Piano nº 7 – Piano de Jangada

O Kemble do Hospital São Camilo.

 

 

 

 

Os hospitais são lugares que vamos quando algo em nosso corpo sai fora do normal. As vezes é uma dor ruim, dor de cabeça, corte no pé, dor de barriga, febre, acidentes. As vezes não tem nada a ver isso,  pode ser bom como é o nascimento de alguém, a notícia de uma cura. Mas, em resumo, o objetivo do hospital é que ao sair nosso corpo esteja bem.

E quando não tem a ver com corpo? Dentro do nosso corpo parasitam tantos mistérios. E quando temos que curar dores de outra ordem? Dor de cotovelo, dor de corno, paixonite, ataques de riso…Será que é por isso que aparentemente todo hospital possui um piano? Como se a música fosse um remédio das coisas de dentro?

Acredito que este blog encontrou seu primeiro grande mistério. Quase todos hospitais têm um piano. Por que? Quem começou esta moda? Já sabemos que a música acalma, mas será que é só isso? Fui infectada pelo vírus da curiosidade.

É a curiosidade a molécula da ciência e é nela que toda a medicina se apoia. Mas e para coisas além da ciência, como a fé? Quem explica? Não é no mínimo curioso que a maioria dos hospitais tenham nome de santos? O nosso endereço de hoje é o Hospital São Camilo, que fica na avenida Pompéia.

A Pompéia é um bairro muito querido em meu coração, berço do rock paulistano com os Mutantes, consegue manter ainda uma cara industrial antiga, com os armazéns da antiga Companhia Urbana e Predial do empreendedor Rodolpho Miranda que batizou o bairro inteiro com o sobrenome de sua esposa Aretusa Pompéia. Este sofria de paixonite aguda, meu nome é estranho, mas Aretusa…devia ser muito bela. Foi neste bairro que comecei a tocar piano, onde até hoje me dirijo todas as quartas-feiras para ter aula com minha mestra Silvia Góes. Bairro de imigrantes que vinham atrás dos empregos nas fábricas. E seu crescimento tem muito a ver com a chegada dos padres Camilianos na região em 1935 quando ainda era apenas uma clínica, Policlínica São Camilo, para em 1960, depois de 16 anos de contrução ser inaugurado o Hospital São Camilo.

Conta a história que Camilo de Lellis foi militar, dado à joguatina e só se metia em confusão, perdia tudo que tinha e se enveredava pelos prazeres mundanos. Ele carregou a dor de uma úlcera no pé durante toda sua vida. Tinha perdido todo seu dinheiro, apostado até a camisa do corpo, quando foi parar num hospital, e desta experiência foi arrebatado pela fé, se tornando voluntário e ajudando os enfermos.  Foi o fundador dos Camilianos, ordem religiosa que se dedica aos doentes. E parece que no dia de sua morte, por milagre a úlcera do pé estava curada. Os Camilianos vindos da Itália chegaram ao Brasil no final de junho de 1922, passaram por Mariana, em Minas Gerais, e pelo Rio, até se instalarem definitivamente em São Paulo.

Na arquitetura do hospital ainda permanece sua primeira estrutura antiga, além de uma outra mais moderna inaugurada em 2005. A mesma data em que nosso piano foi parar lá. Ele foi comprado de um misterioso restaurador na zona leste, escolhido literalmente a dedo pela arquiteta que trabalhava nas obras e que também sofria de paixonite pianística.  Está no saguão e é de livre uso para todos, mas geralmente são os pacientes que se consultam com o “doutor Kemble”.

O piano é um meia cauda de uma madeira castanha muito bonita, tem o som ótimo e está em plena afinação. É da marca inglesa Kemble, que é relativamente nova, fundada em 1911. Como ele veio parar no Brasil? Mistério.

Curiosidade e mistério, ciência e fé, parece que neste piano tocam a mesma tecla. Sempre fui mais do lado da curiosidade e da ciência do que do mistério e da fé, mas acho que vou ter que viver com os pequenos mistérios que irei encontrar neste blog. Por que todos os hospitais tem piano? Como o piano inglês foi parar no hospital dos padres italianos que vieram para o Brasil? Quem era o restaurador de piano da zona leste? Será que achá-lo irá me deixar mais perto da trajetória do Kemble? Por que a música cura dores que não aparecem em nenhum exame, mas que são tão presentes que até nos fazem sentir sintomas físicos? Por que toda vez que eu faço este blog, eu tenho a sensação que não estou encontrando só pianos, mas a mim mesma?

Só de birra, de não poder responder estas questões, vou espalhar mais um mistério por ai. Cantei a canção Dora do Dorival Caymmi, que entendia os mistérios do mar e os aceitava com a sabedoria de um monge. E não vou contar porque escolhi esta canção…será o meu jeito de retribuir todas as perguntas sem respostas que encontrei com este piano.

Beijos de Monalisa para vocês e até o próximo piano!

Alessa

14/05/2012

video: Agustin N.Oroz

ps1: Este vai em especial a minha mãe e minhas avós pelo dia das Mães.

Ps2: Será que o piano inglês que fica no hospital dos padres italianos no Brasil, veio de jangada e atracou na Bahia do Caymmi??? Nossa…não vou conseguir dormir pensando nesta imagem…

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Piano nº 6 – Você é o seu piano.

foto: Bruno Teixeira Martins
foto: Bruno Teixeira Martins

 

Dedicado aos carregadores de piano.

Quando iniciei este projeto, o primeiro lugar que queria tocar era na estação da Luz. Lá por volta do terceiro, quarto post, flertei com a Luz novamente. Todos meus namoros foram impedidos devido a condição que se encontrava nosso piano. Quebrei o encanto hoje, 1 de maio, dia dos trabalhadores.

O piano fica no meio do saguão principal e está rodeado por colunas e um pé direito incrível. Os arcos em torno são todos trabalhados e a estação é uma das locações mais bonitas de São Paulo. Parece até um portal do tempo que nos leva a uma época em que pegar trem era sinal de riqueza. A estação tem vizinhos tão imponentes quanto, o Museu da Lingua Portuguesa, a Pinacoteca e a Sala São Paulo.

Nosso “entrevistado” é um Fritz Dobbert de armário da cor castanha, que foi parar lá de maneira muito curiosa. Em 2008, o artista plástico inglês Luke Jerram iniciou o projeto “Play me, I`m Yours”. Ele viaja o mundo todo colocando pianos em vários pontos das metrópoles. Uma invasão de pianos, incentivando a interação e a recriação de relações dentro da cidade. Em outubro do ano em que se iniciou o projeto, “Play me, I`m Yours” virou “Toque-me, sou teu”, e em parceria com o SESC, 8 pianos foram esparramados por São Paulo durante 10 dias. Dois deles foram adotados pela CPTM, um é itinerante e o outro fica na estação da Luz.

Até agora este é o piano mais público que eu encontrei. Não tem catraca, nem precisa comprar passagem, nem falar na recepção para tocá-lo.  É só sentar e tocar. Ele tem a impressão digital de todos. Interessante perceber que este piano, o mais público dos pianos, está um lixo. Suas condições são deprimentes e o sentimento mais latente é de dó,

Este blog vai muito além de mapear os pianos da cidade como se fosse um catálogo, comecei a entender isso recentemente. Talvez sua relevância seja muito mais a de contar a história de São Paulo com teclas musicais. Acho que é por isso que as pessoas acabam se apaixonando pelo blog.

A história contada pelo piano da CPTM é de abandono. O centro imponente que se quer contruir, a limpeza de que falam, descarrilha ao se escutar o som do piano público. Você é o seu piano. Esse é o mote deste blog, em todos os posts isso foi coerente. O centro que se quer esconder se revela nas teclas quebradas e desafinadas. O estranho é que toda o resto da estação está conservado. Guardas cuidam do patrimônio da estação mais branca de São Paulo, mas do piano…

Alguns podem endereçar a culpa pelo estado do instrumento ao mau uso das pessoas que passam, que são muitas. Mas isso não explica porque as paredes estão conservadas e o piano não. Afinal este piano é de responsabilidade da CPTM.

Toquei a música Canção do Sal de Milton Nascimento, a execução foi bem difícil e ficou comprometida. Tinham regiões do teclado completamente inoperantes. A acústica da estação deixa o som preso dentro no saguão, acabei incorporando os ruídos, as pessoas falando, na gravação. Atentem para os sons externos quando forem ouvir o video. Dá pra escutar coisas incríveis no som vindo das pessoas, como se toda cidade estivesse alí. Escolhi esta música propositalmente para este 1 de maio. Vou colocar um trecho da letra que para mim fala tudo.

Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir

E ao chegar em casa encontrar a família, sorrir

Filho vir da escola, problema maior é o de estudar

Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar 

Água vira sal lá na salina

Quem diminuiu água do mar?

Para mim, o piano se assemelha ao mar, pesado, misterioso, mutável, líquido, velho, mas sempre em reconstrução, pra onde tudo corre.

Trabalhar com cultura não é fácil, é preciso banca-lá incessantemente até que esta possa mudar relações, re-educar. A palavra cultura também significa hábito. Se um desafortunado vai e estraga o piano, é preciso consertar, e se estragarem de novo, é preciso consertar novamente, de novo e de novo, até isso virar hábito. Para que o piano seja de todos e não mais de ninguém. Isso é acreditar em cultura. Não é só quando o gringo vem pro Brasil com exposição mundial.

Conversei com alguns que se aglomeraram em volta para me ver tocar e nenhum deles acredita que o piano está bom. Não é porque se é pobre que se é surdo, ou não se reconhece realmente o som de um piano minimamente afinado. Eles não estão sendo enganados.

A cultura tem um poder mágico de tirar o melhor das pessoas, ela entra no ser humano sem nenhuma barreira, sem nenhuma distinção de classe ou cor. Elas são arrebatadas por aquele sentimento de encantamento. As pessoas respeitam a cultura porque existe uma troca. Ela entra dentro de você e te muda e você acaba refazendo a história dela.  CPTM, faça por merecer.

Um beijo, até o próximo piano

Alessa

01/05/2012

Video: Agustin N.Oroz e Bruno Teixeira Martins

Ps: Quando gravei este post, o programa Paratodos da TV Brasil fez uma matéria com o blog. Quando for ao ar eu aviso. Eles contactaram a CPTM para falar da situação do piano e esta prometeu que o piano estaria em ordem. O mesmo fez a revista da Folha de São Paulo quando o blog saiu em outra matéria em abril, para a Folha eles falaram que o piano iria ser restaurado e que dia 9/04 ele estaria em ordem. Eu fui lá no dia seguinte e o piano continuava péssimo. CPTM, agora é pessoal.