Piano nº 10 – Piano de Pau a Pique

“Santa Cecilia, iluminai-me nesta jornada!”

Há 5 meses atrás eu sai de casa para tocar no primeiro piano deste blog. Desde então comecei a entender que essa busca musical seria um mergulho no grande mar de coisas que é São Paulo. Acho que ainda navego por águas claras e aguardo ansciosamente pelas águas fúccias desta cidade profunda. Este é meu 10º piano e reparo agora como suas cordas parecem estar entrelaçadas formando a vela que navega São Paulo. O post de hoje fala sobre a primeira história desta cidade. Onde São Paulo virou caravela. Estamos no Pateo do Collegio, onde foi construida a primeira casa desta cidade.

Tudo no Pateo do Colégio tem a grandiosidade do tempo, o piano que está lá não podia ser diferente. Trata-se de um piano de meia cauda preta da marca francesa Pleyel. Ele foi doado nos anos 80 por uma senhora da elite paulistana. Ela e o marido eram frequentadores da Igreja. Ele era da “Ordem dos Cavaleiros de São Paulo” e ela da “Mulheres Damas de São Paulo”, entidades sociais que todos os dias 25 de janeiro aniversário da cidade apareciam de capas brancas enormes na Igreja.

A fábrica de pianos Pleyel foi fundada em 1795 por Ignaz Playel que era pianista e compositor, além de amigo pessoal de Haydn. Após sua morte o negócio ficou nas mãos do filho Camille, também pianista. Ele também era um grande agitador cultural da época, organizava saraus nos salões, nestas apresentações musicais revelaram-se novos talentos, um novato que foi que apareceu por lá foi Frédéric Chopin. Chopin e Camille ficaram amigos e o célebre pianista passou a ser patrocinado pela marca. Com um excelente olho para achar talentos, Camille apadrinhou Liszt, Franck, Debussy, Grieg, Ravel, Thalberg, De Falla e Stravinsky. Todos davam suas “canjas” nestes saraus.

O Pleyel do Pateo do Colegio (foto: Debora Peroni)

Esse contato com a performance musical teve seu auge em 1927 quando a fábrica, para celebrar seu centenário de tradição, abriu a Salle Pleyel a maior sala de concerto da época. Porém, 9 meses depois de seu nascimento, um incêndio quase acabou com tudo. A sala teve que ser vendida para um banco francês que reergueu os escombros e tornou a Salle Pleyel uma das maiores de Paris. Foi lá que Stravinsky esteve com Agon em 1958.

A marca era a Steinway da época, e inventou inúmeras patentes na construção de pianos. Foram eles que utilizaram pela primeira vez a placa de ferro que fica dentro do piano que dá sustentação para as cordas. Antes esta placa era de madeira. O piano do Pateo do Colégio é um destes modelos antigos. As cravelhas, que são as chaves que permitem controlar a tensão das cordas também são de madeira. O resultado disso é um som bem mais escuro e fechado. O piano precisa de uma boa reforma, principalmente por seu caráter histórico. O pedal não responde muito bem, algumas teclas graves as vezes travam, a afinação está no limite, mas dá para se divertir sim e vale muito a pena para verificar essa sonoridade antiga, além de ver a placa de madeira, que mesmo pintada para imitar ferro, não consegue se esconder. Ele fica em um anfiteatro destinado a reuniões e palestras, para tocá-lo converse e se apresente com o pessoal da recepção.

Toquei o clássico de 1942, Aos pés da Santa Cruz, de Marino Pinto e Zé da Zilda. Ambos moravam no Rio de Janeiro e foram grandes compositores de hits de carnaval e de músicas para a rádio. Marino Pinto é o mesmo autor de “Nós os Carecas” (…é dos carecas que elas gostam mais..) e Zé da Zilda, era sambista da Mangueira, antes era conhecido como Zé com Fome, se casou com Zilda e virou Zé da Zilda, a esposa, com quem mantinha um duo virou Zilda do Zé. A música caiu na boca do povo na voz de Orlando Silva e depois foi regravada na bíblia dos álbuns brasileiros “Chega de Saudades” de 1958 de João Gilberto.

O Pateo do Colégio é um verdadeiro oasis no centro da cidade, lá fora aquela loucura de carros e pessoas apressadas, nos complexos do Pateo, onde funcionam o Museu Anchieta a Biblioteca Pe.Antonio Vieira, a Igreja e um charmoso café o tempo parece não passar, e o melhor de tudo, é um silêncio…

Pateo do Colégio – 1824 – Jean Baptiste Debret

Meu anfitrião foi o mestre de capela de lá, Felipe Bernardo. Espanta-se quem acha que o mestre de capela é um velhinho barbudo, Felipe tem 25 anos e é todo moderno. O que não o impede de ser organista e apaixonado por canto coral. Ele toca na igreja desde os nove anos. Nascido em Botucatu, interior do estado (ahh os migrantes…) ele participa desde do coral do Colégio Santa Marcelina de lá, esteve presente desde o primeiro ensaio e acompanhou por 12 anos o coro que já foi convidado a cantar em Brasília em 2005, depois nos EUA em 2008 e ano passado em Roma e Portugal. Foi nas voltas do ensaio que ele foi ouvindo os cds de órgão do maestro e começou a se apaixonar pelo instrumento. Alguns anos se passaram e ele é o jovem por trás do imenso órgão da Igreja do Pateo do Colégio que tem missa ao meio dia todos os dias, todas muito cheias. A missa é ministrada pelo Pe. Carlos Alberto Contieri é sucesso! Sem ser apelativa, como esta sendo praxe atualmente, o Pateo do Colégio está construindo prestígio e virando referência no canto coral e na música sacra atual.

Felipe Bernardo, mestre de capela e eu. (foto: Debora Peroni)

Felipe Bernardo, mestre de capela e eu. (foto: Debora Peroni)

Ao lado do café ainda está de pé uma parede da primeira construção da igreja datada de 1585, feita de taipa de pilão, uma técnica construtiva de origem ibérica, que nada mais é do que socar em um pilão terra umidecida e adicionar fibras vegetais, areia, estrume, oleo de baleia, algumas vezes substituido por sangue animal, até isso virar uma massa. Ela servia de reforço a uma estrutura de madeira, quando a massa secava, tira-se a madeira e lá está tua parede. Uma espécie de tataravô do cimento.

Mal imaginavam os jesuitas Pe.Manuel de Paiva, Pe Afonso Brás e o irmão José de Anchieta o quanto de cimento ia se esparramar por essas terras, quando celebravam a primeira missa que oficializa a fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga em 25 de janeiro de 1554 em uma cabana de pau a pique com cerca de 90 metros quadrados. Eles se instalaram naquela região pois era um ponto seguro, localizado bem ao alto podia-se ver a movimentação dos indios. Os jesuitas foram expulsos do local  em 1640 por desentendimentos com os bandeirantes, voltaram em 1653, o Colégio já tinha sido totalmente modificado tendo que ser reconstruído. Em 1759 foram expulsos novamente por razões políticas, tendo apenas 3 dias para deixarem o Brasil, voltando para a Europa literalmente com a roupa do corpo. O local passou a ser o Palácio dos Governadores e a contrução foi novamente modificada. A Companhia de Jesus foi suspensa em 1773, expulsando todos os jesuitas da américa e do mundo. Ela voltou a ser restaurada pelo papa Pio VII em 1814. Na ausência dos jesuítas o local foi inteiro demolido em 1896, o altar-mor que estava lá desde 1680 foi levado para a Igreja do Sagrado Coração de Maria que fica na Santa Cecília. Só em 1953 que o local foi devolvido aos padres como um dos marcos iniciais da comemoração dos 400 anos de cidade. Enfim, em 1979 foi inaugurado o Pateo do Colégio como conhecemos hoje, com o sítio histórico, o Museu Anchieta e a Igreja do beato José de Anchieta nos moldes da igreja demolida no século XIX.

A música tem um poder misterioso de unir as pessoas. Esse poder não pode ser explicado racionalmente, ele vem de outra ordem. Eu não sou uma pessoa religiosa, mas a melhor palavra que me vem a cabeça é a fé. É com a música que eu me conecto com o que há dentro de mim e com algo que acredito ser superior a tudo, mas não dou nenhum nome. É com ela que estabeleço a relação mais sincera com as pessoas que estão ao meu lado. Acho que talvez isso seja religião. Um encantamento que te tira do corpo. Era esse encantamento musical que os jesuitas usavam como primeiro contato com os indios. Imaginem o abismo de diferença entre um povo e outro.

São Paulo tem 458 anos e isso me faz pensar em quantas estórias precisam para se fazer história, para estar nos livros e ser ensinada nas escolas. O quantos casamentos entre índios e brancos, portugueses, negros, italianos e todas as pessoas que foram chegando e contruindo suas cabanas ao lado daquela de 90 metros quadrados dos jesuitas, feita de taipa de pilão. Depois da taipa o cimento, o asfalto e a cidade que subiu em cima desta mata, se esparramou como um polvo mergulhando seus tentáculos para os lados, para dentro da terra e para cima.

Imaginavam os três padres enquanto rezaram seus Pai-Nossos e suas Ave-Marias na missa que marca o nascimento de São Paulo o tamanho que isso iria tomar?

Um beijo, até o próximo piano!

Alessa

29/06/2012

Video: Bruno Teixeira Martins e Agustin N.Oroz

Fotos: Débora Peroni

Ps: Um agradecimento especial ao Pedro Paulo Penna Trindade que me contou tudo sobre o piano e a todos do Pateo do Colégio pela gentileza.

  • Caio em 03 de July de 2012

    Alessa!!

    Adorei! Fiquei imaginando onde era esse piano, parecia uma igreja mesmo na foto.
    Ate que o som dele esta bom pelas condicoes que vc disse! Uma verdadeira reliquia!
    Esperando o proximo agora!

    Beijos!

  • Caio em 03 de July de 2012

    Alessa!!

    Adorei! Fiquei imaginando onde era esse piano, parecia uma igreja mesmo na foto.
    Ate que o som dele esta bom pelas condicoes que vc disse! Uma verdadeira reliquia!
    Esperando o proximo agora!

    Beijos!

  • Ana Elizabete Britto em 03 de July de 2012

    Alessa,

    Seu blog é uma beleza, gosto de seu texto, das músicas que escolhe e como toca e canta, realmente tudo de bom. Peço, se possível, que coloque legendas no vídeo, facilita bastante pra gente mostrar pras pessoas que não falam portugues e combina com São Paulo, tão cosmopolita.

    Beijos,

    Ana Bete

    • Alessa em 17 de July de 2012

      ola ana!
      Pensarei no teu conselho com carinho, logo mais o blog estreiara uma novidade para o publico que nao le em portugues!
      (estou em um teclado sem acentos, me desculpe os erros)
      Obrigada pelo carinho
      Alessa

  • Ana Elizabete Britto em 03 de July de 2012

    Alessa,

    Seu blog é uma beleza, gosto de seu texto, das músicas que escolhe e como toca e canta, realmente tudo de bom. Peço, se possível, que coloque legendas no vídeo, facilita bastante pra gente mostrar pras pessoas que não falam portugues e combina com São Paulo, tão cosmopolita.

    Beijos,

    Ana Bete

    • Alessa em 17 de July de 2012

      ola ana!
      Pensarei no teu conselho com carinho, logo mais o blog estreiara uma novidade para o publico que nao le em portugues!
      (estou em um teclado sem acentos, me desculpe os erros)
      Obrigada pelo carinho
      Alessa

  • Felipe Bernardo em 04 de July de 2012

    Alessa querida! Fiquei muito honrado e emocionado com suas palavras! Obrigado!!! E parabéns por esse trabalho maravilhoso! =]

    bjao!!

    Felipe

  • Felipe Bernardo em 04 de July de 2012

    Alessa querida! Fiquei muito honrado e emocionado com suas palavras! Obrigado!!! E parabéns por esse trabalho maravilhoso! =]

    bjao!!

    Felipe

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