Piano nº13 – Piano Bibi

 

o Yamaha de 3/4 de cauda do Teatro Décio Almeida Prado

Como artista independente na cidade de São Paulo, faz parte da minha rotina diária caçar não apenas pianos, mas lugares para me apresentar. Aliás, o blog surgiu como uma alternativa para esta carência. Não só tenho me apresentado mais desde que ele começou em fevereiro, mas como tenho (re)descoberto espaços possíveis para outros pianistas por ai. Descobri que não sou a única nesta busca, várias pessoas acessam o blog para me contar de suas peregrinações.

O teatro Décio Almeida Prado, onde está nosso piano de hoje, me foi indicado por um amigo, artista independente, o muito querido Márcio Lugó. Ele fez seu cd sozinho, compôs, tocou, gravou, e produz sua carreira, toca o rumo de seu barco como bem quer. Ser artista independente não é fácil, mas é uma forma possível, digna e cada vez mais apoiada nos novos meios de comunicação, como as redes sociais, e, inclusive… um blog.

Quando cheguei ao teatro, que é administrado pela prefeitura, fiquei bem surpresa. O espaço cai como uma luva para artistas independentes. Não é um teatro grande, é o tipo de espaço em que o artista ainda consegue olhar no olho de sua plateia. É muito bem equipado e foi reformado recentemente, endi sido reinaugurado em julho do ano passado. O piano do teatro é um Yamaha de ¾ de cauda, modelo C-5, 335 kg. Ele é lindo! Talvez tenha sido o piano mais preciso que toquei desde que começei minha caçada. Ele foi arrematado em um pregão, em 2007, e ainda tem som de novo. Estava muito bem afinado em minha visita e como é um piano adolescente está louco para mostrar serviço. A resposta do pedal é muito boa e o peso é ideal, nem muito leve, nem muito pesado. Com o tempo e gente tocando mais nele seu som irá abrir, vale a pena acompanhar o som deste piano ao longo dos anos.  A acústica do teatro também favorece: como não se trata de um salão amplo, o reverb fica na medida para sons intimistas, que muito me agradam.

Toquei um jazz que eu gosto muito, chama-se Bewitched, Bothered and Bewildered da dupla Rodgers and Hart. Com uma parceria a lá João Bosco/ Aldir Blanc, misturando melodia bem acabadas e humor, Richard Rodgers, compositor, e Lorenz Hart, letrista, fizeram musicais da broadway dos anos 30 aos 50. São os autores de músicas imortalizadas nas vozes de Ella, Sinatra e Holiday, como Blue Moon, My Funny Valentine, The Lady is a Tramp, Falling in Love with You. Bewitched foi feita para o musical Pal Joey, em 1940, e é tema da personagem Vera Simpson, uma socialite rica e entediada que se apaixona por Joey, um mulherengo que se aproveita do dinheiro da madame para realizar seu sonho, de ter um teatro. Mas o dele é mais um teatro cabaret, com mulheres semi-nuas. A produção de 1940 estreiou com Gene Kelly no papel de Joey e Vivianne Segal como Vera e em 1957 Hollywood fez sua versão com Sinatra e Rita Hayworth.

 

cartaz da produção de Pal Joey de 1940

Richard Rodgers no piano e Lorenz Hart, letrista, ao lado.

 

 

Já o nosso fica no bairro Itaim Bibi, que até 2001 pertencia à zona sul de São Paulo (e hoje em dia é considerado zona oeste). A região era toda alagada e servia para a pesca, a caça e outras atividades recreativas até que, em 1896, ela foi arrematada pelo general José Vieira de Couto Magalhães, que foi presidente do Estado de São Paulo. O general teve um filho com uma índia e a região começou a ser chamada Chácara de Itahy que em tupi significa “pedra pequena”. O filho acabou vendendo a propriedade em 1907 para o tio, o médico Leopoldo Couto Magalhães. Ele era conhecido como o “seu Bibi”, bibi (bebê) era como as escravas que cuidaram dele o chamavam. A rua Renato Paes de Barros antes se chamava Rua Bibi, em sua homenagem. João Cachoeira era um agregado da família que também virou nome de rua. A sede da chácara ficava no início da atual rua Iguatemi e, mesmo tombada pelo patrimônio, ela foi destruída pelos seus atuais proprietários.

Um dos filhos de Bibi, Arnaldo Couto de Magalhães loteou as terras e vendeu os terrenos na década de 20 para pequenos agricultores italianos que plantavam verduras e legumes e já não cabiam mais na Bela Vista ou no Bixiga. Os terrenos mais próximos do rio Pinheiros, foram sendo ocupados por atividades ligadas a olarias e forneciam tijolos e telhas para as construções. Esta área mais industrial acabou levando o nome de Itaim Paulista e as àreas menos alagadas e mais perto da casa grande da chácara foram chamadas Itaim Bibi. Hoje o bairro abriga muitas multinacionais como a Morgan Stanley, Internet Group e a Cyrela. Os restaurantes e bares proliferam a cada dia, mas teatros ainda não são muitos.

O espaço leva o nome do ensaísta, crítico de teatro e professor Décio Almeida Prado. Ele foi um dos mais influentes críticos teatrais em São Paulo nas décadas de 40 até 60. Foi professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Foi professor de história do teatro na Escola de Arte Dramática – EAD junto com Cacilda Becker, que hoje dá nome a outro teatro administrado pela prefeitura, nos mesmos moldes do espaço no Itaim Bibi. Com ela, Décio fundou o GUT – Grupo Universitário de Teatro que era ligado à USP. Escreveu sobre o tema na revista Clima de 1941 a 1944 e depois foi responsável pela elaboração de um suplemento literário no jornal O Estado de São Paulo a partir de 1956. Suas pesquisas e artigos tinham como objetivo situar o teatro na cultura do país.

Décio de Almeida Prado na juventude.

Foi responsável pelo amadurecimento da crítica cultural no Brasil – não só apenas o teatro brasileiro estava crescendo e se desenvolvendo, mas o pensamento sobre ele também. O crítico é um especialista em ser platéia, em acompanhar de perto as produções culturais e seus diálogos com outras produções ou com outros aspectos do cotidiano. Para poder criticar é preciso saber traduzir obra e mundo, onde estão estes pontos de intersecção.

Enquanto estive na minha visita ao Décio Almeida Prado, conheci o Daniel Ribeiro, que é responsável pela iluminação do local. A história dele com a prática teatral é antiga. Quando ele tinha 15 anos, ia todos os dias em uma biblioteca em Santo Amaro e via o grupo de teatro que fazia parte da Secretaria de Cultura ensaiar no auditório. Ficava lá “de butuca” até que o diretor o convidou para fazer um teste. Se apresentaram em várias atividades festivas organizadas pela prefeitura. Ele resolveu prestar concurso e passou a fazer parte do quadro de funcionários, e hoje é produtor cultural da Galeria Olido. Mas faz um pouco de tudo, como todo bom artista independente, é iluminador, cenógrafo e ator. Trabalhou com musical, teatro de marionetes, e de mascaras, fez dois filmes, nos quais trabalhou com os atores Paulo Autran e Giulia Gam. Daniel também não é daqui, veio lá de Minas Gerais, com seus 15 irmãos numa kombi velha, jogar a moeda da sorte sobre a capital. Tinha 9 anos de idade.

Todos somos artistas de uma forma ou de outra, alguns resolvem exercer a habilidade outros não. Mas traduzimos e entendemos o mundo desta forma. Os espaços para estas traduções são diversos e inusitados. A tela do computador hoje em dia é também um destes espaços. É aqui, que eu tento, assim como você, desempenhar o meu papel, neste palco, nesta cidade.

Um beijo até o próximo piano.

Alessa

Vídeo: Bruno Teixeira Martins

Ps: Um grande beijo para o Márcio Lugó que me indicou o piano e para a Nathália Gabriel e a equipe do teatro pela gentileza e disponibilidade.

  • profeloy em 07 de October de 2012

    Ai, Alessa! Seus textos são muito bons! Considere transformá-los em um livro no futuro, sua verve historiadora é diferenciada. Acho que terá público.

    • Alessa em 07 de October de 2012

      Oi Eloy!! Sabia que vira e mexe me falam isso…estou começando a considerar!! Bjs ale

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