom artista independente, é iluminador, cenógrafo e ator. Trabalhou com musical, teatro de marionetes, e de mascaras, fez dois filmes, nos quais trabalhou com os atores Paulo Autran e Giulia Gam. Daniel também não é daqui, veio lá de Minas Gerais, com seus 15 irmãos numa kombi velha, jogar a moeda da sorte sobre a capital. Tinha 9 anos de idade.

Todos somos artistas de uma forma ou de outra, alguns resolvem exercer a habilidade outros não. Mas traduzimos e entendemos o mundo desta forma. Os espaços para estas traduções são diversos e inusitados. A tela do computador hoje em dia é também um destes espaços. É aqui, que eu tento, assim como você, desempenhar o meu papel, neste palco, nesta cidade.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Bruno Teixeira Martins

Ps: Um grande beijo para o Márcio Lugó que me indicou o piano e para a Nathália Gabriel e a equipe do teatro pela gentileza e disponibilidade.

Piano nº 12 – 피아노 significa piano

 

 

 

Temos 512 anos de Brasil, 458 anos de São Paulo. Eu tenho 29 de vida e 9 aqui nesta cidade. Por mais que o tempo passe, confesso que, saber o que é ser brasileiro é uma dificuldade enorme. Sentir-se paulistano então, é uma conta ainda mais complicada.

Parece que todos nós viemos de outro lugar, mesmos os que nasceram na maternidade Santa Catarina que fica na avenida Paulista. Quanto mais pesquiso, concluo que é da natureza do paulistano incorporar outras culturas. São Paulo não existe, é um Frankestein construido de partes alheias. Um braço do interior, uma orelha do sul, a cabeça do nordeste, o pé da Itália…assim vai. Habitamos todos, este grande monstro pesado, cheio de retalhos e emendas, que se movimenta lentamente. Somos células importadas.

Importamos pianos, importamos gente. Tocamos música, contamos histórias. Parece não haver diferença.

Meus 9 anos de vida paulistana é o mesmo número da idade que tinha Regina Hwang, dona do piano deste post, quando chegou no Brasil. Ela e a família sairam de Seul, na Coréia do Sul, e vieram lançar aquela tal moeda da sorte aqui na capital paulista. Ano que vem, São Paulo comemora 50 anos de imigração Coreana, a comunidade já está preparando as festividades e isso será tema da escola de samba Unidos da Vila Maria. Não tem como misturar mais que isso!

A imigração coreana no Brasil está relacionada ao período de instabilidade que a Coréia vivia nas década de 50 e 60. A Guerra da Coréia foi travada entre 26 de junho de 1950 a 27 de julho de 1953 e dividiu a Coréia em Sul e Norte. A primeira capitalista, apoiada pelos estadunidenses, passou a chamar República da Coréia. A segunda, comunista, apoiada pela União Soviética, passou a chamar República Popular Democrática da Coréia. Hoje conhecemos as duas por Coréia do Sul e Coréia do Norte. Já nesta época pequenos grupos de imigrantes vieram para o Brasil

Uma década depois, a instabilidade política ainda existia e, em 1961, levou a um golpe de estado liderado pelo general Park Chung-hee. As grandes imigrações começaram nesta época. A data oficial é celebrada em 23 de fevereiro de 1963, mas o acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo tem fotos incríveis de viagens de um ano antes, quando navios partiam do porto de Busan na costa da Coréia do Sul para atracar no porto de Santos.

Coreanos saindo do porto de Busan para o Brasil. (imagem: acervo digital Museu da Imigração)

Hoje os coreanos são por volta de 40 mil só em São Paulo, fazendo do Brasil o sexto país em volume de imigrações, com mais ou menos 50 mil. Dominam o setor têxtil de confecção e se concentram nos bairros do Brás e Bom Retiro. Quando vieram, se instalaram na Baixada do Glicério ,que é a região localizada às margens do rio Tamanduateí, nos distritos da Liberdade e da Sé.

Nosso piano fica no restaurante Portal da Coréia, localizado na Rua da Glória, 729 – Liberdade. É um piano alemão de armário, castanho, da marca Gustav Breyer, e tem uma história curiosíssima. Ele pertencia a uma pianista coreana que veio para o Brasil com a família em busca de uma professora de piano, que era ninguém mais ninguém menos do que a grande concertista Magda Tagliaferro, que morava no Rio de Janeiro na época. Segundo o relato de Regina, o piano foi adquirido através dela. Fiquei desesperada para saber o nome da pianista coreana, mas Regina só lembra o sobrenome, An.  O piano precisaria de uma reforma, a afinação está mediana, o som está um pouco carregado nas frequências agudas. Mas o peso da tecla está bom e o teclado está nivelado.

Cantei propositalmente a música Oriente, do Gilberto Gil, que está no antológico disco Expresso 2222, de 1972, disco que ele lançou depois que voltou do exílio em Londres. A canção fala sobre uma busca por uma outra ordem de organização, questiona o jeito de pensar do ocidente/egocentrico e propõe uma virada para os valores orientais, para uma filosofia mais integral com a natureza, para uma retomada da concentração. Como podemos ver nos versos: “pela simples razão de que tudo merece / consideração” e também em “pela simples razão de que tudo depende / de determinação”.

Regina tem o restaurante há três anos. Seu pai chegou em São Paulo em 1970 para trabalhar com confecção e dois anos depois a mãe, que também trabalhou com restaurantes, veio com ela e os dois irmãos. Eram apenas os 5 e a cidade. Idioma, comida, moda, música, clima: tudo diferente.

Os pratos mais conhecidos do restaurante são: o Bulgogi – que são fatias finas de carne com um tempero suave assadas na hora numa chapa quente; e o Dolsot Bibimbap, que é um risoto a moda coreana, cozido no prato de pedra com legumes, shimeji, champignon, carne e ovo. Agustin e eu provamos a comida depois da gravação e eles são fantásticos! É uma ótima pedida para quem gosta de comida oriental, mas está cansado daquela mesmice…Tudo é gostoso.

Além do restaurante, ela é professora de Hankook Muyong, dança tradicional da Coréia, sua verdadeira paixão. Ela e seus alunos já se apresentaram em várias cidades brasileiras. Quando perguntei se ela se considera mais coreana ou brasileira, ela respondeu coreana. Para ela, a vida dentro da comunidade foi muito necessária para conseguir se estruturar em São Paulo.  Porém, esta mesma certeza cultural não é compartilhada pelos 4 filhos dela. De outra geração, as três meninas e um rapaz, que hoje faz faculdade na Coréia do Sul, as outras duas estudaram em faculdades brasileiras, e a caçula de 10 ano ainda está no colégio, oscilam entre uma cultura e outra. Ora se sentem brasileiros, ora coreanos. Estudaram em colégios brasileiros, têm amigos brasileiros e dependeram menos dos laços comunitários coreanos.

Todos eles se sentaram ao Gustav Breyer e estudaram piano.  Escutam K-pop, música pop coreana e a nossa MPB. Estão inseridos na cultura antenada e tecnológica da metropole, filhos do mundo cosmopolita, onde fronteiras não importam muito. São Paulo e Seul não estão separadas por oceanos, mas a um clique de distância.

Acredita-se que os primeiros habitantes da Coréia chegaram lá há aproximadamente 500 mil anos, fundando a dinastia Choson.  O que é o peso desta tradição milenar em comparação com nossos minúsculos 500 anos de descobrimento? Como somos mesmo uma terra jovem! No entanto, os tempos de hoje são regidos pelo signo da transformação. Moderno high-tech e tradição milenar são consonâncias de um mesmo acorde, seja lá na Coréia ou aqui em São Paulo.

Nossa crise de identidade não terá hora para acabar. Mesmo um país com tanta história, como a Coréia do Sul, com milênios no sobrenome tem que se reinventar. Acredito que aqui não será diferente. Talvez com alguns mil anos entederemos mais quem somos e o que estamos fazendo.

Quantos pianos ainda até isso!?!?

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

19/08/2012

Ps: Muito obrigada a querida Natália Lago, por mais uma indicação.

Piano nº11 – Piano Plié

o piano Brasil do Estúdio de Ballet Cisne Negro.

 

 

Algumas pessoas falam que existem certas habiliades que, ou você começa desde pequeno, ou esquece, nunca mais vai conseguir tê-las. Tocar piano é uma delas. Ou você começa desde os 3 ou já era. Que horror! Fico pensando quanto tempo eu perdi ouvindo esse tipo de gente amarga. Eu tinha 21 anos quando resolvi estudar piano para valer. Não sou, nem pretendo ser nenhuma concertista, mas estou chegando devagar no meu caminho, leio partitura e cifras até complicadas, improviso ainda é uma montanha a se escalar, mas um dia eu chego lá. Se quando menina tivesse escutado mais o meu coração e menos essas pessoas chatas, talvez teria convidado o piano para sair mais cedo, mas fiquei de paquera por muito tempo. Devia ter pedido em casamento muito antes, mas… não se pode chorar pelo leite derramado.

É óbvio que estudar alguma coisa desde pequeno é muito melhor, o corpo assimila de outra forma e aquilo fica incorporado naturalmente na pessoa. Mas não existe tempo nem calendário para nossas vontades e nossos desejos, muito menos os de ordem artística. Outra habilidade sobre a qual falam essa mesma bobagem é o ballet.

O post de hoje tem um caráter muito especial para mim, é um post dançarino. Não que eu saibar dançar, muito pelo contrário, mas quando entrei na nossa locação tive uma sensação familiar. Cheguei no Estúdio de Dança Cisne Negro e me reconheci em muita coisa da escola de dança que existe há mais de 50 anos e é, talvez, a mais famosa escola de ballet do Brasil. As salas, espelhos e barras, as meninas de meia calça rosa que andam com os pés abertos, que nem pato. As professoras gritando “5…6…7…8…” e a música por todos os lados.

Na minha casa, onde cresci em Rio Claro, só se falava em ballet. Minhas duas irmãs dançavam e aquilo era a vida delas. Por consequência, acabou sendo a vida da minha mãe, que sempre nos apoiou, e de meu pai, que foi arrastado de lambuja para todos os recitais, dos meus 5 anos até hoje, e, assim, acabou gostando. Até eu entrei nessa, fiz uns aninhos, mas vi que não era para mim. Montei uma banda de rock e fui tocar Deep Purple, Jimi Hendrix e Eric Clapton. Era revoltada, rebelde sem causa, e gostava de preto, nada de rosa.

Mas de tanto respirar dança em casa, conheci muitos repertórios e histórias de bastidores das bailarinas e, sem que eu soubesse, acabei entendendo bastante do assunto, tudo por osmose. Uma irmã parou de dançar, a outra dança até hoje e fez disso sua vida, foi para Londres estudar ballet clássico e jogar a moeda da sorte dela na terra da rainha. Este post então vai para ela e para as infinitas possibilidades do que ela pode ser.

Luana e Gustavo (foto: Débora Peroni)
Luana Ferreira e Gustavo Lopes (foto: Débora Peroni)

O Estúdio Cisne Negro fica na rua das Tabocas, na Vila Beatriz; foi fundado graças a uma eterna apaixonada pela dança chamada Hulda Bittencourt e seu marido Edmundo. Nascida em Santa Cruz do Rio Pardo, desde criança ela sonhava em ser bailarina. Até que, na década de 50, teve aulas com a bailarina russa Maria Olenewa.

A professora russa foi peça fundamental para introdução do ballet clássico no Brasil. Se mudou de Moscou para o Rio de Janeiro em 1926, onde criou a Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois de formada uma base de dançarinos lá, em 1947, ela se mudou para São Paulo e começou a criar esta cultura aqui. Em uma destas classes pioneiras, estava dona Hulda.

Dona Hulda costumava dançar em programas da TV Tupi, mas o marido não era muito fã da idéia, então montaram a escola de ballet que funcionava nos andares inferiores do prédinho que haviam construido – eles moravam nos superiores. Foi o primeiro espaço voltado exclusivamente para a dança em São Paulo, na época a região era só mato.

Em 1977, ela montou o Cisne Negro Cia de Dança que funciona independente do estúdio onde fica a escola. Para o primeiro espetáculo da companhia, em 1977, ela recrutou estudantes de educação física para o elenco masculino, pois não haviam bailarinos homens disponíveis.  A companhia tem 35 anos e é reconhecida mundialmente como um dos grandes nomes do ballet brasileiro no mundo. Na época do governo Collor, a escola passou por muitas dificuldade e quase fechou as portas, mas, escondida do marido, dona Hulda conseguiu um empréstimo no banco e o Cisne Negro pode retomar suas atividades. Dona Hulda até hoje se dedica ao ensino e divulgação desta arte em todo o Brasil e no mundo.

Dentro de uma das salas principais do Estúdio está nosso convidado, um piano de armário da marca Brasil, de madeira castanha escura. Sua afinação está um pouco prejudicada, os pedais também, necessitaria de uma boa reforma e o banquinho está perdido. Eles usam o piano para as aulas de ballet e exames da Royal Academy de Londres, que exige a presença de um pianista durante a prova. Nosso piano acústico não é mais o primo bailarino e foi substituido por um piano digital, que também fica na sala. Mas ele permanece encostado no canto, proibido de ser vendido, para que os alunos não fiquem sem música caso acabe a energia.

Dois destes alunos foram gentis de compartilhar seus respectivos talentos conosco, em nossa visita ao piano Brasil. Luana Ferreira e o Gustavo Lopes começaram a dançar muito novos, estudam no Estúdio e planejam seguir carreira no ballet. O dedicamento deles é visível em seus físicos alongados. Os dois dançando criam linhas lindas que riscam todo o espaço amplo da sala. Eu, Agustin e Débora ficamos de queixos caídos quando os dois começaram a esboçar passos em cima da música que eu tinha apresentado, e que não tinha nada a ver com o repertório que estavam acostumados a dançar. Habituados a dançar com música clássica, eu cheguei com o pop/jazz da cantora e pianista israelense Yael Naim. Fui ver o show dela recentemente e me apaixonei pela leveza de suas composições, então escolhi a musica I Try Hard, de seu terceiro álbum. No começo, os dois estavam apreensivos com o que fazer, mas logo foram se soltando e criaram uma coreografia na hora para nós. O resultado ficou lindo, nosso primeiro vídeo com participações especiais.

Agustin, eu, o piano e Luana (foto: Débora Peroni)

Os pianos Brasil são um clássico no país, foram fabricados em São Paulo, mas possuiam a marteleira e mecânica importada. As peças do interior do instrumento vinham de fora ou dos Estados Unidos, da fábrica Elephant, ou da Alemanha, da fábrica Renner.  As partes de madeira eram colocada aqui no país. A marca ficou muito conhecida nas décadas de 50 e 60, porém encerrou suas atividades na década de 70. Atualmente, os pianos Brasil são raros e disputados a tapa pelos restauradores, pois possuem um ótimo som por um preço acessível. O meu piano é um piano Brasil, eu sou fã da marca e é o primeiro post em que eu encontro um piano deste!

Ele pertenceu a pianista Maria Inês de Vasconcellos que ganhou o instrumento novinho de seu pai, aos 8 anos de idade. Ele foi comprado na antiga e antológica loja de música Casas Manon, que atua em São Paulo há 95 anos.  Foi neste piano que Maria Inês concluiu sua formação no Instituto Musical de São Paulo. Ela se tornou pianista especializada em acompanhamento para dança por acaso. Na época, ela trabalhava tocando piano nas aulas de ginástica, muito antes das músicas eletrônicas invadirem as academias fitness. Em um belo dia, a pessoa encarregada pela música no Cisne Negro faltou e ela foi substituí-la. Nunca mais saiu, tem 33 anos de casa. Hoje, ela viaja o Brasil todo acompanhando salas de bailarinos, além de países no exterior como o Canadá.

Maria Inês Vasconcellos acompanhando exames.

Com 65 anos, ela conta que tocar piano para o ballet é completamente diferente dos recitais de pianos normais. Exige um outro tipo de sensiblidade e que o que a preparou para a tarefa foi sua perseverança. Acompanha os bailarinos tocando composições improvisadas na hora. O professor dá um andamento, ou cantarola alguma coisa e cabe a ela traduzir o que se passa na cabeça do coreógrafo em uma música. Dai então os bailarinos vão atrás da música que serve de parâmetro para organizar os passos da dança. O tempo é o martelo corretor.

Há vinte anos, gravou o seu primeiro cd de músicas para aula de ballet. A criatividade e o improviso são seus maiores materiais de trabalho, ela acredita que, sem isso, tocar para dança seria impossível. Quando perguntei o que a dança a tinha ensinado, ela falou que tocava com a alma e isso só era possível porque existia a troca. Quando existe retorno e diálogo entre as artes, seja a dela com o piano, os bailarinos e seus movimentos, o professor e seu ensinamento, é nesta ocasião em que fica fácil tocar com a alma.

E como se fosse obra do destino, Maria Inês tocou para minha irmã dançar em várias aulas e exames há muitos anos. Ela lembrava até da minha mãe sentada no banco da sala, costurando fita na sapatilha, esperando a aula acabar. Nós nunca nos vimos antes, mas o piano tocou que tocou e acabou unindo nossa conversa.

Não tem jeito, estamos todos amarrados com cordas de piano, quanto mais toco e escrevo, mais comprovo esta teoria.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

23/07/2012

Video: Agustin N. Oroz

Fotos: Débora Peroni

Bailarinos: Luana Ferreira e Gustavo Lopes.

ps1: Um agradecimento especial a Luciana Vigneron do Estúdio Cisne Negro.

ps2: dica quente de nosso leitor Caio Ramos: mudaram de lugar os pianos das estações de metro o da Sé foi para o Brás e o da Tamandatueí foi para o Paraiso! Alguém tem notícias do piano da Luz?? continua aquela coisa horrível!?

(foto: Débora Peroni)

Piano nº 10 – Piano de Pau a Pique

“Santa Cecilia, iluminai-me nesta jornada!”

Há 5 meses atrás eu sai de casa para tocar no primeiro piano deste blog. Desde então comecei a entender que essa busca musical seria um mergulho no grande mar de coisas que é São Paulo. Acho que ainda navego por águas claras e aguardo ansciosamente pelas águas fúccias desta cidade profunda. Este é meu 10º piano e reparo agora como suas cordas parecem estar entrelaçadas formando a vela que navega São Paulo. O post de hoje fala sobre a primeira história desta cidade. Onde São Paulo virou caravela. Estamos no Pateo do Collegio, onde foi construida a primeira casa desta cidade.

Tudo no Pateo do Colégio tem a grandiosidade do tempo, o piano que está lá não podia ser diferente. Trata-se de um piano de meia cauda preta da marca francesa Pleyel. Ele foi doado nos anos 80 por uma senhora da elite paulistana. Ela e o marido eram frequentadores da Igreja. Ele era da “Ordem dos Cavaleiros de São Paulo” e ela da “Mulheres Damas de São Paulo”, entidades sociais que todos os dias 25 de janeiro aniversário da cidade apareciam de capas brancas enormes na Igreja.

A fábrica de pianos Pleyel foi fundada em 1795 por Ignaz Playel que era pianista e compositor, além de amigo pessoal de Haydn. Após sua morte o negócio ficou nas mãos do filho Camille, também pianista. Ele também era um grande agitador cultural da época, organizava saraus nos salões, nestas apresentações musicais revelaram-se novos talentos, um novato que foi que apareceu por lá foi Frédéric Chopin. Chopin e Camille ficaram amigos e o célebre pianista passou a ser patrocinado pela marca. Com um excelente olho para achar talentos, Camille apadrinhou Liszt, Franck, Debussy, Grieg, Ravel, Thalberg, De Falla e Stravinsky. Todos davam suas “canjas” nestes saraus.

O Pleyel do Pateo do Colegio (foto: Debora Peroni)

Esse contato com a performance musical teve seu auge em 1927 quando a fábrica, para celebrar seu centenário de tradição, abriu a Salle Pleyel a maior sala de concerto da época. Porém, 9 meses depois de seu nascimento, um incêndio quase acabou com tudo. A sala teve que ser vendida para um banco francês que reergueu os escombros e tornou a Salle Pleyel uma das maiores de Paris. Foi lá que Stravinsky esteve com Agon em 1958.

A marca era a Steinway da época, e inventou inúmeras patentes na construção de pianos. Foram eles que utilizaram pela primeira vez a placa de ferro que fica dentro do piano que dá sustentação para as cordas. Antes esta placa era de madeira. O piano do Pateo do Colégio é um destes modelos antigos. As cravelhas, que são as chaves que permitem controlar a tensão das cordas também são de madeira. O resultado disso é um som bem mais escuro e fechado. O piano precisa de uma boa reforma, principalmente por seu caráter histórico. O pedal não responde muito bem, algumas teclas graves as vezes travam, a afinação está no limite, mas dá para se divertir sim e vale muito a pena para verificar essa sonoridade antiga, além de ver a placa de madeira, que mesmo pintada para imitar ferro, não consegue se esconder. Ele fica em um anfiteatro destinado a reuniões e palestras, para tocá-lo converse e se apresente com o pessoal da recepção.

Toquei o clássico de 1942, Aos pés da Santa Cruz, de Marino Pinto e Zé da Zilda. Ambos moravam no Rio de Janeiro e foram grandes compositores de hits de carnaval e de músicas para a rádio. Marino Pinto é o mesmo autor de “Nós os Carecas” (…é dos carecas que elas gostam mais..) e Zé da Zilda, era sambista da Mangueira, antes era conhecido como Zé com Fome, se casou com Zilda e virou Zé da Zilda, a esposa, com quem mantinha um duo virou Zilda do Zé. A música caiu na boca do povo na voz de Orlando Silva e depois foi regravada na bíblia dos álbuns brasileiros “Chega de Saudades” de 1958 de João Gilberto.

O Pateo do Colégio é um verdadeiro oasis no centro da cidade, lá fora aquela loucura de carros e pessoas apressadas, nos complexos do Pateo, onde funcionam o Museu Anchieta a Biblioteca Pe.Antonio Vieira, a Igreja e um charmoso café o tempo parece não passar, e o melhor de tudo, é um silêncio…

Pateo do Colégio – 1824 – Jean Baptiste Debret

Meu anfitrião foi o mestre de capela de lá, Felipe Bernardo. Espanta-se quem acha que o mestre de capela é um velhinho barbudo, Felipe tem 25 anos e é todo moderno. O que não o impede de ser organista e apaixonado por canto coral. Ele toca na igreja desde os nove anos. Nascido em Botucatu, interior do estado (ahh os migrantes…) ele participa desde do coral do Colégio Santa Marcelina de lá, esteve presente desde o primeiro ensaio e acompanhou por 12 anos o coro que já foi convidado a cantar em Brasília em 2005, depois nos EUA em 2008 e ano passado em Roma e Portugal. Foi nas voltas do ensaio que ele foi ouvindo os cds de órgão do maestro e começou a se apaixonar pelo instrumento. Alguns anos se passaram e ele é o jovem por trás do imenso órgão da Igreja do Pateo do Colégio que tem missa ao meio dia todos os dias, todas muito cheias. A missa é ministrada pelo Pe. Carlos Alberto Contieri é sucesso! Sem ser apelativa, como esta sendo praxe atualmente, o Pateo do Colégio está construindo prestígio e virando referência no canto coral e na música sacra atual.

Felipe Bernardo, mestre de capela e eu. (foto: Debora Peroni)

Felipe Bernardo, mestre de capela e eu. (foto: Debora Peroni)

Ao lado do café ainda está de pé uma parede da primeira construção da igreja datada de 1585, feita de taipa de pilão, uma técnica construtiva de origem ibérica, que nada mais é do que socar em um pilão terra umidecida e adicionar fibras vegetais, areia, estrume, oleo de baleia, algumas vezes substituido por sangue animal, até isso virar uma massa. Ela servia de reforço a uma estrutura de madeira, quando a massa secava, tira-se a madeira e lá está tua parede. Uma espécie de tataravô do cimento.

Mal imaginavam os jesuitas Pe.Manuel de Paiva, Pe Afonso Brás e o irmão José de Anchieta o quanto de cimento ia se esparramar por essas terras, quando celebravam a primeira missa que oficializa a fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga em 25 de janeiro de 1554 em uma cabana de pau a pique com cerca de 90 metros quadrados. Eles se instalaram naquela região pois era um ponto seguro, localizado bem ao alto podia-se ver a movimentação dos indios. Os jesuitas foram expulsos do local  em 1640 por desentendimentos com os bandeirantes, voltaram em 1653, o Colégio já tinha sido totalmente modificado tendo que ser reconstruído. Em 1759 foram expulsos novamente por razões políticas, tendo apenas 3 dias para deixarem o Brasil, voltando para a Europa literalmente com a roupa do corpo. O local passou a ser o Palácio dos Governadores e a contrução foi novamente modificada. A Companhia de Jesus foi suspensa em 1773, expulsando todos os jesuitas da américa e do mundo. Ela voltou a ser restaurada pelo papa Pio VII em 1814. Na ausência dos jesuítas o local foi inteiro demolido em 1896, o altar-mor que estava lá desde 1680 foi levado para a Igreja do Sagrado Coração de Maria que fica na Santa Cecília. Só em 1953 que o local foi devolvido aos padres como um dos marcos iniciais da comemoração dos 400 anos de cidade. Enfim, em 1979 foi inaugurado o Pateo do Colégio como conhecemos hoje, com o sítio histórico, o Museu Anchieta e a Igreja do beato José de Anchieta nos moldes da igreja demolida no século XIX.

A música tem um poder misterioso de unir as pessoas. Esse poder não pode ser explicado racionalmente, ele vem de outra ordem. Eu não sou uma pessoa religiosa, mas a melhor palavra que me vem a cabeça é a fé. É com a música que eu me conecto com o que há dentro de mim e com algo que acredito ser superior a tudo, mas não dou nenhum nome. É com ela que estabeleço a relação mais sincera com as pessoas que estão ao meu lado. Acho que talvez isso seja religião. Um encantamento que te tira do corpo. Era esse encantamento musical que os jesuitas usavam como primeiro contato com os indios. Imaginem o abismo de diferença entre um povo e outro.

São Paulo tem 458 anos e isso me faz pensar em quantas estórias precisam para se fazer história, para estar nos livros e ser ensinada nas escolas. O quantos casamentos entre índios e brancos, portugueses, negros, italianos e todas as pessoas que foram chegando e contruindo suas cabanas ao lado daquela de 90 metros quadrados dos jesuitas, feita de taipa de pilão. Depois da taipa o cimento, o asfalto e a cidade que subiu em cima desta mata, se esparramou como um polvo mergulhando seus tentáculos para os lados, para dentro da terra e para cima.

Imaginavam os três padres enquanto rezaram seus Pai-Nossos e suas Ave-Marias na missa que marca o nascimento de São Paulo o tamanho que isso iria tomar?

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

29/06/2012

Video: Bruno Teixeira Martins e Agustin N.Oroz

Fotos: Débora Peroni

Ps: Um agradecimento especial ao Pedro Paulo Penna Trindade que me contou tudo sobre o piano e a todos do Pateo do Colégio pela gentileza.

Blog nº 9 – O Som da Oficina.

O Steinway & Sons do Walter Mancini

 

Em memória de Giovanni Sebastiano Aronne 

Quando entrei na faculdade de música, muita coisa era nova pra mim. Vinha do jornalismo, com pouca experiência prática. Lá, como em todas as faculdades, existiam tribos de músicos. Se você era cantor (e eu apenas cantava na época, o piano veio depois), teu universo era Caetano, Chico, Tom, ou seja, canção em geral. Mas se você era do jazz, guitarristas, pianistas e baixistas, teu mundo era outro. Coltrane, Parker, Evans… esses eram seus totens. Graças ao tempo e à maturidade, descobrimos todos, instrumentistas ou não, que os dois mundos são igualmente maravilhosos e inspiradores, não importando o instrumento que você toca.

Mas naquela época lembro que meus amigos do jazz, uma panela bem difícil de conversar, impossível de entrar, tinham um ritual de passagem para o mundo adulto musical. O ritual era tocar no Mancini. Mal sabia eu, que depois de alguns anos, eu teria um blog e estaria no mesmo lugar cantando canções. Enfim, canção e jazz juntos.

Tocar no Mancini não é tarefa fácil. Primeiro você tem que saber qual dos restaurantes do Mancini estamos falando. Na rua Avanhandava, onde todos se localizam, são 8 estabelecimentos comerciais. Mas o lugar em questão fica no número 126, Ristorante Walter Mancini, o próprio nome do homem.

A rua é pequena em extensão, mas imensa em charme. Lá não tem asfalto e sim um ladrilho antigo típico de cidade de interior, os bares colocam suas mesas na calçada, que é cheia de vasos de plantas e árvores. Em cima, de uma ponta a outra, correm luzinhas coloridas que, junto com a fonte colocada na entrada da rua, coroam de cor o entardecer. Tudo isso escondidinho no começo do centro, tendo como vizinhos também ilustres o Copan, o Hotel Braston, que já esteve no blog, assim como o querido Terraço Itália.

foto: Rachel Mancini

Na Avanhandava vemos a mistura fina da tradição com o moderno, com a sofisticação, um centro contaminado, no melhor dos sentidos, com o que a rua Augusta tem de melhor, que é sua irreverência.

Tenho a teoria de que o piano é a imagem e semelhança de seu dono, Aqui acertei em cheio. Walter Mancini é igual a seu Steinway.  Antes de tocar no instrumento conversei com ele, o que foi muito divetido, pois ele é uma fábrica de idéias sem pausa para almoço. Até idéia para o blog, uma segunda temporada, ele me deu, mas esta não vou revelar tão cedo. Contou histórias malucas e encantadoras, como a de um piano August Förster que ficava em um circo e fazia o elefante dançar e que foi arrematado por ele e hoje está em um de seus restaurantes. Ele morou na Avanhandava em 1968, mas voltou no dia 10 de maio de 1980 para inaugurar seu primeiro restaurante o Famiglia Mancini. Depois deste dia não parou mais, teve papel fundamental na revitalização da rua junto com moradores e prefeitura. Depois de vários negócios já consolidados, ele ainda fala empolgado das coisas que estão por vir, coisas ainda a se fazer na rua. É visivelmente apaixonado pelo o que faz.

Walter na década de 80.

Depois de nossa conversa, fui me apresentar ao meu convidado ilustre, Sr. Steinway & Sons. Walter me contou que queria especificamente esta marca de piano, pois os artistas internacionais e nacionais de grande porte gostam de se apresentar em pianos de alto padrão e que o restaurante dele não ficaria fora deste circuito musical.  O Walter Mancini tem música todos os dias, 23 músicos contratados se revezam, tocando de jazz a bossa nova, ou até Beatles, como tocou o pianista que estava de plantão na hora em que fizemos a visita. Música é premissa do restaurante, é ideologia desde o começo, desde o momento da compra do instrumento. Pensamento no longo prazo.

Toquei o standard de jazz Time After Time de Sammy Cahn e Jule Styne de 1947. A música foi muito regravada, duas versões que gosto muito são a da Ella Fitzgerald, de 1966, e a do Chet Baker, de 1954. O piano está afinado, seu som é bem aberto, mesmo de tampa fechada, em cima do piano ficam vários instrumentos e um teclado. Mas ele fala bem alto, o grave então…Tinha tocado em um outro Steinway na minha faculdade antes, pude reparar que em ambos as frequências médio agudas são bem bonitas, a definição do som é muito clara, não dá aquela sensação embolada no som. As teclas não são muito pesadas, mas também não são moles demais. Foi bem diferente tocar em um piano que é usado todo dia, em comparação a pianos que ficam esquecidos. A reverberação do som na madeira do piano dá um outro timbre, ainda mais em um piano que é usado toda hora. Por isso o piano fica com um som grande e aberto, mesmo sendo de 1918. Pianos não tocados ficam com o som mais opaco, confinado dentro da caixa de madeira.

O Steinway do Walter veio de Nova York e antes de parar nas mãos dele, que até arranha umas notas no instrumento, foi restaurado pelo sr. Giovanni Sebastiano Aronne. Nascido na Itália em 1937, ele veio para cá com 16 anos e começou a trabalhar como marceneiro na fábrica de pianos Pianofatura Paulista, inaugurada em 1950. Ela ficava no bairro do Canindé, na Zona Leste. Lá aprendeu as técnicas necessárias para reforma e afinação do instrumento. Em 1961, Aronne abriu sua própria oficina e 9 anos depois a pequena oficina se transformou na Aronne Pianos Ltda. Ele se especializou no manejo de pianos de alto padrão e criou nome pelo Brasil todo. Entre seus clientes estão a TV Cultura, o Teatro Municipal, Teatro Cultura Artística e a Sala São Paulo. Em todos os lugares citados, existem pianos alto padrão, quase todos deles da marca Steinways & Sons.

Giovanni Aronne afinando.

Giovanni Aronne em sua oficina.

Existe uma outra história paralela à dos pianos de São Paulo contada neste blog que é a das pessoas por trás destes pianos, não só os pianistas ou donos de restaurantes, mas dos responsáveis por aquilo existir enquanto instrumento, e não apenas madeira, aço e marfim. As histórias dentro das fábricas, a música das máquinas. Como é que estes artesões fazem com que os sons de cerrote, solda de aço, corda quebrada e madeira envergada que ecoam no espaço aberto de seus armazéns se transformem em notas e consequentemente na minha música. Esta história se escreve com a dedicação de uma família a um ofício, da cultura de se fazer um instrumento transmitido de geração em geração.

Aconteceu com os Steinweg, alemães imigrantes dos EUA que depois de se anglicanizar tornaram-se Steinway e durante anos de pai para filho se tornaram Steinways & Sons, fabricando o pianos mais cobiçado do mundo.

Aconteceu com os Aronne aqui em São Paulo, depois da morte de sr. Giovanni em 2009, Marcelo, Angela e Armando, com quem conversei e me contou toda a história, assumiram os negócios da família e continuam como referência em pianos alto padrão no Brasil.

Pianos são incríveis, várias cordas esticadas e transpassadas, sendo que a cada três delas formam uma tecla. Nesta ponta, Eu. Do outro lado, segurando uma placa de ferro, muitos martelinhos, dentro de um casco enorme de madeira, os Aronne, os Steinways, os Mancinis, o August Förster e seu elefante dançarino, a Avanhandava toda e São Paulo e seus sei lá quanto milhões de habitantes. Todos escutando a trilha sonora desta busca maluca.

Um beijo e até o próximo piano!

Alessa

18/06/2012

Video: Agustin N. Oroz

Foto: Rachel Mancini e divulgação do grupo Mancini / Aronne Pianos.

Ps: A Steinway & Sons tem um história fantástica que não coube aqui em mais detalhes. Vou ter que achar outro piano da marca para contá-la, prometo que acho.

Piano nº 8 – O uruguaio, os gêmeos alemães e a empresa inglesa.

O Zimmermann e o Ritter & Halle do Centro Cultural Aúthos Pagano.
O Zimmermann e o Ritter & Halle do Centro Cultural Aúthos Pagano.

Eu vivo falando sobre o tempo neste blog. Acredito que, como Caetano diria, ele é um dos deuses mais lindos. Para mim, parece que buscar os pianos de São Paulo tem cada vez mais sido como um retorno ao passado.

Seriam os pianos, máquinas do tempo? Toda a história de um lugar em um objeto.

A edição de hoje foi feita no Centro Cultural Aúthos Pagano, que fica no Alto da Lapa. Aúthos Pagano foi um intelectual que nasceu no Uruguai, mas veio para o Brasil ainda menino. Aos 23 anos escreveu a primeira tese de doutorado em economia do Brasil, “Coeficiente Instantâneo de Mortalidade, defendida em 1939, ela lhe rendeu o título de Doutor Honoris Causa em Cuba.

Estudou também, Filosofia, Direito, Estatística e Matemática, no final da vida se interessou por Astronomia, gostava das leituras de Júlio Verne. Lecionou na faculdade Mackenzie no começo dos anos 50 até a data de seu falecimento em 1976.

Sua casa é abarrotada de livros, são mais de 10 mil títulos em sua biblioteca. Só de “A Riqueza das Nações” de Adam Smith são 13 edições. Leitor voraz, colecionar assíduo,  sua esposa, Dra Carmela Antonia Danna Pagano, relata no livro que escreveu sobre o marido, acreditava que o amor pelos livros era uma expressão da confiaça em seu poder mental,  da busca em se devencilhar das gaiolas em que vivemos, seja pelo espaço horizontal ou vertical.  O homem deseja sair deste mundo afora, baseando-se na própria inteligência.

Talvez, as pilha de livro sob sua mesa, nada mais eram do que escadas para o alto de sua imaginação e inteligência. Escadas que o levavam para aquele lugar de vista tão surpreendente quão indecifrável que só o estudo nos faz ver, nos trás a luz. O mantra e a paz da concentração. Um lugar que só existe para gente, em que reconhecemos o nosso mais íntimo individual e ao mesmo tempo nos revela na coletividade.

Todo nerd de carteirinha sabe exatamente do que eu estou falando. Aquela hora que nos perdemos do mundo de cá, que já não ouvimos mais nada a não ser as frequências agudas das sinapses cerebrais e o pulso grave constante do batimento cardíaco e ficamos em sintonia com o que há do outro lado. Conhecer é, sem dúvida, uma tradução do ato de se abrir.

Em 1982, Dra Carmela doou a residência, com todo seu mobiliário e alguns objetos, além dos 10 mil títulos entre livros, periódicos e discos para o Governo do Estado para a criação do Centro Cultural. Hoje no Centro Cultural Aúthos Pagano são realizadas palestras e oficinas de teatro e música, abertas e gratuitas.

A casa em si é linda, projetada pelo arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik em 1929, no estilo modernista, foi adquirida pelo casal em 1963. Fica no bairro do Alto da Lapa  que foi planejado no começo do século XX pela “City of San Paulo Improvements & Freehold Land Co.Ltda., S.A”, mais comumente chamada Companhia City. Empresa fundada em 1912, ela foi responsável pela urbanização dos bairros Jardim América, Anhangabaú, City Butantã, Alto da Lapa, Bela Aliança, Alto de Pinheiros e Pacaembu em São Paulo e vários outros no interior e até em outros estados.

Os lotes da City
Os lotes da City

Os bairros, todos planejados no conceito que a city chama de “cidade-jardim”, com muitas árvores e lotes com tamanho mínimo. O Alto da Lapa hoje ainda preserva um pouco desta tradição. Em meio a tanto assédio e especulação imobiliária, ele ainda consegue se manter como um bairro de casas.

Anúncio de terrenos, promessa imobiliária.
Anúncio de terrenos, promessa imobiliária.

Na falta de um piano, acabei encontrando dois, ambos alemães. Um deles é da marca Zimmermann que foi doado pela secretaria de cultura. A Zimmerman era no começo do século XX uma das fábricas que mais produzia pianos no mundo. Ele está afinado, possui um timbre bem metálico e agudo. O outro é da marca Ritter & Halle, que tem um timbre mais macio, equilibrado, está bem afinado. A fábrica Ritter & Halle foi fundada em 1828, era uma fábrica pequena. Em 1912 eles produziam anualmente apenas 1.200 pianos, contra os 10.000 pianos da gigante Zimmermann. A empresa era familiar e teve que fechar as portas em 1945, pois não haviam herdeiros para continuar o negócio. Em 2010, a fábrica foi reaberta com ajuda de investidores que resgataram a marca e migraram seus negócios para o oriente, hoje os pianos Ritters são produzidos e exportados para toda a Ásia.

Cantei o standard de jazz chamado Can`t Get Started de Ira Gershwin e Vernon Duke, a letra conta a história de um homem muito avançado para sua época, que teve muitos pontos altos na vida, mas considera sua mais difícil e mais valiosa conquista, o amor da mulher amada. De uma certa maneira acho muito parecido com a vida de Aúthos Pagano.

Ao escrever este post me lembrei de outro personagem deste blog. Elizeu Storion do Terraço Itália, que viu a cidade crescer do topo do edifícil mais alto durante 26 anos, o homem que cronometrava o pôr do sol. Dois homens e seus respectivos jeitos de observar o mundo, suas impressões sobre a cidade, a poética de suas rotinas cotidianas, suas maneiras de viver e ver o tempo.

E os pianos, fixos nestes lugares, observam a eterna fluidez dos fenômenos.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

01/06/12

Video: Agustin N.Oroz

Ps: Um beijo para a Marília de Moraes Benini, Alcione e Dra. Carmela, outro para todos do Centro Cultural Aúthos Pagano pela gentileza e entusiasmo.

 

Piano nº 7 – Piano de Jangada

O Kemble do Hospital São Camilo.

 

 

 

 

Os hospitais são lugares que vamos quando algo em nosso corpo sai fora do normal. As vezes é uma dor ruim, dor de cabeça, corte no pé, dor de barriga, febre, acidentes. As vezes não tem nada a ver isso,  pode ser bom como é o nascimento de alguém, a notícia de uma cura. Mas, em resumo, o objetivo do hospital é que ao sair nosso corpo esteja bem.

E quando não tem a ver com corpo? Dentro do nosso corpo parasitam tantos mistérios. E quando temos que curar dores de outra ordem? Dor de cotovelo, dor de corno, paixonite, ataques de riso…Será que é por isso que aparentemente todo hospital possui um piano? Como se a música fosse um remédio das coisas de dentro?

Acredito que este blog encontrou seu primeiro grande mistério. Quase todos hospitais têm um piano. Por que? Quem começou esta moda? Já sabemos que a música acalma, mas será que é só isso? Fui infectada pelo vírus da curiosidade.

É a curiosidade a molécula da ciência e é nela que toda a medicina se apoia. Mas e para coisas além da ciência, como a fé? Quem explica? Não é no mínimo curioso que a maioria dos hospitais tenham nome de santos? O nosso endereço de hoje é o Hospital São Camilo, que fica na avenida Pompéia.

A Pompéia é um bairro muito querido em meu coração, berço do rock paulistano com os Mutantes, consegue manter ainda uma cara industrial antiga, com os armazéns da antiga Companhia Urbana e Predial do empreendedor Rodolpho Miranda que batizou o bairro inteiro com o sobrenome de sua esposa Aretusa Pompéia. Este sofria de paixonite aguda, meu nome é estranho, mas Aretusa…devia ser muito bela. Foi neste bairro que comecei a tocar piano, onde até hoje me dirijo todas as quartas-feiras para ter aula com minha mestra Silvia Góes. Bairro de imigrantes que vinham atrás dos empregos nas fábricas. E seu crescimento tem muito a ver com a chegada dos padres Camilianos na região em 1935 quando ainda era apenas uma clínica, Policlínica São Camilo, para em 1960, depois de 16 anos de contrução ser inaugurado o Hospital São Camilo.

Conta a história que Camilo de Lellis foi militar, dado à joguatina e só se metia em confusão, perdia tudo que tinha e se enveredava pelos prazeres mundanos. Ele carregou a dor de uma úlcera no pé durante toda sua vida. Tinha perdido todo seu dinheiro, apostado até a camisa do corpo, quando foi parar num hospital, e desta experiência foi arrebatado pela fé, se tornando voluntário e ajudando os enfermos.  Foi o fundador dos Camilianos, ordem religiosa que se dedica aos doentes. E parece que no dia de sua morte, por milagre a úlcera do pé estava curada. Os Camilianos vindos da Itália chegaram ao Brasil no final de junho de 1922, passaram por Mariana, em Minas Gerais, e pelo Rio, até se instalarem definitivamente em São Paulo.

Na arquitetura do hospital ainda permanece sua primeira estrutura antiga, além de uma outra mais moderna inaugurada em 2005. A mesma data em que nosso piano foi parar lá. Ele foi comprado de um misterioso restaurador na zona leste, escolhido literalmente a dedo pela arquiteta que trabalhava nas obras e que também sofria de paixonite pianística.  Está no saguão e é de livre uso para todos, mas geralmente são os pacientes que se consultam com o “doutor Kemble”.

O piano é um meia cauda de uma madeira castanha muito bonita, tem o som ótimo e está em plena afinação. É da marca inglesa Kemble, que é relativamente nova, fundada em 1911. Como ele veio parar no Brasil? Mistério.

Curiosidade e mistério, ciência e fé, parece que neste piano tocam a mesma tecla. Sempre fui mais do lado da curiosidade e da ciência do que do mistério e da fé, mas acho que vou ter que viver com os pequenos mistérios que irei encontrar neste blog. Por que todos os hospitais tem piano? Como o piano inglês foi parar no hospital dos padres italianos que vieram para o Brasil? Quem era o restaurador de piano da zona leste? Será que achá-lo irá me deixar mais perto da trajetória do Kemble? Por que a música cura dores que não aparecem em nenhum exame, mas que são tão presentes que até nos fazem sentir sintomas físicos? Por que toda vez que eu faço este blog, eu tenho a sensação que não estou encontrando só pianos, mas a mim mesma?

Só de birra, de não poder responder estas questões, vou espalhar mais um mistério por ai. Cantei a canção Dora do Dorival Caymmi, que entendia os mistérios do mar e os aceitava com a sabedoria de um monge. E não vou contar porque escolhi esta canção…será o meu jeito de retribuir todas as perguntas sem respostas que encontrei com este piano.

Beijos de Monalisa para vocês e até o próximo piano!

Alessa

14/05/2012

video: Agustin N.Oroz

ps1: Este vai em especial a minha mãe e minhas avós pelo dia das Mães.

Ps2: Será que o piano inglês que fica no hospital dos padres italianos no Brasil, veio de jangada e atracou na Bahia do Caymmi??? Nossa…não vou conseguir dormir pensando nesta imagem…

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Piano nº 6 – Você é o seu piano.

foto: Bruno Teixeira Martins
foto: Bruno Teixeira Martins

 

Dedicado aos carregadores de piano.

Quando iniciei este projeto, o primeiro lugar que queria tocar era na estação da Luz. Lá por volta do terceiro, quarto post, flertei com a Luz novamente. Todos meus namoros foram impedidos devido a condição que se encontrava nosso piano. Quebrei o encanto hoje, 1 de maio, dia dos trabalhadores.

O piano fica no meio do saguão principal e está rodeado por colunas e um pé direito incrível. Os arcos em torno são todos trabalhados e a estação é uma das locações mais bonitas de São Paulo. Parece até um portal do tempo que nos leva a uma época em que pegar trem era sinal de riqueza. A estação tem vizinhos tão imponentes quanto, o Museu da Lingua Portuguesa, a Pinacoteca e a Sala São Paulo.

Nosso “entrevistado” é um Fritz Dobbert de armário da cor castanha, que foi parar lá de maneira muito curiosa. Em 2008, o artista plástico inglês Luke Jerram iniciou o projeto “Play me, I`m Yours”. Ele viaja o mundo todo colocando pianos em vários pontos das metrópoles. Uma invasão de pianos, incentivando a interação e a recriação de relações dentro da cidade. Em outubro do ano em que se iniciou o projeto, “Play me, I`m Yours” virou “Toque-me, sou teu”, e em parceria com o SESC, 8 pianos foram esparramados por São Paulo durante 10 dias. Dois deles foram adotados pela CPTM, um é itinerante e o outro fica na estação da Luz.

Até agora este é o piano mais público que eu encontrei. Não tem catraca, nem precisa comprar passagem, nem falar na recepção para tocá-lo.  É só sentar e tocar. Ele tem a impressão digital de todos. Interessante perceber que este piano, o mais público dos pianos, está um lixo. Suas condições são deprimentes e o sentimento mais latente é de dó,

Este blog vai muito além de mapear os pianos da cidade como se fosse um catálogo, comecei a entender isso recentemente. Talvez sua relevância seja muito mais a de contar a história de São Paulo com teclas musicais. Acho que é por isso que as pessoas acabam se apaixonando pelo blog.

A história contada pelo piano da CPTM é de abandono. O centro imponente que se quer contruir, a limpeza de que falam, descarrilha ao se escutar o som do piano público. Você é o seu piano. Esse é o mote deste blog, em todos os posts isso foi coerente. O centro que se quer esconder se revela nas teclas quebradas e desafinadas. O estranho é que toda o resto da estação está conservado. Guardas cuidam do patrimônio da estação mais branca de São Paulo, mas do piano…

Alguns podem endereçar a culpa pelo estado do instrumento ao mau uso das pessoas que passam, que são muitas. Mas isso não explica porque as paredes estão conservadas e o piano não. Afinal este piano é de responsabilidade da CPTM.

Toquei a música Canção do Sal de Milton Nascimento, a execução foi bem difícil e ficou comprometida. Tinham regiões do teclado completamente inoperantes. A acústica da estação deixa o som preso dentro no saguão, acabei incorporando os ruídos, as pessoas falando, na gravação. Atentem para os sons externos quando forem ouvir o video. Dá pra escutar coisas incríveis no som vindo das pessoas, como se toda cidade estivesse alí. Escolhi esta música propositalmente para este 1 de maio. Vou colocar um trecho da letra que para mim fala tudo.

Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir

E ao chegar em casa encontrar a família, sorrir

Filho vir da escola, problema maior é o de estudar

Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar 

Água vira sal lá na salina

Quem diminuiu água do mar?

Para mim, o piano se assemelha ao mar, pesado, misterioso, mutável, líquido, velho, mas sempre em reconstrução, pra onde tudo corre.

Trabalhar com cultura não é fácil, é preciso banca-lá incessantemente até que esta possa mudar relações, re-educar. A palavra cultura também significa hábito. Se um desafortunado vai e estraga o piano, é preciso consertar, e se estragarem de novo, é preciso consertar novamente, de novo e de novo, até isso virar hábito. Para que o piano seja de todos e não mais de ninguém. Isso é acreditar em cultura. Não é só quando o gringo vem pro Brasil com exposição mundial.

Conversei com alguns que se aglomeraram em volta para me ver tocar e nenhum deles acredita que o piano está bom. Não é porque se é pobre que se é surdo, ou não se reconhece realmente o som de um piano minimamente afinado. Eles não estão sendo enganados.

A cultura tem um poder mágico de tirar o melhor das pessoas, ela entra no ser humano sem nenhuma barreira, sem nenhuma distinção de classe ou cor. Elas são arrebatadas por aquele sentimento de encantamento. As pessoas respeitam a cultura porque existe uma troca. Ela entra dentro de você e te muda e você acaba refazendo a história dela.  CPTM, faça por merecer.

Um beijo, até o próximo piano

Alessa

01/05/2012

Video: Agustin N.Oroz e Bruno Teixeira Martins

Ps: Quando gravei este post, o programa Paratodos da TV Brasil fez uma matéria com o blog. Quando for ao ar eu aviso. Eles contactaram a CPTM para falar da situação do piano e esta prometeu que o piano estaria em ordem. O mesmo fez a revista da Folha de São Paulo quando o blog saiu em outra matéria em abril, para a Folha eles falaram que o piano iria ser restaurado e que dia 9/04 ele estaria em ordem. Eu fui lá no dia seguinte e o piano continuava péssimo. CPTM, agora é pessoal.