Piano Tão Seu – com Henrique Portugal (Skank)

 
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Eu sei, ando super sumida daqui! Mas não os esqueci, e muito menos nossos pianos queridos. É só a vida que anda meio maluca comigo. De qualquer forma, estamos planejando uma reformulação para nossos posts, então tem novidade vindo por ai!

Enquanto isso, postarei um episódio atípico, mas incrível que aconteceu há um tempinho atrás e revelo agora para inaugurar a nova fase em grande estilo.

Em caráter mais do que extraordinário teremos hoje a participação do querido Henrique Portugal, tecladista do Skank!!!  O encontro se deu por intermédio da agência Ampfy, antenada nas redes sociais. Henrique além de fã do blog, nos contou como achou o piano dele. Quem já comprou um piano, ou está em processo de compra, sabe o quanto ele pode ser demorado. São muitas visitas a casas de afinadores e restauradores para achar a tampa da sua panela musical. E quando você bate o olho no cara, como mágica, o piano parece ter esperado por você a vida toda.

Dentre os incontáveis hits do Skank, escolhemos uma das minhas preferidas “Tão Seu”, mas em um arranjo novo que o Henrique, que tocou teclado, sugeriu. O resultado ficou muito legal e a música ficou com outra cara. Conversamos sobre todos os temas que envolviam o mundo das teclas, e descobri que ele, como eu, também é fã absoluto do Stevie Wonder…já dei uma dica da outra música que tocamos, que eu vou postar mais pra frente hein…

A história do piano do Henrique comprova uma das teorias do blog que cada piano leva consigo todos os seus donos anteriores. Quem toca e tem carinho pelo seu instrumento sabe disso.

Pra mim, que estou começando nessa vida artística, é uma honra tocar com o Henrique, além de sua super carreira, teve a simpatia e a generosidade de compartilhar comigo histórias de pianos e música. Henrique, meu muito obrigada!

Um beijo, até o próximo piano !

Ps: Um beijo imenso para o Gabriel Borges e a galera da Ampfy que tornou esse encontro possível. E outro para a Oca Casa de Som, Conrado Goys e Rodrigo Funai, um abraço!

Ps2: Bloguinho é materia da revista da Livraria Cultura este mês! Corre lá pra ver!

Piano nº 14 – Piano Preto, você é feito de aço.

o Yamaha diskclavier preto de 3/4 de cauda da Lexus

São Paulo é dos carros, do trânsito, da mobilidade, do acesso contínuo. Estes parâmetros parecem distantes do mundo das teclas. O piano é lento, demora-se pra transportar, atrapalha o trânsito, não tem mobilidade nenhuma e é uma instrumento que requer tempo e dedicação para se aprender. Quem tem tempo hoje em dia!?

Mas o piano é elegância por definição e isso agrada o paulistano. Ele é estressado, mas não sai do salto. Há um tempo, São Paulo se transformou em roteiro para o mercado de luxo, o dinheiro aqui corre pela Berrini e estaciona na Av. Nações Unidas nº17.271, a primeira concessionária da Lexus no Brasil. Lá está nosso piano, um Yamaha preto, disklavier DGB1KE3.

Os disklaviers foram introduzidos pela marca em 1986, são pianos acústicos, mas com uma interface digital que possibilita gravar a música tocada e reproduzi-la sem que você precise toca-la novamente. Quando chegamos no salão amplo da concessionária, o piano estava tocando sozinho, um tanto inusitado. Muitos podem achar que a existência do próprio piano na loja de carros ainda mais estranho, mas pianos e carros podem ser um grande negócio.

A Lexus é a marca de luxo da multinacional japonesa Toyota, seu modelo em exposição, o LF-A, custa 2 milhões de reais. Mais do que exclusivo, só foram fabricados 500 unidades, que hoje estão espalhadas pelo mundo. O modelo estava em exibição neste último salão do automóvel no Anhembi para deleite dos apaixonados por carro. Para atrair os clientes de luxo, a concessionária construiu sua loja pensando em uma galeria de arte, pé direito alto, café gourmet, champagne e obviamente, um piano de cauda.

A estadia do piano na Lexus se deve a uma parceria com a empresa de instrumentos Yamaha, que fornece o instrumento na esperança de que um comprador de carro mais animado inclua o piano no negócio. Já entraram no pacote e mandaram embrulhar 3 pianos na concessionária.

O dinheiro se confunde entre engrenagens e teclas. A Yamaha, também originária do Japão, está no Brasil desde 1973. Ela foi fundada em 1887, quando fabricou seu primeiro órgão feito de bambu, e hoje  a marca completa 125 anos de história e é a maior produtora de pianos do mundo – desde 1900, ela vendeu 6,15 milhões de pianos. Após a Segunda Guerra Mundial, o presidente da fábrica, Tomiko Ganichi Kawakami, aproveitou sua experiência em metalurgia e começou a fabricar motocicletas. Os motoqueiros que circulam com suas motos pelas avenidas da cidade aposto que não repararam que o logo de suas Yamahas são três diapasões, aqueles garfinhos de afinação, entrelaçados.

Em 2007, a marca comprou uma parte minoritária da marca de pianos inglesa, Kemble (já comentada no post nº 7) e adquiriu ações da icônica marca austríaca Bösendorfer (vide post World Pianos nº 1), ganhando a disputa da americana Gibson que também estava de olho no negócio. Para que a transação fosse aceita, a Bösendorfer exigiu que sua fábrica se mantivesse na Áustria, piano lá é identidade nacional.

O negócio entre pianos e carros não é uma exclusividade japonesa. A Bösendorfer por sua vez, em 2009 anunciou uma parceria com alemã Audi para celebrar o centenário da marca de carros. Foram confeccionados, sob encomenda, pianos bösendorfer com design Audi. O desenho da tampa do piano é arrojado e se assemelha as portas de carro. Os pés do piano, assim como o pedal e o banco, feitos de metal cromado. A parte de madeira que acomoda o teclado, ficou mais fina para dar mais espaço às pernas do pianista. O presidente do grupo Audi em entrevista na época comentou que as dificuldades para a criação do desenho final estimularam a criatividade da equipe, eles tiveram que estudar o instrumento a fundo e que o projeto foi uma ferramenta muito importante que beneficiará os designers no futuro, na própria criação de carros. Carros-pianos?!?!?! Seria bom, com o trânsito de São Paulo, dá pra virar Mozart!

piano Bösendorfer com design da Audi.

 

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Na Rússia, a seguradora de carros In Touch criou a campanha Car vs. Piano. Com a idéia de que acidentes com carro podem acontecer em qualquer lugar, a empresa colocou um piano de 350 kg preso por 9 cabos de aço, em cima de um carro em um estacionamento. A campanha/instalação era filmada 24h horas e todos podiam acompanhar o destino do carro via twitter/facebook. Os cabos eram cortados por eventos aleatórios do tipo: se o time de futebol Barcelona ganhar, corta-se um cabo…tudo visto e comentádo na web. O hashtag #carvspiano em um ponto ficou como o segundo maior trending topic do país e o números de visitas ultrapassou em 200% o esperado pela agência. A campanha foi sucesso mundial.

Diante deste cenário tão inusitado de carro, piano e cidade, achei muito apropriado tocar algo que fizesse sentido. Escolhi o clássico sertanejo de Atílio Versutti e Jeca Mineiro, Fuscão Preto! A letra é tão absurda e dramática que adaptei a canção para um arranjo bolero/jazz. Não é sempre que encontramos os versos “Fuscão Preto/ você é feito de aço / fez meu amor em pedaço / também aprendeu matar”.

O piano não está com a afinação completamente correta, as grandes janelas de vidro e o sol que bate na concessionária com certeza foram responsáveis pela instabilidade das notas, mas o piano tem uma ressonância boa, o salão amplo cria um reverb natural interessante.

Fuscão Preto virou sucesso nacional na voz de Almir Rogério em 1982 e foi baseado numa história verídica de traição, segundo o próprio Almir em entrevista para o site da casa noturna Trash 80`s. Um amigo pintor de Jeca Mineiro e Atílio viu a esposa de um conhecido chegar em um fuscão preto altamente suspeito. A canção foi regravada em italiano ganhando o nome de “Fiat Negro” e em inglês, “Black Mustang”.

Um ano depois, aproveitando a popularidade da canção, Jeremias Moreira Filho dirigiu um filme com o mesmo nome, baseado na letra da música, com o cantor e a então no começo de carreira, eterna rainha dos baixinhos, Xuxa Meneghel. O filme é um clássico trash do cinema brasileiro e conta a história de Diana (Xuxa Meneghel), filha de um fazendeiro, que se envolve em um triângulo amoroso. Ela, de casamento marcado com Marcelo (Dênis Derkian), filho do prefeito da cidade, se apaixona por Lima (Almir Rogério), um cowboy forasteiro. O prefeito tenta persuadir o fazendeiro Lucena (Dionísio Azevedo), pai de Diana, a substituir sua criação de cavalos por uma plantação de cana de açucar. No meio disso tudo, aparece o Fuscão Preto, uma espécie de “Herbie, se meu Fusca Falasse” misturado com Darth Vader e atrapalha os planos de todos, roubando o coração de Diana. Mesmo com o enredo absurdo, o filme discute discretamente a substituição do Brasil rural pelo urbano, do cavalo pelo carro e o “progresso” brasileiro industrial da década de 80. Com cenas impagáveis, Fuscão Preto se tornou um ícone do brega nacional.

cartaz do filme

 

Carros importados, multinacionais japonesas, seguradoras de veículos, fuscas, Xuxa, música sertaneja, filmes bregas nacionais, substituição do rural pelo urbano, trânsito, mais carros e por fim um piano. Ufa! Será que é possível costurar tudo isso com corda de piano!? Parece que sim. A cidade continua aberta, à espera de suas interconexões, dentro do piano cabe tudo até um fusca.

Um beijo até o próximo piano,

Alessa

Vídeo: Agustin N.Oroz.

Ps: Obrigada a todos da Lexus, principalmente ao Mayco Chacon pela gentileza e um beijo grande para Tatiana Petit que achou este piano incrível e me mandou a dica!

Piano nº13 – Piano Bibi

 

o Yamaha de 3/4 de cauda do Teatro Décio Almeida Prado

Como artista independente na cidade de São Paulo, faz parte da minha rotina diária caçar não apenas pianos, mas lugares para me apresentar. Aliás, o blog surgiu como uma alternativa para esta carência. Não só tenho me apresentado mais desde que ele começou em fevereiro, mas como tenho (re)descoberto espaços possíveis para outros pianistas por ai. Descobri que não sou a única nesta busca, várias pessoas acessam o blog para me contar de suas peregrinações.

O teatro Décio Almeida Prado, onde está nosso piano de hoje, me foi indicado por um amigo, artista independente, o muito querido Márcio Lugó. Ele fez seu cd sozinho, compôs, tocou, gravou, e produz sua carreira, toca o rumo de seu barco como bem quer. Ser artista independente não é fácil, mas é uma forma possível, digna e cada vez mais apoiada nos novos meios de comunicação, como as redes sociais, e, inclusive… um blog.

Quando cheguei ao teatro, que é administrado pela prefeitura, fiquei bem surpresa. O espaço cai como uma luva para artistas independentes. Não é um teatro grande, é o tipo de espaço em que o artista ainda consegue olhar no olho de sua plateia. É muito bem equipado e foi reformado recentemente, endi sido reinaugurado em julho do ano passado. O piano do teatro é um Yamaha de ¾ de cauda, modelo C-5, 335 kg. Ele é lindo! Talvez tenha sido o piano mais preciso que toquei desde que começei minha caçada. Ele foi arrematado em um pregão, em 2007, e ainda tem som de novo. Estava muito bem afinado em minha visita e como é um piano adolescente está louco para mostrar serviço. A resposta do pedal é muito boa e o peso é ideal, nem muito leve, nem muito pesado. Com o tempo e gente tocando mais nele seu som irá abrir, vale a pena acompanhar o som deste piano ao longo dos anos.  A acústica do teatro também favorece: como não se trata de um salão amplo, o reverb fica na medida para sons intimistas, que muito me agradam.

Toquei um jazz que eu gosto muito, chama-se Bewitched, Bothered and Bewildered da dupla Rodgers and Hart. Com uma parceria a lá João Bosco/ Aldir Blanc, misturando melodia bem acabadas e humor, Richard Rodgers, compositor, e Lorenz Hart, letrista, fizeram musicais da broadway dos anos 30 aos 50. São os autores de músicas imortalizadas nas vozes de Ella, Sinatra e Holiday, como Blue Moon, My Funny Valentine, The Lady is a Tramp, Falling in Love with You. Bewitched foi feita para o musical Pal Joey, em 1940, e é tema da personagem Vera Simpson, uma socialite rica e entediada que se apaixona por Joey, um mulherengo que se aproveita do dinheiro da madame para realizar seu sonho, de ter um teatro. Mas o dele é mais um teatro cabaret, com mulheres semi-nuas. A produção de 1940 estreiou com Gene Kelly no papel de Joey e Vivianne Segal como Vera e em 1957 Hollywood fez sua versão com Sinatra e Rita Hayworth.

 

cartaz da produção de Pal Joey de 1940

Richard Rodgers no piano e Lorenz Hart, letrista, ao lado.

 

 

Já o nosso fica no bairro Itaim Bibi, que até 2001 pertencia à zona sul de São Paulo (e hoje em dia é considerado zona oeste). A região era toda alagada e servia para a pesca, a caça e outras atividades recreativas até que, em 1896, ela foi arrematada pelo general José Vieira de Couto Magalhães, que foi presidente do Estado de São Paulo. O general teve um filho com uma índia e a região começou a ser chamada Chácara de Itahy que em tupi significa “pedra pequena”. O filho acabou vendendo a propriedade em 1907 para o tio, o médico Leopoldo Couto Magalhães. Ele era conhecido como o “seu Bibi”, bibi (bebê) era como as escravas que cuidaram dele o chamavam. A rua Renato Paes de Barros antes se chamava Rua Bibi, em sua homenagem. João Cachoeira era um agregado da família que também virou nome de rua. A sede da chácara ficava no início da atual rua Iguatemi e, mesmo tombada pelo patrimônio, ela foi destruída pelos seus atuais proprietários.

Um dos filhos de Bibi, Arnaldo Couto de Magalhães loteou as terras e vendeu os terrenos na década de 20 para pequenos agricultores italianos que plantavam verduras e legumes e já não cabiam mais na Bela Vista ou no Bixiga. Os terrenos mais próximos do rio Pinheiros, foram sendo ocupados por atividades ligadas a olarias e forneciam tijolos e telhas para as construções. Esta área mais industrial acabou levando o nome de Itaim Paulista e as àreas menos alagadas e mais perto da casa grande da chácara foram chamadas Itaim Bibi. Hoje o bairro abriga muitas multinacionais como a Morgan Stanley, Internet Group e a Cyrela. Os restaurantes e bares proliferam a cada dia, mas teatros ainda não são muitos.

O espaço leva o nome do ensaísta, crítico de teatro e professor Décio Almeida Prado. Ele foi um dos mais influentes críticos teatrais em São Paulo nas décadas de 40 até 60. Foi professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Foi professor de história do teatro na Escola de Arte Dramática – EAD junto com Cacilda Becker, que hoje dá nome a outro teatro administrado pela prefeitura, nos mesmos moldes do espaço no Itaim Bibi. Com ela, Décio fundou o GUT – Grupo Universitário de Teatro que era ligado à USP. Escreveu sobre o tema na revista Clima de 1941 a 1944 e depois foi responsável pela elaboração de um suplemento literário no jornal O Estado de São Paulo a partir de 1956. Suas pesquisas e artigos tinham como objetivo situar o teatro na cultura do país.

Décio de Almeida Prado na juventude.

Foi responsável pelo amadurecimento da crítica cultural no Brasil – não só apenas o teatro brasileiro estava crescendo e se desenvolvendo, mas o pensamento sobre ele também. O crítico é um especialista em ser platéia, em acompanhar de perto as produções culturais e seus diálogos com outras produções ou com outros aspectos do cotidiano. Para poder criticar é preciso saber traduzir obra e mundo, onde estão estes pontos de intersecção.

Enquanto estive na minha visita ao Décio Almeida Prado, conheci o Daniel Ribeiro, que é responsável pela iluminação do local. A história dele com a prática teatral é antiga. Quando ele tinha 15 anos, ia todos os dias em uma biblioteca em Santo Amaro e via o grupo de teatro que fazia parte da Secretaria de Cultura ensaiar no auditório. Ficava lá “de butuca” até que o diretor o convidou para fazer um teste. Se apresentaram em várias atividades festivas organizadas pela prefeitura. Ele resolveu prestar concurso e passou a fazer parte do quadro de funcionários, e hoje é produtor cultural da Galeria Olido. Mas faz um pouco de tudo, como todo bom artista independente, é iluminador, cenógrafo e ator. Trabalhou com musical, teatro de marionetes, e de mascaras, fez dois filmes, nos quais trabalhou com os atores Paulo Autran e Giulia Gam. Daniel também não é daqui, veio lá de Minas Gerais, com seus 15 irmãos numa kombi velha, jogar a moeda da sorte sobre a capital. Tinha 9 anos de idade.

Todos somos artistas de uma forma ou de outra, alguns resolvem exercer a habilidade outros não. Mas traduzimos e entendemos o mundo desta forma. Os espaços para estas traduções são diversos e inusitados. A tela do computador hoje em dia é também um destes espaços. É aqui, que eu tento, assim como você, desempenhar o meu papel, neste palco, nesta cidade.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Bruno Teixeira Martins

Ps: Um grande beijo para o Márcio Lugó que me indicou o piano e para a Nathália Gabriel e a equipe do teatro pela gentileza e disponibilidade.