Piano nº 8 – O uruguaio, os gêmeos alemães e a empresa inglesa.

O Zimmermann e o Ritter & Halle do Centro Cultural Aúthos Pagano.
O Zimmermann e o Ritter & Halle do Centro Cultural Aúthos Pagano.

Eu vivo falando sobre o tempo neste blog. Acredito que, como Caetano diria, ele é um dos deuses mais lindos. Para mim, parece que buscar os pianos de São Paulo tem cada vez mais sido como um retorno ao passado.

Seriam os pianos, máquinas do tempo? Toda a história de um lugar em um objeto.

A edição de hoje foi feita no Centro Cultural Aúthos Pagano, que fica no Alto da Lapa. Aúthos Pagano foi um intelectual que nasceu no Uruguai, mas veio para o Brasil ainda menino. Aos 23 anos escreveu a primeira tese de doutorado em economia do Brasil, “Coeficiente Instantâneo de Mortalidade, defendida em 1939, ela lhe rendeu o título de Doutor Honoris Causa em Cuba.

Estudou também, Filosofia, Direito, Estatística e Matemática, no final da vida se interessou por Astronomia, gostava das leituras de Júlio Verne. Lecionou na faculdade Mackenzie no começo dos anos 50 até a data de seu falecimento em 1976.

Sua casa é abarrotada de livros, são mais de 10 mil títulos em sua biblioteca. Só de “A Riqueza das Nações” de Adam Smith são 13 edições. Leitor voraz, colecionar assíduo,  sua esposa, Dra Carmela Antonia Danna Pagano, relata no livro que escreveu sobre o marido, acreditava que o amor pelos livros era uma expressão da confiaça em seu poder mental,  da busca em se devencilhar das gaiolas em que vivemos, seja pelo espaço horizontal ou vertical.  O homem deseja sair deste mundo afora, baseando-se na própria inteligência.

Talvez, as pilha de livro sob sua mesa, nada mais eram do que escadas para o alto de sua imaginação e inteligência. Escadas que o levavam para aquele lugar de vista tão surpreendente quão indecifrável que só o estudo nos faz ver, nos trás a luz. O mantra e a paz da concentração. Um lugar que só existe para gente, em que reconhecemos o nosso mais íntimo individual e ao mesmo tempo nos revela na coletividade.

Todo nerd de carteirinha sabe exatamente do que eu estou falando. Aquela hora que nos perdemos do mundo de cá, que já não ouvimos mais nada a não ser as frequências agudas das sinapses cerebrais e o pulso grave constante do batimento cardíaco e ficamos em sintonia com o que há do outro lado. Conhecer é, sem dúvida, uma tradução do ato de se abrir.

Em 1982, Dra Carmela doou a residência, com todo seu mobiliário e alguns objetos, além dos 10 mil títulos entre livros, periódicos e discos para o Governo do Estado para a criação do Centro Cultural. Hoje no Centro Cultural Aúthos Pagano são realizadas palestras e oficinas de teatro e música, abertas e gratuitas.

A casa em si é linda, projetada pelo arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik em 1929, no estilo modernista, foi adquirida pelo casal em 1963. Fica no bairro do Alto da Lapa  que foi planejado no começo do século XX pela “City of San Paulo Improvements & Freehold Land Co.Ltda., S.A”, mais comumente chamada Companhia City. Empresa fundada em 1912, ela foi responsável pela urbanização dos bairros Jardim América, Anhangabaú, City Butantã, Alto da Lapa, Bela Aliança, Alto de Pinheiros e Pacaembu em São Paulo e vários outros no interior e até em outros estados.

Os lotes da City
Os lotes da City

Os bairros, todos planejados no conceito que a city chama de “cidade-jardim”, com muitas árvores e lotes com tamanho mínimo. O Alto da Lapa hoje ainda preserva um pouco desta tradição. Em meio a tanto assédio e especulação imobiliária, ele ainda consegue se manter como um bairro de casas.

Anúncio de terrenos, promessa imobiliária.
Anúncio de terrenos, promessa imobiliária.

Na falta de um piano, acabei encontrando dois, ambos alemães. Um deles é da marca Zimmermann que foi doado pela secretaria de cultura. A Zimmerman era no começo do século XX uma das fábricas que mais produzia pianos no mundo. Ele está afinado, possui um timbre bem metálico e agudo. O outro é da marca Ritter & Halle, que tem um timbre mais macio, equilibrado, está bem afinado. A fábrica Ritter & Halle foi fundada em 1828, era uma fábrica pequena. Em 1912 eles produziam anualmente apenas 1.200 pianos, contra os 10.000 pianos da gigante Zimmermann. A empresa era familiar e teve que fechar as portas em 1945, pois não haviam herdeiros para continuar o negócio. Em 2010, a fábrica foi reaberta com ajuda de investidores que resgataram a marca e migraram seus negócios para o oriente, hoje os pianos Ritters são produzidos e exportados para toda a Ásia.

Cantei o standard de jazz chamado Can`t Get Started de Ira Gershwin e Vernon Duke, a letra conta a história de um homem muito avançado para sua época, que teve muitos pontos altos na vida, mas considera sua mais difícil e mais valiosa conquista, o amor da mulher amada. De uma certa maneira acho muito parecido com a vida de Aúthos Pagano.

Ao escrever este post me lembrei de outro personagem deste blog. Elizeu Storion do Terraço Itália, que viu a cidade crescer do topo do edifícil mais alto durante 26 anos, o homem que cronometrava o pôr do sol. Dois homens e seus respectivos jeitos de observar o mundo, suas impressões sobre a cidade, a poética de suas rotinas cotidianas, suas maneiras de viver e ver o tempo.

E os pianos, fixos nestes lugares, observam a eterna fluidez dos fenômenos.

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

01/06/12

Video: Agustin N.Oroz

Ps: Um beijo para a Marília de Moraes Benini, Alcione e Dra. Carmela, outro para todos do Centro Cultural Aúthos Pagano pela gentileza e entusiasmo.

 

  • Eudoxios Stefanos Anastassiadis em 08 de June de 2012

    Alessa, adorei seu projeto,! temos muita coisa em comum… Adoro tocar piano (apesar de nao tocar muito bem…) e desde pequeno toco em pianos “publicos”, principalmente em sp. Esta ultima reportagem sobre o centro cultural Aúthos Pagano foi demais, pois vc coloca sempre um contexto historico e cultural maravilhoso nos seus textos / videos. Parabens! , virei seu fã! MUITO LEGAL!
    Sobre pianos públicos, posso te falar de alguns que já toquei e que devem ainda existir…. talvez vc já saiba, mas se permitir, vai aqui minha contribuição….
    1. Na biblioteca infantil Monteiro Lobato, na rua general jardim, 485. é um prédio incrivel dos anos 50 tem um piano e cauda lá. toquei no inicio dos anos 90 e em recente visita ao local percebi que o mesmo estava por lá ainda…
    2. Nas estaçoes de metro tem um projeto muito bom, vc tocou em um piano do projeto na est. da sé. Mas existem outros 4 pianos Fritz dobbert em outras estaçoes.
    3. na casa de Mario de andrade na rua Lopes Chaves na Barra funda tem um piano tambem.
    4. mas para conhecimento de todos, o PIANO de CAUDA STEINWAY & SONS de cauda inteira que o Mario de ANDRADE como diretor escolheu para o Conservatório Dramático e Musical de SP está guardado na oficina ARONE Piano no Carrão. Aliás, um passeio delicioso, pois só tem pianos incriveis lá, o lugar é mágico. Vc. deveria gravar lá. E esse piano, se ainda estiver por lá é espetacular,som redondo, suave, lindo e profundo.
    5. um piano ícone e que vc. deveria tocar é do Hotel Cad’oro, um ERARD de mais de 100 anos, todo machetado, uma obra de arte. Esta hj guardado com a familia, pois o Cad’oro esta em um aprofunda reforma.
    6. Existe um piano Steinway maravilhoso no Rio de Janeiro em uma escola pública e ele esta um pouco danificado, mas É LINDO, uma peça de um RIO que não volta mais. é para cantar uma bossa nova e gravar….
    7. Na linha hospitais, tem o do Einstein (um Yamaha) e do Sirio Libanes

    Tem mais, mas depois posso te mandar um e-mail pois tem muita coisa legal. Novamente, Parabens pelo trabalho!

    Eudoxios Stefanos Anastassiadis

    • Alessa em 09 de June de 2012

      Nossa Eudoxios, amei teu comentário! Alguns pianos já conhecia, mas se você puder me indicar outros, estou precisando!
      Mande para meu email alessacamarinha@hotmail.com ! Vou adorar ver tuas dicas!
      Obrigada
      Alessa

  • Aline Maia em 04 de April de 2015

    Olá Alessa! Que projeto mais que maravilhoso! Sou pianista e sou fascinada na história dos pianos no Brasil.. tenho um Zimmermman alemão, que infelizmente não sei a data de nascença já que no restauro que foi feito nele, perdemos essa data hahah… desde então fiquei louca por saber sobre os pianos que vinham pra cá antes do surgimento das fábricas nacionais.. Pesquiso sobre o piano no Brasil, e tenho me deparado com anúncios de venda dos pianos Ritter no começo do século XX… você puxou as informações sobre a fábrica Ritter Halle de algum lugar específico? Se você pudesse me falar, me ajudaria bastante!

    Belíssima voz a sua!
    Abraços,
    Aline Maia

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