Piano nº 5 – A Careca do Drummond.

foto: Acauã Ribeiro
foto: Acauã Ribeiro

Um dos endereços mais badalados da cidade é a rua Augusta. Ela começa lá no Jardim América, onde tem o nome de rua Colômbia, passa exibida em meio às lojas de carros importados, pega um fôlego enorme para subir e cruzar apressada a Paulista e se deixa levar numa descida quase hopihariana até o baixo centro. Lá, ela se divide em rua Martins Fontes e rua Martinho Prado.  Nosso piano se encontra no hotel Braston, na Martins Fontes, 330 – que, até 1942, fazia parte também da rua Augusta.

Nascida em 1875, a rua Augusta foi batizada com o nome de Maria Augusta, até se emancipar com 22 anos renomeando-se apenas Augusta, para os íntimos. Augusta, porque o responsável pela abertura da rua, o português Mariano Antonio Vieira, queria batizá-la, não com o nome de alguém, mas com um um adjetivo nobre. Na região do baixo Augusta, ficam também os antológicos cartões postais como o hotel Hilton, a rua Avanhandava e a praça Roosevelt.

Mais recentemente, leia-se de 1950 para os dias atuais, entraram na foto do cartão postal da rua Augusta, os clubes de strip tease, botecos dos hypes aos fuleros, cinemas cults e restaurantes dos mais variados. E esta região vista como velha e decadente foi “revitalizada” por um movimento de jovens ligados em moda, música e comportamento que frequentam estes “spots”.

Sendo assim, antes de chegarmos ao nosso destino final, o tradicional hotel Braston, passamos por tribos de hypes, hipsters, cools, cults, modernos, descolados, rockers, hackers, clubbers, it-girls, hosts, trendies e fashionistas de plantão.

No bar do lobby do hotel está o piano alemão Ibach, cor preta, de 1/2 de cauda. Com sede em Düsseldorf na Alemanha, a família Ibach vem produzindo pianos há seis gerações.  Entre os notáveis que gostavam da marca estavam Richard Wagner, Franz Liszt e Johannes Brahms. Em minhas pesquisas pelos fóruns de piano, descobri que este é um piano raro, sua produção não é tão numerosa, e sua qualidade chega a impressionar, um pequeno notável do mundo dos fabricantes de piano.

foto: Tatêwaki Niô
foto: Tatêwaki Niô

O piano do Braston deve ter vindo parar no Brasil entre 1873 e 1940, período em que a marca começou a exportar pianos para a América, como conta seu site oficial. Ele está afinado, as teclas são leves e tem um som muito bonito. Fiquei bastante surpresa, pois na minha conversa com o gerente do hotel, descobri que ele está sem ser tocado há algum tempo, mesmo que qualquer pessoa possa se apresentar no lobby e se aventurar em suas teclas.

A história em particular do nosso piano é misteriosa, sabemos apenas que ele foi herdado do hotel Hilton, que era também o antigo dono do hotel Braston.  Durante a transação hoteleira o Ibach veio junto de brinde. Que sorte! Mas fico também pensando se não foi por preguiça do Hilton em mover o piano…

Em meio a esta coexistência de coisas na rua Augusta, achei legal tocar uma música pop, para provocar este ambiente tão deliciosamente tradicional. Toquei a música Overjoyed do Stevie Wonder, artista que tenho verdadeira adoração. Escolhi também a música pop porque estreio esta semana, dia 21, meu show ALE SODA POP, no bar Kabul, do lado “descolado” da Augusta. Neste show tocarei teclado, hammond, rodhes e clavinet em arranjos novos para músicas pop. Uma espécie de gêmea da pá virada deste projeto. Fica o convite para a expansão do mundo das teclas para universos digitais e eletrônicos.

Voltemos ao baixo Augusta. Acho que a curiosidade e mística do local seja mesmo este amontoado de tempos, classes sociais, jeitos de se pensar em um único endereço. Das patricinhas da Oscar Freire, dos engravatados perto da Paulista, dos moderninhos do Studio SP, das prostitutas do Casarão, dos descolados do Ibotirama, dos cults do Espaço Unibanco, dos mais tradicionais do hotel Braston. Durante minha visita estavam hospedados no próprio hotel alguns roqueiros que iriam tocar no festival Lollapalooza.

Acho que deve ser tudo culpa do tempo, o melhor dos deuses. Essa busca pendular ora por movimento e reinvenção, ora por enraizamento e tradição. Neste sábado, 21, dia do show, faço aniversário. E como estou com quase trinta, reverencio, mas como ainda não tenho trinta, me arrisco a beijar a careca de Carlos Drummond com a frase “e como ficou chato ser moderno, agora serei eterno”.

Um beijo na careca de vocês também!

Até o próximo piano!

Alessa

15/04/12

video: Agustin N.Oroz

ps 1: Um agradecimento ao Fernando do Hotel Braston pela gentileza e sensibilidade de ter abraçado o projeto muito antes dele ter saido na mídia. Outro para Natália Lago que me indicou o piano.

ps 2: Arrasamos na fotografia desta vez, a foto de cima é de Tatêwaki Niô, um fotografo japonês que adorou o blog, a foto abaixo é do Cauã Ribeiro. Outro beijo vai para Marina Pita, Bruno Iasi que também nos acompanharam, eu e meu parceiro de video Agustin Oroz.

  • Eu já tava com crise de abstinência das histórias, Alessa. Post divertidíssimo!

  • Tocar piano, trocar idéias, topar a vida.
    Cultuar história, curtir metrópole, causar música.
    Porque sim, pois então, brilhante Post in !
    Abreijos Carlos Lopes

  • Rosimar em 17 de April de 2012

    Banho cultural!!! Fazia muito tempo que não ficava ansiosa para ler um texto tão delicioso, como esses do blog. As semanas atualmente estão pontuadas, pela tão agradável leitura. Natuaralmente talentosa Alessa, está permanentemente em minha agenda, como um ritual esperado. Filha amada! A cada semana aprendo mais e mais com seu talentoso toque musical!!!!
    Sucesso!!!! Um beijão na careca para você também!!

  • Pingback: Blog nº 9 – O Som da Oficina. | Alessa, a Cidade e os Pianos

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