Piano nº 12 – 피아노 significa piano

 

 

 

Temos 512 anos de Brasil, 458 anos de São Paulo. Eu tenho 29 de vida e 9 aqui nesta cidade. Por mais que o tempo passe, confesso que, saber o que é ser brasileiro é uma dificuldade enorme. Sentir-se paulistano então, é uma conta ainda mais complicada.

Parece que todos nós viemos de outro lugar, mesmos os que nasceram na maternidade Santa Catarina que fica na avenida Paulista. Quanto mais pesquiso, concluo que é da natureza do paulistano incorporar outras culturas. São Paulo não existe, é um Frankestein construido de partes alheias. Um braço do interior, uma orelha do sul, a cabeça do nordeste, o pé da Itália…assim vai. Habitamos todos, este grande monstro pesado, cheio de retalhos e emendas, que se movimenta lentamente. Somos células importadas.

Importamos pianos, importamos gente. Tocamos música, contamos histórias. Parece não haver diferença.

Meus 9 anos de vida paulistana é o mesmo número da idade que tinha Regina Hwang, dona do piano deste post, quando chegou no Brasil. Ela e a família sairam de Seul, na Coréia do Sul, e vieram lançar aquela tal moeda da sorte aqui na capital paulista. Ano que vem, São Paulo comemora 50 anos de imigração Coreana, a comunidade já está preparando as festividades e isso será tema da escola de samba Unidos da Vila Maria. Não tem como misturar mais que isso!

A imigração coreana no Brasil está relacionada ao período de instabilidade que a Coréia vivia nas década de 50 e 60. A Guerra da Coréia foi travada entre 26 de junho de 1950 a 27 de julho de 1953 e dividiu a Coréia em Sul e Norte. A primeira capitalista, apoiada pelos estadunidenses, passou a chamar República da Coréia. A segunda, comunista, apoiada pela União Soviética, passou a chamar República Popular Democrática da Coréia. Hoje conhecemos as duas por Coréia do Sul e Coréia do Norte. Já nesta época pequenos grupos de imigrantes vieram para o Brasil

Uma década depois, a instabilidade política ainda existia e, em 1961, levou a um golpe de estado liderado pelo general Park Chung-hee. As grandes imigrações começaram nesta época. A data oficial é celebrada em 23 de fevereiro de 1963, mas o acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo tem fotos incríveis de viagens de um ano antes, quando navios partiam do porto de Busan na costa da Coréia do Sul para atracar no porto de Santos.

Coreanos saindo do porto de Busan para o Brasil. (imagem: acervo digital Museu da Imigração)

Hoje os coreanos são por volta de 40 mil só em São Paulo, fazendo do Brasil o sexto país em volume de imigrações, com mais ou menos 50 mil. Dominam o setor têxtil de confecção e se concentram nos bairros do Brás e Bom Retiro. Quando vieram, se instalaram na Baixada do Glicério ,que é a região localizada às margens do rio Tamanduateí, nos distritos da Liberdade e da Sé.

Nosso piano fica no restaurante Portal da Coréia, localizado na Rua da Glória, 729 – Liberdade. É um piano alemão de armário, castanho, da marca Gustav Breyer, e tem uma história curiosíssima. Ele pertencia a uma pianista coreana que veio para o Brasil com a família em busca de uma professora de piano, que era ninguém mais ninguém menos do que a grande concertista Magda Tagliaferro, que morava no Rio de Janeiro na época. Segundo o relato de Regina, o piano foi adquirido através dela. Fiquei desesperada para saber o nome da pianista coreana, mas Regina só lembra o sobrenome, An.  O piano precisaria de uma reforma, a afinação está mediana, o som está um pouco carregado nas frequências agudas. Mas o peso da tecla está bom e o teclado está nivelado.

Cantei propositalmente a música Oriente, do Gilberto Gil, que está no antológico disco Expresso 2222, de 1972, disco que ele lançou depois que voltou do exílio em Londres. A canção fala sobre uma busca por uma outra ordem de organização, questiona o jeito de pensar do ocidente/egocentrico e propõe uma virada para os valores orientais, para uma filosofia mais integral com a natureza, para uma retomada da concentração. Como podemos ver nos versos: “pela simples razão de que tudo merece / consideração” e também em “pela simples razão de que tudo depende / de determinação”.

Regina tem o restaurante há três anos. Seu pai chegou em São Paulo em 1970 para trabalhar com confecção e dois anos depois a mãe, que também trabalhou com restaurantes, veio com ela e os dois irmãos. Eram apenas os 5 e a cidade. Idioma, comida, moda, música, clima: tudo diferente.

Os pratos mais conhecidos do restaurante são: o Bulgogi – que são fatias finas de carne com um tempero suave assadas na hora numa chapa quente; e o Dolsot Bibimbap, que é um risoto a moda coreana, cozido no prato de pedra com legumes, shimeji, champignon, carne e ovo. Agustin e eu provamos a comida depois da gravação e eles são fantásticos! É uma ótima pedida para quem gosta de comida oriental, mas está cansado daquela mesmice…Tudo é gostoso.

Além do restaurante, ela é professora de Hankook Muyong, dança tradicional da Coréia, sua verdadeira paixão. Ela e seus alunos já se apresentaram em várias cidades brasileiras. Quando perguntei se ela se considera mais coreana ou brasileira, ela respondeu coreana. Para ela, a vida dentro da comunidade foi muito necessária para conseguir se estruturar em São Paulo.  Porém, esta mesma certeza cultural não é compartilhada pelos 4 filhos dela. De outra geração, as três meninas e um rapaz, que hoje faz faculdade na Coréia do Sul, as outras duas estudaram em faculdades brasileiras, e a caçula de 10 ano ainda está no colégio, oscilam entre uma cultura e outra. Ora se sentem brasileiros, ora coreanos. Estudaram em colégios brasileiros, têm amigos brasileiros e dependeram menos dos laços comunitários coreanos.

Todos eles se sentaram ao Gustav Breyer e estudaram piano.  Escutam K-pop, música pop coreana e a nossa MPB. Estão inseridos na cultura antenada e tecnológica da metropole, filhos do mundo cosmopolita, onde fronteiras não importam muito. São Paulo e Seul não estão separadas por oceanos, mas a um clique de distância.

Acredita-se que os primeiros habitantes da Coréia chegaram lá há aproximadamente 500 mil anos, fundando a dinastia Choson.  O que é o peso desta tradição milenar em comparação com nossos minúsculos 500 anos de descobrimento? Como somos mesmo uma terra jovem! No entanto, os tempos de hoje são regidos pelo signo da transformação. Moderno high-tech e tradição milenar são consonâncias de um mesmo acorde, seja lá na Coréia ou aqui em São Paulo.

Nossa crise de identidade não terá hora para acabar. Mesmo um país com tanta história, como a Coréia do Sul, com milênios no sobrenome tem que se reinventar. Acredito que aqui não será diferente. Talvez com alguns mil anos entederemos mais quem somos e o que estamos fazendo.

Quantos pianos ainda até isso!?!?

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

19/08/2012

Ps: Muito obrigada a querida Natália Lago, por mais uma indicação.

  • Eudoxios Stefanos Anastassiadis em 09 de September de 2012

    Alessa, parabens mais uma vez….fantástico! estou super fã do seu site, fico sempre na expectativa de uma aventura nova….e essa foi muito bacana! Todos os detalhes são de extremo bom gosto e sensibilidade, o texto, a edicao do filme, a musica, enfim, é arte pura. Obrigado mais uma vez. Um abraço, Eudoxios

    • Alessa em 09 de September de 2012

      Obrigada Eudoxios!! Fico muito feliz que você esteja acompanhando!

  • Dinho Trompetista em 25 de November de 2012

    Muito bom!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *