Piano nº 3 – Celebrité Spa – "Bonitaaaa…"

o Fritz Dobbert meia cauda do Celebrité Spa.

 

Olá pessoal,

O piano desta edição é um luxo só! Ele me surgiu de forma inesperada e devido à sua localização tão peculiar fiquei curiosa e fui conferir. Tenho recebido indicações de pianos adoidado, mas geralmente eles se encontram em lugares mais tradicionais como restaurantes, hotéis e hospitais. Liguei em alguns deles  e depois de ficar presa em uma burocracia absurda para tocar piano, ouvi meu primeiro sonoro gigantesco NÃO. Comecei a achar que estava cutucando a onça com vara curta.  Deixe estar…

Os pianos parados estão parados há muito tempo, quebrar esta inércia dá trabalho para as pessoas e algumas simplesmente não querem se incomodar. Direito delas, mas destas não espero nada além do marasmo da mesmice.

Foi ai, já um pouco incomodada com minha primeira rejeição, que fui conferir o piano de 1/2 cauda do Celebrité Spa. Como assim?! Um piano no salão de beleza? Sim! Ai que LUXO! Era muita tentação para um corpinho só. Encantadoramente, eles me receberam de braços abertos e foram super atenciosos – enquanto eu vinha traumatizada com aquele não ecoando na cabeça.

Devo esclarecer que o Celebrité Spa não é um salão comum, ele é mais.  Ao entrar no hall da recepção não se imagina o tamanho do lugar que se revela aos poucos, despindo devagar sua suntuosidade. O templo do mimo para teus cabelos, unhas, corpo e auto-estima. O piano é um modelo Fritz Dobbert, arrisco a dizer que é o CS-142 ou o CS-150. Ele está em perfeitas condições, afinado e seu som é macio.

O hall de entrada, onde se localiza o piano, tem um pé direito alto, um lustre de cristal, espelhos, funciona como espaço cultural e café. O som do piano ecoa no salão todo, o que torna a experiência de tocar lá ainda mais interessante. A acústica do pé direito alto dá para o som um caratér ainda maior e mais luxuoso. Aquilo fica ecoando distante, quase que como num sonho, em uma lembrança. Aos finais de semana, o Celebrité Spa contrata pianistas e promove pocket shows de jazz. Fino.

Para este piano, este lugar, escolhi apropriadamente a canção “A Mais Bonita”, de Chico Buarque. A música fala sobre a beleza com que a sinceridade se confunde com dissimulação. O eu-lírico feminino que aparentemente fala sobre a dor, se revela falando logo adiante sobre aDORação de si mesmo. Só que Chico é Chico, mas às vezes ele é Caetano, e ‘a lá’ Caetano, ele coloca uma pincelada de humor nisso tudo e faz a gente perdoar o auto-centrismo da personagem, mostrando nela características nossas. Chico está em turnê e este é um jeito de homenageá-lo por ser este tiozão em forma física/mental/artistica, que ele é e sempre foi.

Aquele ditado “rir é o melhor remédio” é verdadeiramente muito sábio. Talvez o humor seja o único jeito de suportarmos algumas coisas desagradaveis e ele é o cara para colocar uma perspectiva real na tempestade em copo d’água que vira e mexe nos afoga. Melhor é rir, porque do chão não passa.

Beijos e até o próximo piano!

Alessa

18/03/12

Ps: Um agradecimento mais do que luxuoso ao meu querido amigo Lucas Franco que foi uma espécie de diretor do video e idealizou o momento transformação glamourosa. Ao Marcos Vinicius da Matta e Marilia Gabriela da Matta pela gentileza, ao Felipe, a Fernanda e todos do Celebrité Spa. Um beijo para a Ana Maria Straube e seu blog, que em seu post mais recente fala sobre Chico Buarque, que está lincado ao meu.

Piano nº 1 – Estação Sé do metro – "as variáveis do cotidiano"

Fritz Dobbert da Sé

 

Escolhi o piano da estação Sé pelo motivo óbvio: a Sé é um marco na cidade. Estréia triunfal! Inclusive fui fazer a sessão no dia do aniversário de São Paulo. Me enchi de esperança, expectativa e coragem, escravizei uma amiga pra me ajudar e fomos para o metro. Os deuses estavam comigo!

O piano está no mezanino superior, logo após as catracas, entrando pelo Largo do Anhangabaú. Fica em frente ao lugar que os funcionários do metro chamam de “maracanã”, que é aquele espaço redondo vazado pelos 3 andares da estação. A luz entra pelo teto completando a mística do lugar.

É um modelo de piano vertical da marca Fritz Dobbert nº112, que é uma marca brasileira, o mais simples da linha. Ele faz parte do projeto “Piano no Metrô” da empresa de transporte, existem outros pianos localizados nas estações Santana, Tamanduatei e Largo Treze. É aberto para o público, qualquer um pode chegar e tocar. Quando eu cheguei tinham dois caras tocando músicas evangélicas. Esperei eles terminarem e então dei início ao meu projeto.

Para esta edição preparei algo bem popular condizente com o local. Pra não ter erro, escolhi cantar Roberto Carlos.

Ao tocar descobri que este projeto teria uma natureza muito atípica – mais ainda do que eu tinha previsto. Eu tenho que contar com variáveis que não tenho como controlar. Para uma taurina ferrenha como eu, signo de terra e estabilidade, isso é um exercício muito intenso. Todo o castelinho que eu havia construido na minha imaginação foi devastado pelas variáveis do local. É um grande “se vira nos 30” versão pianística.

O piano estava no limite entre afinação/desafinação, mas executável. De qualquer forma, isso alterou minhas reharmonizações da música, que tão intelectualmente trabalhei em meu quarto.  A acústica também não favorecia. Óbvio, é uma estação de metrô!!! De três em três minutos eu tinha que competir com o som de um trem passando!! Nada é amplificado, o microfone que eu levo é apenas para captação de som. Tive que martelar o piano como se não houvesse amanhã, adeus expressão de toque! As pessoas passando e conversando, parando na frente da camera! Um cara do metro querendo cantar comigo… Um sufoco…

No entanto, ver depois que as pessoas pararam suas pressas para me assistir foi muito, muito gratificante – ou, como eu costumo dizer, de extremo grau de fofurice. Por que o piano está lá? Para criar a sensação de uma arte espontânea, despretenciosa e surpreender as pessoas que passam despercebidas e escutam o som.  Não é nenhuma sala de concerto, obviamente. Tem uma função lúdica e didática importante para um cotidiano cada vez mais ocupado.

Sai de lá com mais perguntas do que respostas sobre como fazer o projeto. Mas incrivelmente animada e feliz.

Acho que todos podemos nos relacionar com essa coisa da timidez, ou do excesso de auto-crítica que nos emperra na vida profissional ou pessoal. Dar a cara para bater é um exercício de desapego, mas o medo nos empaca. Nem sempre, ou melhor, quase nunca as coisas sairão perfeitamente do jeito planejado. Mas fazer o que? Se esconder? Não tenho mais idade para isso e nem mais tempo a perder com este tipo de preocupação.

Portanto que venham os pianos desafinados ou em perfeita afinação. Eu só estou começando.

Beijos, até o próximo piano.

Alessa

16/02/12

PS: Um beijo para o Wlad Mattos que me deu a idéia do Blog, para Silvia Góes que me atura toda semana nas minhas aulas de piano, para Fabiola que foi minha camera girl e para a Thais e a Roberta que super estão acreditando que eu vou dar conta disso tudo!