Piano nº 6 – Você é o seu piano.

foto: Bruno Teixeira Martins
foto: Bruno Teixeira Martins

 

Dedicado aos carregadores de piano.

Quando iniciei este projeto, o primeiro lugar que queria tocar era na estação da Luz. Lá por volta do terceiro, quarto post, flertei com a Luz novamente. Todos meus namoros foram impedidos devido a condição que se encontrava nosso piano. Quebrei o encanto hoje, 1 de maio, dia dos trabalhadores.

O piano fica no meio do saguão principal e está rodeado por colunas e um pé direito incrível. Os arcos em torno são todos trabalhados e a estação é uma das locações mais bonitas de São Paulo. Parece até um portal do tempo que nos leva a uma época em que pegar trem era sinal de riqueza. A estação tem vizinhos tão imponentes quanto, o Museu da Lingua Portuguesa, a Pinacoteca e a Sala São Paulo.

Nosso “entrevistado” é um Fritz Dobbert de armário da cor castanha, que foi parar lá de maneira muito curiosa. Em 2008, o artista plástico inglês Luke Jerram iniciou o projeto “Play me, I`m Yours”. Ele viaja o mundo todo colocando pianos em vários pontos das metrópoles. Uma invasão de pianos, incentivando a interação e a recriação de relações dentro da cidade. Em outubro do ano em que se iniciou o projeto, “Play me, I`m Yours” virou “Toque-me, sou teu”, e em parceria com o SESC, 8 pianos foram esparramados por São Paulo durante 10 dias. Dois deles foram adotados pela CPTM, um é itinerante e o outro fica na estação da Luz.

Até agora este é o piano mais público que eu encontrei. Não tem catraca, nem precisa comprar passagem, nem falar na recepção para tocá-lo.  É só sentar e tocar. Ele tem a impressão digital de todos. Interessante perceber que este piano, o mais público dos pianos, está um lixo. Suas condições são deprimentes e o sentimento mais latente é de dó,

Este blog vai muito além de mapear os pianos da cidade como se fosse um catálogo, comecei a entender isso recentemente. Talvez sua relevância seja muito mais a de contar a história de São Paulo com teclas musicais. Acho que é por isso que as pessoas acabam se apaixonando pelo blog.

A história contada pelo piano da CPTM é de abandono. O centro imponente que se quer contruir, a limpeza de que falam, descarrilha ao se escutar o som do piano público. Você é o seu piano. Esse é o mote deste blog, em todos os posts isso foi coerente. O centro que se quer esconder se revela nas teclas quebradas e desafinadas. O estranho é que toda o resto da estação está conservado. Guardas cuidam do patrimônio da estação mais branca de São Paulo, mas do piano…

Alguns podem endereçar a culpa pelo estado do instrumento ao mau uso das pessoas que passam, que são muitas. Mas isso não explica porque as paredes estão conservadas e o piano não. Afinal este piano é de responsabilidade da CPTM.

Toquei a música Canção do Sal de Milton Nascimento, a execução foi bem difícil e ficou comprometida. Tinham regiões do teclado completamente inoperantes. A acústica da estação deixa o som preso dentro no saguão, acabei incorporando os ruídos, as pessoas falando, na gravação. Atentem para os sons externos quando forem ouvir o video. Dá pra escutar coisas incríveis no som vindo das pessoas, como se toda cidade estivesse alí. Escolhi esta música propositalmente para este 1 de maio. Vou colocar um trecho da letra que para mim fala tudo.

Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir

E ao chegar em casa encontrar a família, sorrir

Filho vir da escola, problema maior é o de estudar

Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar 

Água vira sal lá na salina

Quem diminuiu água do mar?

Para mim, o piano se assemelha ao mar, pesado, misterioso, mutável, líquido, velho, mas sempre em reconstrução, pra onde tudo corre.

Trabalhar com cultura não é fácil, é preciso banca-lá incessantemente até que esta possa mudar relações, re-educar. A palavra cultura também significa hábito. Se um desafortunado vai e estraga o piano, é preciso consertar, e se estragarem de novo, é preciso consertar novamente, de novo e de novo, até isso virar hábito. Para que o piano seja de todos e não mais de ninguém. Isso é acreditar em cultura. Não é só quando o gringo vem pro Brasil com exposição mundial.

Conversei com alguns que se aglomeraram em volta para me ver tocar e nenhum deles acredita que o piano está bom. Não é porque se é pobre que se é surdo, ou não se reconhece realmente o som de um piano minimamente afinado. Eles não estão sendo enganados.

A cultura tem um poder mágico de tirar o melhor das pessoas, ela entra no ser humano sem nenhuma barreira, sem nenhuma distinção de classe ou cor. Elas são arrebatadas por aquele sentimento de encantamento. As pessoas respeitam a cultura porque existe uma troca. Ela entra dentro de você e te muda e você acaba refazendo a história dela.  CPTM, faça por merecer.

Um beijo, até o próximo piano

Alessa

01/05/2012

Video: Agustin N.Oroz e Bruno Teixeira Martins

Ps: Quando gravei este post, o programa Paratodos da TV Brasil fez uma matéria com o blog. Quando for ao ar eu aviso. Eles contactaram a CPTM para falar da situação do piano e esta prometeu que o piano estaria em ordem. O mesmo fez a revista da Folha de São Paulo quando o blog saiu em outra matéria em abril, para a Folha eles falaram que o piano iria ser restaurado e que dia 9/04 ele estaria em ordem. Eu fui lá no dia seguinte e o piano continuava péssimo. CPTM, agora é pessoal.

Piano nº 1 – Estação Sé do metro – "as variáveis do cotidiano"

Fritz Dobbert da Sé

Escolhi o piano da estação Sé pelo motivo óbvio: a Sé é um marco na cidade. Estréia triunfal! Inclusive fui fazer a sessão no dia do aniversário de São Paulo. Me enchi de esperança, expectativa e coragem, escravizei uma amiga pra me ajudar e fomos para o metro. Os deuses estavam comigo!

O piano está no mezanino superior, logo após as catracas, entrando pelo Largo do Anhangabaú. Fica em frente ao lugar que os funcionários do metro chamam de “maracanã”, que é aquele espaço redondo vazado pelos 3 andares da estação. A luz entra pelo teto completando a mística do lugar.

É um modelo de piano vertical da marca Fritz Dobbert nº112, que é uma marca brasileira, o mais simples da linha. Ele faz parte do projeto “Piano no Metrô” da empresa de transporte, existem outros pianos localizados nas estações Santana, Tamanduatei e Largo Treze. É aberto para o público, qualquer um pode chegar e tocar. Quando eu cheguei tinham dois caras tocando músicas evangélicas. Esperei eles terminarem e então dei início ao meu projeto.

Para esta edição preparei algo bem popular condizente com o local. Pra não ter erro, escolhi cantar Roberto Carlos.

Ao tocar descobri que este projeto teria uma natureza muito atípica – mais ainda do que eu tinha previsto. Eu tenho que contar com variáveis que não tenho como controlar. Para uma taurina ferrenha como eu, signo de terra e estabilidade, isso é um exercício muito intenso. Todo o castelinho que eu havia construido na minha imaginação foi devastado pelas variáveis do local. É um grande “se vira nos 30” versão pianística.

O piano estava no limite entre afinação/desafinação, mas executável. De qualquer forma, isso alterou minhas reharmonizações da música, que tão intelectualmente trabalhei em meu quarto.  A acústica também não favorecia. Óbvio, é uma estação de metrô!!! De três em três minutos eu tinha que competir com o som de um trem passando!! Nada é amplificado, o microfone que eu levo é apenas para captação de som. Tive que martelar o piano como se não houvesse amanhã, adeus expressão de toque! As pessoas passando e conversando, parando na frente da camera! Um cara do metro querendo cantar comigo… Um sufoco…

No entanto, ver depois que as pessoas pararam suas pressas para me assistir foi muito, muito gratificante – ou, como eu costumo dizer, de extremo grau de fofurice. Por que o piano está lá? Para criar a sensação de uma arte espontânea, despretenciosa e surpreender as pessoas que passam despercebidas e escutam o som.  Não é nenhuma sala de concerto, obviamente. Tem uma função lúdica e didática importante para um cotidiano cada vez mais ocupado.

Sai de lá com mais perguntas do que respostas sobre como fazer o projeto. Mas incrivelmente animada e feliz.

Acho que todos podemos nos relacionar com essa coisa da timidez, ou do excesso de auto-crítica que nos emperra na vida profissional ou pessoal. Dar a cara para bater é um exercício de desapego, mas o medo nos empaca. Nem sempre, ou melhor, quase nunca as coisas sairão perfeitamente do jeito planejado. Mas fazer o que? Se esconder? Não tenho mais idade para isso e nem mais tempo a perder com este tipo de preocupação.

Portanto que venham os pianos desafinados ou em perfeita afinação. Eu só estou começando.

Beijos, até o próximo piano.

Alessa

16/02/12

PS: Um beijo para o Wlad Mattos que me deu a idéia do Blog, para Silvia Góes que me atura toda semana nas minhas aulas de piano, para Fabiola que foi minha camera girl e para a Thais e a Roberta que super estão acreditando que eu vou dar conta disso tudo!