Piano nº 14 – Piano Preto, você é feito de aço.

o Yamaha diskclavier preto de 3/4 de cauda da Lexus

São Paulo é dos carros, do trânsito, da mobilidade, do acesso contínuo. Estes parâmetros parecem distantes do mundo das teclas. O piano é lento, demora-se pra transportar, atrapalha o trânsito, não tem mobilidade nenhuma e é uma instrumento que requer tempo e dedicação para se aprender. Quem tem tempo hoje em dia!?

Mas o piano é elegância por definição e isso agrada o paulistano. Ele é estressado, mas não sai do salto. Há um tempo, São Paulo se transformou em roteiro para o mercado de luxo, o dinheiro aqui corre pela Berrini e estaciona na Av. Nações Unidas nº17.271, a primeira concessionária da Lexus no Brasil. Lá está nosso piano, um Yamaha preto, disklavier DGB1KE3.

Os disklaviers foram introduzidos pela marca em 1986, são pianos acústicos, mas com uma interface digital que possibilita gravar a música tocada e reproduzi-la sem que você precise toca-la novamente. Quando chegamos no salão amplo da concessionária, o piano estava tocando sozinho, um tanto inusitado. Muitos podem achar que a existência do próprio piano na loja de carros ainda mais estranho, mas pianos e carros podem ser um grande negócio.

A Lexus é a marca de luxo da multinacional japonesa Toyota, seu modelo em exposição, o LF-A, custa 2 milhões de reais. Mais do que exclusivo, só foram fabricados 500 unidades, que hoje estão espalhadas pelo mundo. O modelo estava em exibição neste último salão do automóvel no Anhembi para deleite dos apaixonados por carro. Para atrair os clientes de luxo, a concessionária construiu sua loja pensando em uma galeria de arte, pé direito alto, café gourmet, champagne e obviamente, um piano de cauda.

A estadia do piano na Lexus se deve a uma parceria com a empresa de instrumentos Yamaha, que fornece o instrumento na esperança de que um comprador de carro mais animado inclua o piano no negócio. Já entraram no pacote e mandaram embrulhar 3 pianos na concessionária.

O dinheiro se confunde entre engrenagens e teclas. A Yamaha, também originária do Japão, está no Brasil desde 1973. Ela foi fundada em 1887, quando fabricou seu primeiro órgão feito de bambu, e hoje  a marca completa 125 anos de história e é a maior produtora de pianos do mundo – desde 1900, ela vendeu 6,15 milhões de pianos. Após a Segunda Guerra Mundial, o presidente da fábrica, Tomiko Ganichi Kawakami, aproveitou sua experiência em metalurgia e começou a fabricar motocicletas. Os motoqueiros que circulam com suas motos pelas avenidas da cidade aposto que não repararam que o logo de suas Yamahas são três diapasões, aqueles garfinhos de afinação, entrelaçados.

Em 2007, a marca comprou uma parte minoritária da marca de pianos inglesa, Kemble (já comentada no post nº 7) e adquiriu ações da icônica marca austríaca Bösendorfer (vide post World Pianos nº 1), ganhando a disputa da americana Gibson que também estava de olho no negócio. Para que a transação fosse aceita, a Bösendorfer exigiu que sua fábrica se mantivesse na Áustria, piano lá é identidade nacional.

O negócio entre pianos e carros não é uma exclusividade japonesa. A Bösendorfer por sua vez, em 2009 anunciou uma parceria com alemã Audi para celebrar o centenário da marca de carros. Foram confeccionados, sob encomenda, pianos bösendorfer com design Audi. O desenho da tampa do piano é arrojado e se assemelha as portas de carro. Os pés do piano, assim como o pedal e o banco, feitos de metal cromado. A parte de madeira que acomoda o teclado, ficou mais fina para dar mais espaço às pernas do pianista. O presidente do grupo Audi em entrevista na época comentou que as dificuldades para a criação do desenho final estimularam a criatividade da equipe, eles tiveram que estudar o instrumento a fundo e que o projeto foi uma ferramenta muito importante que beneficiará os designers no futuro, na própria criação de carros. Carros-pianos?!?!?! Seria bom, com o trânsito de São Paulo, dá pra virar Mozart!

piano Bösendorfer com design da Audi.

 

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Na Rússia, a seguradora de carros In Touch criou a campanha Car vs. Piano. Com a idéia de que acidentes com carro podem acontecer em qualquer lugar, a empresa colocou um piano de 350 kg preso por 9 cabos de aço, em cima de um carro em um estacionamento. A campanha/instalação era filmada 24h horas e todos podiam acompanhar o destino do carro via twitter/facebook. Os cabos eram cortados por eventos aleatórios do tipo: se o time de futebol Barcelona ganhar, corta-se um cabo…tudo visto e comentádo na web. O hashtag #carvspiano em um ponto ficou como o segundo maior trending topic do país e o números de visitas ultrapassou em 200% o esperado pela agência. A campanha foi sucesso mundial.

Diante deste cenário tão inusitado de carro, piano e cidade, achei muito apropriado tocar algo que fizesse sentido. Escolhi o clássico sertanejo de Atílio Versutti e Jeca Mineiro, Fuscão Preto! A letra é tão absurda e dramática que adaptei a canção para um arranjo bolero/jazz. Não é sempre que encontramos os versos “Fuscão Preto/ você é feito de aço / fez meu amor em pedaço / também aprendeu matar”.

O piano não está com a afinação completamente correta, as grandes janelas de vidro e o sol que bate na concessionária com certeza foram responsáveis pela instabilidade das notas, mas o piano tem uma ressonância boa, o salão amplo cria um reverb natural interessante.

Fuscão Preto virou sucesso nacional na voz de Almir Rogério em 1982 e foi baseado numa história verídica de traição, segundo o próprio Almir em entrevista para o site da casa noturna Trash 80`s. Um amigo pintor de Jeca Mineiro e Atílio viu a esposa de um conhecido chegar em um fuscão preto altamente suspeito. A canção foi regravada em italiano ganhando o nome de “Fiat Negro” e em inglês, “Black Mustang”.

Um ano depois, aproveitando a popularidade da canção, Jeremias Moreira Filho dirigiu um filme com o mesmo nome, baseado na letra da música, com o cantor e a então no começo de carreira, eterna rainha dos baixinhos, Xuxa Meneghel. O filme é um clássico trash do cinema brasileiro e conta a história de Diana (Xuxa Meneghel), filha de um fazendeiro, que se envolve em um triângulo amoroso. Ela, de casamento marcado com Marcelo (Dênis Derkian), filho do prefeito da cidade, se apaixona por Lima (Almir Rogério), um cowboy forasteiro. O prefeito tenta persuadir o fazendeiro Lucena (Dionísio Azevedo), pai de Diana, a substituir sua criação de cavalos por uma plantação de cana de açucar. No meio disso tudo, aparece o Fuscão Preto, uma espécie de “Herbie, se meu Fusca Falasse” misturado com Darth Vader e atrapalha os planos de todos, roubando o coração de Diana. Mesmo com o enredo absurdo, o filme discute discretamente a substituição do Brasil rural pelo urbano, do cavalo pelo carro e o “progresso” brasileiro industrial da década de 80. Com cenas impagáveis, Fuscão Preto se tornou um ícone do brega nacional.

cartaz do filme

 

Carros importados, multinacionais japonesas, seguradoras de veículos, fuscas, Xuxa, música sertaneja, filmes bregas nacionais, substituição do rural pelo urbano, trânsito, mais carros e por fim um piano. Ufa! Será que é possível costurar tudo isso com corda de piano!? Parece que sim. A cidade continua aberta, à espera de suas interconexões, dentro do piano cabe tudo até um fusca.

Um beijo até o próximo piano,

Alessa

Vídeo: Agustin N.Oroz.

Ps: Obrigada a todos da Lexus, principalmente ao Mayco Chacon pela gentileza e um beijo grande para Tatiana Petit que achou este piano incrível e me mandou a dica!

  • Alessa, mais uma vez surpreendendo com suas histórias e seus pianos. Li e passeei com você pela concessionária e pela história tão louca com carros e pianos…
    Brilhante!
    Beijos
    Denise Pita

  • Alessa, mais uma vez surpreendendo com suas histórias e seus pianos. Li e passeei com você pela concessionária e pela história tão louca com carros e pianos…
    Brilhante!
    Beijos
    Denise Pita

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