Piano nº 1 – Estação Sé do metro – "as variáveis do cotidiano"

Fritz Dobbert da Sé

Escolhi o piano da estação Sé pelo motivo óbvio: a Sé é um marco na cidade. Estréia triunfal! Inclusive fui fazer a sessão no dia do aniversário de São Paulo. Me enchi de esperança, expectativa e coragem, escravizei uma amiga pra me ajudar e fomos para o metro. Os deuses estavam comigo!

O piano está no mezanino superior, logo após as catracas, entrando pelo Largo do Anhangabaú. Fica em frente ao lugar que os funcionários do metro chamam de “maracanã”, que é aquele espaço redondo vazado pelos 3 andares da estação. A luz entra pelo teto completando a mística do lugar.

É um modelo de piano vertical da marca Fritz Dobbert nº112, que é uma marca brasileira, o mais simples da linha. Ele faz parte do projeto “Piano no Metrô” da empresa de transporte, existem outros pianos localizados nas estações Santana, Tamanduatei e Largo Treze. É aberto para o público, qualquer um pode chegar e tocar. Quando eu cheguei tinham dois caras tocando músicas evangélicas. Esperei eles terminarem e então dei início ao meu projeto.

Para esta edição preparei algo bem popular condizente com o local. Pra não ter erro, escolhi cantar Roberto Carlos.

Ao tocar descobri que este projeto teria uma natureza muito atípica – mais ainda do que eu tinha previsto. Eu tenho que contar com variáveis que não tenho como controlar. Para uma taurina ferrenha como eu, signo de terra e estabilidade, isso é um exercício muito intenso. Todo o castelinho que eu havia construido na minha imaginação foi devastado pelas variáveis do local. É um grande “se vira nos 30” versão pianística.

O piano estava no limite entre afinação/desafinação, mas executável. De qualquer forma, isso alterou minhas reharmonizações da música, que tão intelectualmente trabalhei em meu quarto.  A acústica também não favorecia. Óbvio, é uma estação de metrô!!! De três em três minutos eu tinha que competir com o som de um trem passando!! Nada é amplificado, o microfone que eu levo é apenas para captação de som. Tive que martelar o piano como se não houvesse amanhã, adeus expressão de toque! As pessoas passando e conversando, parando na frente da camera! Um cara do metro querendo cantar comigo… Um sufoco…

No entanto, ver depois que as pessoas pararam suas pressas para me assistir foi muito, muito gratificante – ou, como eu costumo dizer, de extremo grau de fofurice. Por que o piano está lá? Para criar a sensação de uma arte espontânea, despretenciosa e surpreender as pessoas que passam despercebidas e escutam o som.  Não é nenhuma sala de concerto, obviamente. Tem uma função lúdica e didática importante para um cotidiano cada vez mais ocupado.

Sai de lá com mais perguntas do que respostas sobre como fazer o projeto. Mas incrivelmente animada e feliz.

Acho que todos podemos nos relacionar com essa coisa da timidez, ou do excesso de auto-crítica que nos emperra na vida profissional ou pessoal. Dar a cara para bater é um exercício de desapego, mas o medo nos empaca. Nem sempre, ou melhor, quase nunca as coisas sairão perfeitamente do jeito planejado. Mas fazer o que? Se esconder? Não tenho mais idade para isso e nem mais tempo a perder com este tipo de preocupação.

Portanto que venham os pianos desafinados ou em perfeita afinação. Eu só estou começando.

Beijos, até o próximo piano.

Alessa

16/02/12

PS: Um beijo para o Wlad Mattos que me deu a idéia do Blog, para Silvia Góes que me atura toda semana nas minhas aulas de piano, para Fabiola que foi minha camera girl e para a Thais e a Roberta que super estão acreditando que eu vou dar conta disso tudo!

Dó central.

Olá a todos,

Este é o primeiro post do meu recém-lançado, porém já querido, blog. A meta é a seguinte: a cada 15 dias, um piano novo, um novo lugar para eu conhecer, me apresentar como cantora/pianista e contar para vocês a experiência. Vou falar sobre o lugar, o piano, as músicas e o processo que me encontro. Quantos pianos existem na cidade?! Não faço idéia, mas espero descobrir.

As razões pelas quais começo este projeto são várias, mas acho que a maior delas é o fato de que isso vai me empurrar para o mundo real. Passo a maior parte do meu tempo dentro do meu quarto, estudando/trabalhando, e este projeto irá me jogar no meio da cidade. Funcionará como uma espécie de terapia para sair da concha, o famoso “desovar”.

No Brasil, um piano costuma ser algo inusitado de se achar. Imagino que na Áustria (ou em algum país cujo clima e história remeta a esse instrumento) isso seja recorrente. Mas aqui, no país do violão, quando entramos num lugar e vemos um piano, não conseguimos deixar de notar e falar com surpresa: “Olha! Um piano!!”. Como se estivessemos achado um bilhete premiado.

O que acontece em muitos casos é que este bilhete premiado geralmente está largado, encostado, desafinado e sob uma camada grossa de pó. E, para um piano, que é o senhor dos instrumentos, o sol de toda a música, isso é muito deprê. O instrumento não aguenta tanta humilhação.

O piano é um instrumento pesado de difícil mobilidade, então quando ele está lá, qualquer que seja o lugar, é porque tem uma história por trás. Ou ninguém se daria ao trabalho de carregar mais ou menos 185 kg (um piano pequeno) para colocá-lo naquele local. Qual a razão do piano estar lá? Humm… Essa é uma das coisas que pretendo descobrir.

E a minha própria história com o piano é o que me motiva em direção a esse projeto. Mas ela é muito longa para ser contada aqui. Vou diluí-la nos futuros posts. Mas a ilustração anexada tem uma história muito boa, mas isso é  pra daqui a pouco.

Me desejem sorte.

 Beijos!
ilustração do cartunista francês Jean Jaques Sempé chamada “Catherine Baillol” que se encontra no livro The Musicians