Blog nº 9 – O Som da Oficina.

O Steinway & Sons do Walter Mancini

 

Em memória de Giovanni Sebastiano Aronne 

Quando entrei na faculdade de música, muita coisa era nova pra mim. Vinha do jornalismo, com pouca experiência prática. Lá, como em todas as faculdades, existiam tribos de músicos. Se você era cantor (e eu apenas cantava na época, o piano veio depois), teu universo era Caetano, Chico, Tom, ou seja, canção em geral. Mas se você era do jazz, guitarristas, pianistas e baixistas, teu mundo era outro. Coltrane, Parker, Evans… esses eram seus totens. Graças ao tempo e à maturidade, descobrimos todos, instrumentistas ou não, que os dois mundos são igualmente maravilhosos e inspiradores, não importando o instrumento que você toca.

Mas naquela época lembro que meus amigos do jazz, uma panela bem difícil de conversar, impossível de entrar, tinham um ritual de passagem para o mundo adulto musical. O ritual era tocar no Mancini. Mal sabia eu, que depois de alguns anos, eu teria um blog e estaria no mesmo lugar cantando canções. Enfim, canção e jazz juntos.

Tocar no Mancini não é tarefa fácil. Primeiro você tem que saber qual dos restaurantes do Mancini estamos falando. Na rua Avanhandava, onde todos se localizam, são 8 estabelecimentos comerciais. Mas o lugar em questão fica no número 126, Ristorante Walter Mancini, o próprio nome do homem.

A rua é pequena em extensão, mas imensa em charme. Lá não tem asfalto e sim um ladrilho antigo típico de cidade de interior, os bares colocam suas mesas na calçada, que é cheia de vasos de plantas e árvores. Em cima, de uma ponta a outra, correm luzinhas coloridas que, junto com a fonte colocada na entrada da rua, coroam de cor o entardecer. Tudo isso escondidinho no começo do centro, tendo como vizinhos também ilustres o Copan, o Hotel Braston, que já esteve no blog, assim como o querido Terraço Itália.

foto: Rachel Mancini

Na Avanhandava vemos a mistura fina da tradição com o moderno, com a sofisticação, um centro contaminado, no melhor dos sentidos, com o que a rua Augusta tem de melhor, que é sua irreverência.

Tenho a teoria de que o piano é a imagem e semelhança de seu dono, Aqui acertei em cheio. Walter Mancini é igual a seu Steinway.  Antes de tocar no instrumento conversei com ele, o que foi muito divetido, pois ele é uma fábrica de idéias sem pausa para almoço. Até idéia para o blog, uma segunda temporada, ele me deu, mas esta não vou revelar tão cedo. Contou histórias malucas e encantadoras, como a de um piano August Förster que ficava em um circo e fazia o elefante dançar e que foi arrematado por ele e hoje está em um de seus restaurantes. Ele morou na Avanhandava em 1968, mas voltou no dia 10 de maio de 1980 para inaugurar seu primeiro restaurante o Famiglia Mancini. Depois deste dia não parou mais, teve papel fundamental na revitalização da rua junto com moradores e prefeitura. Depois de vários negócios já consolidados, ele ainda fala empolgado das coisas que estão por vir, coisas ainda a se fazer na rua. É visivelmente apaixonado pelo o que faz.

Walter na década de 80.

Depois de nossa conversa, fui me apresentar ao meu convidado ilustre, Sr. Steinway & Sons. Walter me contou que queria especificamente esta marca de piano, pois os artistas internacionais e nacionais de grande porte gostam de se apresentar em pianos de alto padrão e que o restaurante dele não ficaria fora deste circuito musical.  O Walter Mancini tem música todos os dias, 23 músicos contratados se revezam, tocando de jazz a bossa nova, ou até Beatles, como tocou o pianista que estava de plantão na hora em que fizemos a visita. Música é premissa do restaurante, é ideologia desde o começo, desde o momento da compra do instrumento. Pensamento no longo prazo.

Toquei o standard de jazz Time After Time de Sammy Cahn e Jule Styne de 1947. A música foi muito regravada, duas versões que gosto muito são a da Ella Fitzgerald, de 1966, e a do Chet Baker, de 1954. O piano está afinado, seu som é bem aberto, mesmo de tampa fechada, em cima do piano ficam vários instrumentos e um teclado. Mas ele fala bem alto, o grave então…Tinha tocado em um outro Steinway na minha faculdade antes, pude reparar que em ambos as frequências médio agudas são bem bonitas, a definição do som é muito clara, não dá aquela sensação embolada no som. As teclas não são muito pesadas, mas também não são moles demais. Foi bem diferente tocar em um piano que é usado todo dia, em comparação a pianos que ficam esquecidos. A reverberação do som na madeira do piano dá um outro timbre, ainda mais em um piano que é usado toda hora. Por isso o piano fica com um som grande e aberto, mesmo sendo de 1918. Pianos não tocados ficam com o som mais opaco, confinado dentro da caixa de madeira.

O Steinway do Walter veio de Nova York e antes de parar nas mãos dele, que até arranha umas notas no instrumento, foi restaurado pelo sr. Giovanni Sebastiano Aronne. Nascido na Itália em 1937, ele veio para cá com 16 anos e começou a trabalhar como marceneiro na fábrica de pianos Pianofatura Paulista, inaugurada em 1950. Ela ficava no bairro do Canindé, na Zona Leste. Lá aprendeu as técnicas necessárias para reforma e afinação do instrumento. Em 1961, Aronne abriu sua própria oficina e 9 anos depois a pequena oficina se transformou na Aronne Pianos Ltda. Ele se especializou no manejo de pianos de alto padrão e criou nome pelo Brasil todo. Entre seus clientes estão a TV Cultura, o Teatro Municipal, Teatro Cultura Artística e a Sala São Paulo. Em todos os lugares citados, existem pianos alto padrão, quase todos deles da marca Steinways & Sons.

Giovanni Aronne afinando.

Giovanni Aronne em sua oficina.

Existe uma outra história paralela à dos pianos de São Paulo contada neste blog que é a das pessoas por trás destes pianos, não só os pianistas ou donos de restaurantes, mas dos responsáveis por aquilo existir enquanto instrumento, e não apenas madeira, aço e marfim. As histórias dentro das fábricas, a música das máquinas. Como é que estes artesões fazem com que os sons de cerrote, solda de aço, corda quebrada e madeira envergada que ecoam no espaço aberto de seus armazéns se transformem em notas e consequentemente na minha música. Esta história se escreve com a dedicação de uma família a um ofício, da cultura de se fazer um instrumento transmitido de geração em geração.

Aconteceu com os Steinweg, alemães imigrantes dos EUA que depois de se anglicanizar tornaram-se Steinway e durante anos de pai para filho se tornaram Steinways & Sons, fabricando o pianos mais cobiçado do mundo.

Aconteceu com os Aronne aqui em São Paulo, depois da morte de sr. Giovanni em 2009, Marcelo, Angela e Armando, com quem conversei e me contou toda a história, assumiram os negócios da família e continuam como referência em pianos alto padrão no Brasil.

Pianos são incríveis, várias cordas esticadas e transpassadas, sendo que a cada três delas formam uma tecla. Nesta ponta, Eu. Do outro lado, segurando uma placa de ferro, muitos martelinhos, dentro de um casco enorme de madeira, os Aronne, os Steinways, os Mancinis, o August Förster e seu elefante dançarino, a Avanhandava toda e São Paulo e seus sei lá quanto milhões de habitantes. Todos escutando a trilha sonora desta busca maluca.

Um beijo e até o próximo piano!

Alessa

18/06/2012

Video: Agustin N. Oroz

Foto: Rachel Mancini e divulgação do grupo Mancini / Aronne Pianos.

Ps: A Steinway & Sons tem um história fantástica que não coube aqui em mais detalhes. Vou ter que achar outro piano da marca para contá-la, prometo que acho.

Piano nº 5 – A Careca do Drummond.

foto: Acauã Ribeiro
foto: Acauã Ribeiro

Um dos endereços mais badalados da cidade é a rua Augusta. Ela começa lá no Jardim América, onde tem o nome de rua Colômbia, passa exibida em meio às lojas de carros importados, pega um fôlego enorme para subir e cruzar apressada a Paulista e se deixa levar numa descida quase hopihariana até o baixo centro. Lá, ela se divide em rua Martins Fontes e rua Martinho Prado.  Nosso piano se encontra no hotel Braston, na Martins Fontes, 330 – que, até 1942, fazia parte também da rua Augusta.

Nascida em 1875, a rua Augusta foi batizada com o nome de Maria Augusta, até se emancipar com 22 anos renomeando-se apenas Augusta, para os íntimos. Augusta, porque o responsável pela abertura da rua, o português Mariano Antonio Vieira, queria batizá-la, não com o nome de alguém, mas com um um adjetivo nobre. Na região do baixo Augusta, ficam também os antológicos cartões postais como o hotel Hilton, a rua Avanhandava e a praça Roosevelt.

Mais recentemente, leia-se de 1950 para os dias atuais, entraram na foto do cartão postal da rua Augusta, os clubes de strip tease, botecos dos hypes aos fuleros, cinemas cults e restaurantes dos mais variados. E esta região vista como velha e decadente foi “revitalizada” por um movimento de jovens ligados em moda, música e comportamento que frequentam estes “spots”.

Sendo assim, antes de chegarmos ao nosso destino final, o tradicional hotel Braston, passamos por tribos de hypes, hipsters, cools, cults, modernos, descolados, rockers, hackers, clubbers, it-girls, hosts, trendies e fashionistas de plantão.

No bar do lobby do hotel está o piano alemão Ibach, cor preta, de 1/2 de cauda. Com sede em Düsseldorf na Alemanha, a família Ibach vem produzindo pianos há seis gerações.  Entre os notáveis que gostavam da marca estavam Richard Wagner, Franz Liszt e Johannes Brahms. Em minhas pesquisas pelos fóruns de piano, descobri que este é um piano raro, sua produção não é tão numerosa, e sua qualidade chega a impressionar, um pequeno notável do mundo dos fabricantes de piano.

foto: Tatêwaki Niô
foto: Tatêwaki Niô

O piano do Braston deve ter vindo parar no Brasil entre 1873 e 1940, período em que a marca começou a exportar pianos para a América, como conta seu site oficial. Ele está afinado, as teclas são leves e tem um som muito bonito. Fiquei bastante surpresa, pois na minha conversa com o gerente do hotel, descobri que ele está sem ser tocado há algum tempo, mesmo que qualquer pessoa possa se apresentar no lobby e se aventurar em suas teclas.

A história em particular do nosso piano é misteriosa, sabemos apenas que ele foi herdado do hotel Hilton, que era também o antigo dono do hotel Braston.  Durante a transação hoteleira o Ibach veio junto de brinde. Que sorte! Mas fico também pensando se não foi por preguiça do Hilton em mover o piano…

Em meio a esta coexistência de coisas na rua Augusta, achei legal tocar uma música pop, para provocar este ambiente tão deliciosamente tradicional. Toquei a música Overjoyed do Stevie Wonder, artista que tenho verdadeira adoração. Escolhi também a música pop porque estreio esta semana, dia 21, meu show ALE SODA POP, no bar Kabul, do lado “descolado” da Augusta. Neste show tocarei teclado, hammond, rodhes e clavinet em arranjos novos para músicas pop. Uma espécie de gêmea da pá virada deste projeto. Fica o convite para a expansão do mundo das teclas para universos digitais e eletrônicos.

Voltemos ao baixo Augusta. Acho que a curiosidade e mística do local seja mesmo este amontoado de tempos, classes sociais, jeitos de se pensar em um único endereço. Das patricinhas da Oscar Freire, dos engravatados perto da Paulista, dos moderninhos do Studio SP, das prostitutas do Casarão, dos descolados do Ibotirama, dos cults do Espaço Unibanco, dos mais tradicionais do hotel Braston. Durante minha visita estavam hospedados no próprio hotel alguns roqueiros que iriam tocar no festival Lollapalooza.

Acho que deve ser tudo culpa do tempo, o melhor dos deuses. Essa busca pendular ora por movimento e reinvenção, ora por enraizamento e tradição. Neste sábado, 21, dia do show, faço aniversário. E como estou com quase trinta, reverencio, mas como ainda não tenho trinta, me arrisco a beijar a careca de Carlos Drummond com a frase “e como ficou chato ser moderno, agora serei eterno”.

Um beijo na careca de vocês também!

Até o próximo piano!

Alessa

15/04/12

video: Agustin N.Oroz

ps 1: Um agradecimento ao Fernando do Hotel Braston pela gentileza e sensibilidade de ter abraçado o projeto muito antes dele ter saido na mídia. Outro para Natália Lago que me indicou o piano.

ps 2: Arrasamos na fotografia desta vez, a foto de cima é de Tatêwaki Niô, um fotografo japonês que adorou o blog, a foto abaixo é do Cauã Ribeiro. Outro beijo vai para Marina Pita, Bruno Iasi que também nos acompanharam, eu e meu parceiro de video Agustin Oroz.

Piano nº 4 – Cronometrando o pôr do sol.

 

 

 

 

O telefone toca:
– Alô!?
– Olá Alessa tudo bem? Bla bla bla, blabla blabla o teu blog…Bla bla bla, aqui é a revista da Folha de São Paulo, blabla bla blabla bla, (muitos blablas…)
– !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
– Blablablablabla (mais alguns blas)…O que acha do Terraço Itália???
– !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
– Então combinado!
– Ok, estarei lá!
Desligo o telefone.
– Manhêêê!!! A Folha de São Paulo….Blablabla, não o jornal, a revista…..blablabla, Terraço Itália!!! Terraço Itália!!!!

A internet é realmente um meio de comunicação impressionante, é um disse que disse, compartilhou que compartilhou e quando a gente vê recebe um telefonema destes. Um post de gala! Sem desmerecer os outros que são tão queridos, mas este eu vou ter que ir maquiada.

Como meu acompanhante para o baile chamei meu amigo Agustin Oroz, diretor de video, que entrou para a festa do blog para me salvar no quesito visual. A cavalaria chegou!! Agora com companhia, fomos quixotescamente até a torre de vidro do Edifício Itália. Lá em cima nos aguardava a vista mais bonita de São Paulo, no restaurante que não precisa de apresentações, Terraço Itália.

Lembro do nome “Terraço Itália” das conversas de meu avô e minha avó, sempre com um tom de glamour, como se lá existisse um portal para um tempo maravilhoso de elegância, para anos dourados.

Subimos os 47 andares, 165 metros de altura e entramos no lobby do fino piano bar. E como Chico Buarque já descreveu o Rio e agora empresto suas palavras para falar de São Paulo, uma vista de “arrombar a retina” se impôs diante de nós. Acredito que lá seja o único lugar da cidade que se consegue ver o horizonte de fora a fora, 360 graus de cidade para se perder de vista. É muito alto! Engoli seco o meu medo de altura e cheguei bem perto da beirada para saborear a vertigem.
Esperando nossa visita, estava o piano tcheco August Förster de 1890 de 1/2 cauda, sua madeira de coloração puxando levemente para o alaranjado. Seu som é macio e o grave brilhante e gordo. Outros ilustres que também gostavam da marca tcheca, foram Richard Strauss e Sergei Prokofiev.

Este piano foi comprado na Itália na época do pós guerra, pelo falecido Evaristo Colomatti, empresário fundador do restaurante. Ele veio de navio para o Brasil e foi erguido por guindastes às alturas até atingir os 47 andares. Que vontade eu tenho de entrar numa cápsula do tempo para ver esta cena! Existiam fotos, mas elas foram perdidas em um pequeno incêndio no almoxarifado do Terraço. O piano está lá desde a inauguração em 29 de setembro de 1967, há 45 anos.

Escolhi um jazz de George Gershwin para cantar, o clássico e elegante “The Man I Love”. Fiz o arranjo desta canção há algum tempo, mas gosto tanto dele que achei apropriado oferecer àquela vista algo que me fosse muito querido.

foto: Agustin Oroz

Para descobrir as histórias do piano conversei com o encantador Elizeu Carlos Storion, diretor artístico do Terraço e também o homem por trás do August Förster. Ele senta na banqueta daquele piano praticamente todos os dias há 26 anos.O Terraço tem 4 ambientes com música ao vivo todos os dias. Segundo seu Elizeu era como o fundador Colomatti queria. “É a filosofia da casa.” O restaurante teve sua época de ouro nos anos 70 e era frequentado pelos poderosos e ilustres, dentre eles; Antonio Ermírio de Moraes, FHC, Nicette Bruno e Paulo Goulart, além dos músicos Chico Buarque e Cauby Peixoto. Nesta época as madames vinham dançar e mostrar suas jóias exibindo estilo lá do alto para a cidade toda.

Clientes fiéis vem e ritualisticamente sentam no mesmo lugar, bebem a mesma coisa há anos, casais apaixonados se pedem em casamento, empresários fecham negócios…tudo ao som do piano tcheco e de seu Elizeu.

Contudo, a época Collor ofuscou a trajetória do Terraço Itália que hoje, mesmo de folego renovado, luta para manter o clima de prosperidade em um centro da cidade cada vez mais entregue ao crime e ao abandono.

Seu Elizeu se considera um privilegiado, ele vê o sol jogar seu charme pelos prédios monótonos e cinzas como quem diz “olha como eu sou dourado…olha agora eu de laranja… olha agora meu tom rosado”, saindo à egípcia e dando lugar ao azul marinho depois nanquim da noite, respingada de mini luzes dos prédios todos. A vista inteira muda, um verdadeiro chão de estrelas.

Ele gosta tanto deste momento que passou um tempo cronometrando este ballet nas diferentes estações do ano. Há 26 anos, seu Elizeu contempla esta vista, sabe onde está tudo. Lentamente foi testemunha da cidade, viu ela se esparramar a perder de vista, invadindo a Cantareira, trocando o cinturão verde do Pico do Jaraguá pelo cinza dos prédios.

Ele, de Bariri, interior de São Paulo, o piano, da Tchecoslováquia. Ah.. o sonho dos migrantes…

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa
30/03/2012

video: Agustin N.Oroz

ps: Amo vocês, mas este vai para os meus avós que brilharam os olhos quando contei isso tudo para eles.

ps2: Gilberto Dimenstein falou do meu blog também esta semana! Bloguinho tá causando…!!